sábado, 8 de junho de 2013

O lápis de Walser

Dias atrás, falando de Balzac e Oscar Wilde, sugeri a analogia entre três cenas de Robert Walser: a) a escritura que resiste mesmo no local escolhido para eliminá-la (o sanatório, a loucura); b) a angustiante materialidade do lápis, que se consome paralelamente à própria vida; c) a última caminhada de Walser como uma decorrência da extinção da materialidade desse mesmo lápis. Talvez no dia em que percebeu que já não era mais possível escrever com o lápis, porque sua materialidade já era inacessível, talvez tenha sido esse o dia que Walser escolheu para sua última caminhada na neve. Até certo ponto, a sugestão já havia sido dada por Sebald em seu livro de ensaios Logis in einem Landhaus (que além do ensaio sobre Walser, conta com textos sobre Rousseau, Gottfried Keller, Jan Peter Tripp, Johann Peter Hebel e Eduard Mörike). No prefácio do livro, Sebald fala de um documentário francês que por acaso descobriu uma noite na televisão - e nele está o depoimento de Josef Wehrle, enfermeiro em Herisau, enfermeiro de Walser quando estava no sanatório (a especulação ficcional em torno desse espaço: está em Pasavento, de Vila-Matas, em I beati anni del castigo, de Fleur Jaeggy). O enfermeiro Wehrle conta ao documentarista, e Sebald conta por sua vez em seu prefácio, que Walser costumava levar sempre "no bolso do colete um toco de lápis e pedaços de papel já cortados para o uso, nos quais regularmente tomava notas". Quando achava que estava sendo observado, continua Wehrle, continua Sebald, Walser "rapidamente escondia os papeis", como se estivesse em meio a "um ato ilícito ou mesmo vergonhoso". Um toco de lápis e os microgramas.    
 

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