sábado, 30 de setembro de 2023

Dois níveis da fabricação de si


"É paradoxal que Bourdieu - que tanto censurou Sartre por ter construído a imagem do intelectual livre, 'sem laços ou raízes', segundo a fórmula de Mannheim, e por ter relacionado o conteúdo dos seus livros, filosóficos ou literários, às suas origens de classe - tenha feito o possível, por meio do dispositivo apresentado como 'científico' em seu Esboço de autoanálise, para separar seu próprio pensamento de seus vínculos e raízes. Ele nos oferece mais uma análise da mente do que do corpo, do pensamento do que da sua inscrição social.

É uma pena que Bourdieu tenha se debruçado tão pouco sobre as disposições adquiridas na sua juventude para entender quem ele era quando entrou no espaço escolar, universitário, científico, no qual iria tentar encontrar um lugar, inventar uma posição, com base em escolhas baseadas em atrações e repulsões, que não derivam, nem todas elas, nem unicamente, da pureza de uma reflexão intelectual, e das quais se pode até mesmo dizer que são quase instintivas.

Aliás, parece-me que é assim que Bourdieu procede em seu livro sobre Heidegger, no qual a análise do habitus ocupa um lugar tão importante quanto a análise do campo filosófico, ou, mais precisamente, os dois níveis de análise são indissociáveis, e a situação que Heidegger fabrica para si próprio no espaço teórico é relacionada de maneira bastante direta às suas inclinações políticas e sociais" (Didier Eribon, A sociedade como veredito, trad. Luzmara Curcino, Ayiné, 2022, p. 95-96).

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Blá-blá-blando


"Na verdade, ao fim me parece, é no cruzamento de Derrida e Lacan que o método dos intraduzíveis pode ser melhor descrito. Derrida e Lacan são, se me permitem dizer, dois compadres que se encontram na sofística. Derrida define a desconstrução como 'mais de uma língua'. Bem longe do logos grego universalista (entenda-se cercado de 'bárbaros', blá-blá-blando com maior ou menor sabedoria) e bem perto da diversidade cara a Humboldt, aqui está, de forma mais selvagem e contemporânea, a maneira pela qual Derrida descreve seu caráter e seu trabalho:

Se eu tivesse que arriscar, Deus me livre, uma única definição de desconstrução, breve, elíptica, econômica como uma palavra de ordem, diria sem delongas: 'mais de uma língua' (Derrida, Mémoires pour Paul de Man)

Ao longo do texto verdadeiramente convincente que faz eco a essa passagem, O monolinguismo do outro, a desconstrução por Derrida de sua própria posição, que se refere a sua experiência como um jovem judeu pied-noir a quem o árabe foi ensinado na Argélia como língua estrangeira facultativa, expressa-se por uma aporia, por sinal trabalhada ou implícita numa sintaxe muito francesa (nada fácil de traduzir...), que ele enuncia assim:

1. Não falamos nunca senão uma única língua.

2. Não falamos nunca uma única língua.

Se tanto Derrida quanto Lacan estão nessa terceira dimensão da linguagem e se tornam atentos a ela, é também porque ambos estão definitivamente conscientes da dimensão do significante. Significante e performance agem juntos."


(Barbara Cassin, Elogio da tradução: complicar o universal, trad. Simone Christina Petry e Daniel Falkemback, São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2022, p. 33-35)

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Brichot


1) Em seu dicionário de nomes e lugares da Recherche, de Proust, Michel Erman apresenta o verbete "Brichot", um professor da Sorbonne, nascido por volta de 1850, apelidado - no romance - de "Chochotte". Erman informa ainda que Brichot pertence ao pequeno clã dos Verdurin, em casa de quem ele tenta brilhar exibindo sua cultura universitária convencional e estéril, até mesmo pedante quando trata Ovídio de "boa mula". Quando não é pedante, é para fazer brincadeiras de gosto duvidoso; durante a Primeira Guerra Mundial, publicará artigos ultranacionalistas na imprensa.

2) Erman define Brichot como um "filólogo distinto e confinado no saber", contribuindo para esvaziar a realidade de sua parte de poesia quando levanta os erros de pronúncia dos habitantes de Combray e restabelece as etimologias em sua exatidão (mais um avatar de uma discussão plurissecular: a distância entre aqueles que se ocupam do pensamento e aqueles que se ocupam das atividades práticas, mente x corpo, e assim por diante). A cegueira que o toma, continua Erman, pode ser interpretada, no plano simbólico, como a prova de que a inteligência é inapta para apreender a realidade. Ao saber racional, o narrador oporá o poder da impressão, que é o fato de uma consciência dedicada ao mundo. 

3) Como antídoto ao filólogo pedante, é possível resgatar um filólogo brilhante e sensível, que se ocupou de Proust: "A crônica da vida interior flui com equilíbrio épico, feita que é apenas de rememoração e auto-observação. Esta é a verdadeira epopeia da alma, na qual a própria verdade envolve o leitor num sonho longo e doce, cheio de um sofrimento que também liberta e tranquiliza; este é o verdadeiro páthos da existência terrena, que nunca cessa e sempre flui, que sempre nos oprime e sempre nos impele" (Erich Auerbach, "Marcel Proust: o romance do tempo perdido", Ensaios de literatura ocidental, trad. Samuel Titan Jr, José Marcos Mariani de Macedo, ed. 34, 2007, p. 340).

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Os limites das coisas


Em seu livro sobre Manuel Puig, Alan Pauls fala de como, em A traição de Rita Hayworth, Puig desenvolve uma dialetologia do sexo, girando e retorcendo certos termos muito específicos que o leitor deve coletar, registrar e analisar: pinchar, clavar, comer, romper el carozo (p. 24). Na perspectiva que constrói Pauls, Puig alcança o Foucault da História da sexualidade muito antes do próprio Michel Foucault (nos anos em que Puig está envolvido com A traição, Foucault está finalizando e publicando As palavras e as coisas): o sexo e o corpo surgem dentro de um sistema que coloca em movimento, simultaneamente, repulsa e atração, proibição e proliferação dos discursos sobre, corpo e sexo como objetos de uma exclusão que é, também, uma afirmação.  

*

Anne Carson, como também fez Foucault, retorna aos gregos: fala de Eros como bittersweet no livro que lança em 1986, reformulação de sua tese de doutorado defendida em 1981; Carson vai atrás dessa dialetologia do sexo, do desejo e do amor, começando com o glukupikron de Safo (palavra desafiadora para a tradução, que funde o doce e o amargo). Carson fala de Tolstói e de Anna Kariênina ("o ódio começa onde o amor termina..."), fala de Lacan e de suas ideias sobre o desejo como falta e como figura do nada, fala de Sócrates e do modo como eros aparece na linguagem do filósofo: eros costurado à ironia e aos jogos de linguagem, já que, como eros, os trocadilhos debocham dos limites das coisas. 

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Leia agora


"Em 1960, Gombrowicz se encontra com Jacobo Muchnik, um dos grandes editores da Argentina, diretor da Fabril Editora, que pu­blicou o que havia de mais interessante na li­teratura europeia e norte-americana daqueles anos, por exemplo O apanhador no campo de centeio, de Salinger, La modification, de Butor, e ainda O estaleiro, de Onetti. Então, por reco­mendação de Ernesto Sabato, que estava em vésperas de publicar Sobre heróis e tumbas na­quela editora, Muchnik recebe Gombrowicz e lhe propõe a publicação de Ferdydurke, que não era reimpresso desde 1947, nos Libros del Mirasol, uma das primeiras coleções de livros de bolso da América Latina, uma coleção po­pular muito boa, em que saíram, entre outras coisas, O som e a fúria, de Faulkner, e O longo adeus, de Chandler. Muchnik, que conta essa história com muita sinceridade em suas memórias de Gombrowicz, propõe ao escritor fazer uma edição de dez mil exemplares e lhe oferece como adianta­mento um terço dos direitos.

“Isso é o de menos”, responde Gombrowicz. “Estou disposto a autorizá-lo a fazer essa edição se o senhor se comprometer a publicar outro livro muito importante que estou escrevendo. Os senhores me fazem um contrato de edição do Diário argentino e eu os autorizo a publicar Ferdydurke.” Muchnik responde que não pode se comprometer sem ter lido o livro. E en­tão, conta Muchnik, “sem desviar os olhos de mim, Gombrowicz enfiou a mão no bolso do casaco e extraiu duas páginas datilografadas, que me estendeu por cima de minha escrivaninha”. Muchnik sugere que as deixe com ele, para que as leia. “Não”, insiste Gombrowicz em tom cortante. “Dá para ler duas páginas num instante. Leia agora. Eu espero.” Então Muchnik começa a ler na frente de Gombrowicz, e “aquele texto”, diz Muchnik,

me fisgou desde a primeira frase. Mas quando terminei de lê-lo eu disse a ele, bom, é extraordinário, mas não posso me comprometer a publicar sem antes conhecer o livro inteiro. Gombrowicz não me respondeu, levantou-se. Por cima da escrivaninha recolheu suas duas páginas, murmurou alguma coisa que não sei se foi um insulto ou uma despedida, e sem mais girou sobre os calcanhares e saiu.

Preferiu não reimprimir Ferdydurke, não receber o dinheiro do adian­tamento, de que sem dúvida estava precisando, porque queria ver o Diário argentino publicado. E há a questão daquelas duas páginas escritas em caste­lhano. Um pequeno enigma: que páginas eram, quem as traduzira? Ou Gom­browicz as escrevera diretamente em castelhano?… Algo que diz respeito à ética de nossa literatura está presente nessa cena. E a história da relação de Gombrowicz com a língua argentina contém algo que diz respeito a todos nós e a nossa tradição literária"


Ricardo Piglia, "O escritor como leitor"

(Revista Serrote, disponível aqui)

domingo, 3 de setembro de 2023

Ovídio e seu rádio


Como na maioria dos livros de Anne Carson, os fragmentos de Short Talks também se apropriam de fatos históricos e personalidades documentadas. Entre fato e ficção, a poesia trabalha no regime daquilo que “poderia ter sido”, “poderia ter acontecido”, imaginando como sensações muito específicas podem aflorar em situações de angústia ou de júbilo. Quando escreve uma fala curta sobre Ovídio, por exemplo, Carson registra: 

I see him there on a night like this but cool, the moon blowing through black streets

Eu o vejo lá numa noite como a de hoje só que fresca, a lua soprando por ruas escuras

A noite de Ovídio no exílio é “como a de hoje”, próxima, ainda que afastada pelos séculos. “Ele come e volta para o quarto. O rádio está no chão [The radio is on the floor]. O luminoso mostrador verde soa baixinho. Ovídio senta-se à mesa; pessoas no exílio escrevem tantas cartas”. Mais uma vez a interferência entre épocas, com um objeto impossível tomado como algo de cotidiano no Império Romano do início da Era Comum. “Agora Ovídio está chorando [Now Ovid is weeping]. Toda noite por volta dessa hora ele bota a tristeza como um traje [he puts on sadness like a garment] e continua escrevendo”.

*

Em seu Collected Poems in English, Joseph Brodsky incorpora cinco traduções: dois poemas de Marina Tsvetaeva, e um de Osip Mandelstam, outro de Zbigniew Herbert e, por fim, um de Wislawa Szymborska. Uma das traduções de Mandelstam é seu poema "Tristia", de 1916, que evoca o exílio de Ovídio. A tradução é uma dupla homenagem: ao poeta latino que o próprio Brodsky admirava muito, a quem, inclusive, dedicou alguns poemas próprios (poemas muitas vezes epistolares, como aqueles de Ovídio); e também uma homenagem ao seu compatriota, que Brodsky considerava o maior poeta russo do século XX.