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sábado, 27 de junho de 2026

Gerberto

Martino Polono,
"Papa Silvestro II e il Diavolo", 1460 ca.
(Martini Oppaviensis Chronicon pontificum et imperatorum)


1) Durante a leitura de um longo ensaio de Erich Auerbach (intitulado originalmente "Lateinische Prosa des frühen Mittelalters", ou seja, "Prosa latina na Alta Idade Média", que faz parte de seu último livro, Literatursprache und Publikum in der lateinischen Spätantike und im Mittelalter, publicado em 1958), redescubro um personagem, Gerberto de Aurillac (946-1003), mais tarde Papa Silvestre II. Auerbach enfatiza seu domínio do latim e sua capacidade de forjar um estilo próprio, apaixonado e compenetrado, mesmo escrevendo em uma língua distanciada do vernáculo; enfatiza também o impressionante feito de um monge de origens humildes se transformar em Papa (detratores posteriores, aponta Auerbach, levantaram a hipótese de um pacto de Gerberto com o demônio).

2) Os dados biográficos oferecidos por Auerbach são poucos, mas é o suficiente para despertar a imaginação, para forçar a imaginação em direção à tentativa de pensar como teria sido o percurso de um monge - matemático e erudito, leitor de Virgílio e Agostinho - para virar Papa, passando por prisões, intrigas e traições dinásticas (Gerberto encaixaria perfeitamente no projeto de Marcel Schwob em Vidas imaginárias, entre Fra Dolcino, Cecco Angiolieri e Paolo Ucello; ou mesmo no projeto das Vite congetturali de Fleur Jaeggy).

3) Em uma nota de rodapé de seu ensaio, Auerbach cita o livro de Focillon sobre o Ano mil, que retomo para reencontrar Gerberto: "É um dos traços mais curiosos de sua correspondência, essa caça aos manuscritos à qual ele consagra tantos cuidados e tantas despesas, prometendo aqui uma larga indenização, e ali, um dos globos celestes que ele sabia fazer construir. Por seus cuidados, Terêncio, Virgílio, Horário, Lucano, Estácio, Pérsio e Juvenal foram salvos, não para as delícias de um bibliófilo ciumento de seus tesouros, enriquecendo-os, ou para o deleite de um letrado que se esconde, mas para entrar na grande corrente do pensamento humano" (trad. Jorge Coli, Unesp, 2024, p. 136).

domingo, 18 de janeiro de 2026

Segredos/espaços




1) Um aspecto a levar em consideração, não apenas na leitura específica de Proleterka, mas da ficção de Fleur Jaeggy em geral, é sua predisposição ao segredo, não apenas a cena derradeira da revelação (como de fato acontece em Proleterka, e justamente com a figura do pai que é tão ostensivamente arrastada ao longo de toda a narrativa) mas todo o longo processo de manutenção dos segredos, algo que dura muito tempo, frequentemente ao longo de gerações e assim por diante - nesse sentido, é um ambiente profundamente burguês e freudiano: a família e suas relações, interdições e rupturas.

2) Em Proleterka, essa ênfase permanente no segredo é deslocada em direção à imagem do espaço fechado: em primeiro lugar, sem dúvida, a embarcação na qual pai e filha estão (em uma última viagem em direção à Grécia), mas a partir desse primeiro espaço fechado, a narradora desdobra outros vários: a casa gerida com mão de ferro pela avó depois da morte da mãe; o colégio interno no qual ela é depositada (o tema por excelência de Jaeggy desde Os suaves anos do castigo, romance no qual instaura toda essa dimensão do segredo/espaço fechado sob o signo da figura e da obra de Robert Walser).

3) Walser morre em 1956, quando Jaeggy tinha 16 anos; nesse mesmo ano, 1956, Thomas Bernhard fazia 25 anos; no ano seguinte, publica seu primeiro livro: a coletânea de poemas, Auf der Erde und in der Hölle. Os três compartilham um ambiente, um clima, uma visão de mundo: o frio, os espaços fechados, os segredos, a "conspiração do silêncio" (que não é uma exclusividade do período pós-II Guerra Mundial, como afirma Sebald), o recolhimento forçado que gera ressentimento, rancor, ódio; a fachada externa de rigor que é mantida à custa da própria sanidade - a grande diferença entre eles é que Bernhard constrói sua poética a partir do rompimento (verbal, performático, biográfico) e da exposição desse rompimento (mesmo posterior na cronologia, Jaeggy, contudo, escreve de um ponto anterior com relação à proposta de Bernhard, que morre em 1989, precisamente o ano de lançamento de Os suaves anos do castigo).

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Duas semanas



1) Na orelha de um dos livros de Fleur Jaeggy (La paura del cielo, "o medo do céu", edição italiana da Adelphi de 1994), aparece um elogio de Joseph Brodsky, sem indicação de fonte: "Duração da leitura: cerca de quatro horas. Duração da lembrança, assim como para a autora: o resto da vida" (a orelha informa que o juízo de Brodsky diz respeito ao livro I beati anni del castigo, sobre o qual já escrevi extensamente aqui). Será que a frase de Brodsky faz parte de algo maior, um ensaio, uma resenha? Ela se repete em orelhas e contracapas de diferentes edições de diferentes livros de Jaeggy, em diferentes idiomas.

2) É curioso que Lev Loseff não mencione - em sua biografia de Brodsky - o nome de Jaeggy, tampouco o de Roberto Calasso. É uma pena, também, que Brodsky tenha morrido em 1996, aos 55 anos (nasceu em 1940, mesmo ano da própria Jaeggy, e também de J. M. Coetzee e Annie Ernaux), não tendo a oportunidade de ler Proleterka, o romance que Jaeggy publica em 2001, excelente continuação dos temas e experimentos narrativos do romance de 1989, I beati anni del castigo. De resto, é um romance sobre a água e as embarcações - o fluxo aquático como metáfora do fluxo do tempo -, temas caros ao próprio Brodsky (como provam vários poemas e, especialmente, seu livro dedicado a Veneza).

3) Proleterka começa com a narradora desejando ter em mãos o recipiente com as cinzas de seu pai (Sono passati molti anni e questa mattina ho un desiderio improvviso: vorrei le ceneri di mio padre). Desse ponto de partida, ela se lança em direção ao passado para contar a viagem que fez com o pai, quando tinha dezesseis anos, a bordo do navio iugoslavo Proleterka, ancorado em Veneza e com destino à Grécia, para um cruzeiro de duas semanas (uma espécie de forçado viver-junto barthesiano; uma evocação do ambiente marinho de Paul Valéry; uma evocação, ainda que longínqua, da travessia que Thomas Mann faz com o Dom Quixote).    

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Worstward Ho!


1)
Em algum momento da virada do século XIX para o XX - talvez como um efeito de superfície da morte de Deus de Nietzsche? - a literatura passou a considerar o messianismo com uma ênfase diversa, modificada. A espera já não é mais recompensada, embora não seja jamais encerrada - como no caçador Graco de Kafka, ou na anotação do próprio: há esperança, mas não para nós.

2) O sebastianismo de Fernando Pessoa, por exemplo, já é declinado em uma língua estrangeira, já é observado do lado de fora - o mito da grandeza futura é da ordem da espera kafkiana, elástica e amorfa, fingindo esperar (ansiar) aquilo que de fato espera. Em 1934, mesmo ano de Mensagem, Walter Benjamin não só publica seu ensaio incontornável sobre Kafka ("o portal para a justiça é o estudo"), como também troca uma intensa correspondência com Gershom Scholem sobre o autor de O castelo: em Kafka, a projeção do Julgamento Final sobre a história humana é o relato de um fracasso, escreve Benjamin.

3) É no fracasso que se dobra a aposta: Fail again. Fail better, escreve Beckett em Worstward Ho!, de 1983, mas que retoma um tema constante, desde o Godot, de 1953: tudo conflui em direção à fábula de Beckett, a desistência impossível mesclada com a esperança irônica (o double bind que Bateson anuncia na mesma década). Algo disso está no relato de Del Giudice de sua busca (impossível, irônica) dos rastros da figura enigmática e elusiva de Bobi Bazlen em O estádio de Wimbledon; algo disso está na busca por Walser em I beati anni del castigo (1989), de Fleur Jaeggy, um gesto no qual a espera se transforma em busca infrutífera, que ela retoma vinte anos depois com Vite congetturali, proliferando em direção às vidas de De Quincey, Keats e Schwob.       

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Uma casa atrás de si

1) Humanismo, domesticação, controle. Para o Thomas Bernhard de Extinção é a casa paterna que representa esse cenário de inibição - é a casa que leva à fuga e, depois da morte do pai, é a doação da casa que simboliza essa "liquidação" ampla do legado (para usar um termo de Imre Kertész). Possibilidades e variedades de fuga, como no ensaio de Derrida sobre os sapatos de Van Gogh: se Meyer Schapiro é aquele que insiste na materialidade dos sapatos e na efetividade deles na vida do pintor, é porque procura deixar sempre na superfície o lado trágico da fuga; Heidegger, por outro lado, é definido por Derrida como "aquele que podia permanecer", que tinha uma casa atrás de si - e que fazia tanto da casa como do retorno premissas de seu pensamento.
2) Para Peter Sloterdijk, "a casa, os homens e o animal" formam "um complexo biopolítico". Daí decorre "a íntima conexão entre domesticidade e construção de teoria", a teoria como uma variedade de serviço doméstico, mas, "desde que saber passou a significar poder", assume também "o caráter de trabalho". A casa como centro organizador da experiência do mundo e no mundo. "Também os passeios a pé", continua Sloterdijk, "nos quais movimento e reflexão se fundem, são derivados da vida doméstica". E agora a frase que atualiza a percepção de Derrida: "as mal-afamadas caminhadas meditativas de Heidegger por campos e bosques não deixam de ser movimentos típicos de quem tem uma casa atrás de si" (Regras para o parque humano, p. 37).
3) É responsabilidade da casa formar adequados construtores de casas futuras - eis o papel do administrador, do sábio, Heidegger. O reverso da moeda está não só em Extinção, com a fuga e depois a liquidação, mas também em O sobrinho de Wittgenstein, também de Bernhard, em que a casa ganha sua feição menos edulcorada e se transforma na Instituição Psiquiátrica. Esse é o lado perverso da casa que começa a surgir em Robert Walser - também ele um caminhante meditativo - e explode nos anos de castigo de Fleur Jaeggy (aqui a instituição também é liquidada, como a casa de Bernhard). Pode-se pensar na casa paterna em Kafka, uma mescla de manicômio, prisão e museu de história natural.

sábado, 8 de junho de 2013

O lápis de Walser

Dias atrás, falando de Balzac e Oscar Wilde, sugeri a analogia entre três cenas de Robert Walser: a) a escritura que resiste mesmo no local escolhido para eliminá-la (o sanatório, a loucura); b) a angustiante materialidade do lápis, que se consome paralelamente à própria vida; c) a última caminhada de Walser como uma decorrência da extinção da materialidade desse mesmo lápis. Talvez no dia em que percebeu que já não era mais possível escrever com o lápis, porque sua materialidade já era inacessível, talvez tenha sido esse o dia que Walser escolheu para sua última caminhada na neve. Até certo ponto, a sugestão já havia sido dada por Sebald em seu livro de ensaios Logis in einem Landhaus (que além do ensaio sobre Walser, conta com textos sobre Rousseau, Gottfried Keller, Jan Peter Tripp, Johann Peter Hebel e Eduard Mörike). No prefácio do livro, Sebald fala de um documentário francês que por acaso descobriu uma noite na televisão - e nele está o depoimento de Josef Wehrle, enfermeiro em Herisau, enfermeiro de Walser quando estava no sanatório (a especulação ficcional em torno desse espaço: está em Pasavento, de Vila-Matas, em I beati anni del castigo, de Fleur Jaeggy). O enfermeiro Wehrle conta ao documentarista, e Sebald conta por sua vez em seu prefácio, que Walser costumava levar sempre "no bolso do colete um toco de lápis e pedaços de papel já cortados para o uso, nos quais regularmente tomava notas". Quando achava que estava sendo observado, continua Wehrle, continua Sebald, Walser "rapidamente escondia os papeis", como se estivesse em meio a "um ato ilícito ou mesmo vergonhoso". Um toco de lápis e os microgramas.    
 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A inocência é uma invenção dos modernos

O internato foi destruído. Não existe mais. Quando soube, não pude esconder minha satisfação. Me parecia imortal. Até mesmo a majestosa escadaria de mármore e as camas circundadas de gazes, que anunciavam candor e morte, foram demolidos. Disse a Frédérique, a ela podia contar, como a destruição daquele prédio me deu un parfait contentement (assim está escrito em uma carta do tarô). Também disse a Frédérique que talvez tenham sido nossos pensamentos, ou as emanações que habitam a idade da inocência, a destruí-lo. Ela dizia que a inocência é uma invenção dos modernos.

Fleur Jaeggy. I beati anni del castigo
Milano: Adelphi, 1989, p. 79-80.
*
1) A dimensão do viver-junto é, também, a dimensão do afeto: a proximidade dos corpos exige, como contrapartida, o desenvolvimento dos afetos - a direta e inexorável influência de um corpo sobre o outro. A narradora de Fleur Jaeggy, depois de anos e anos vendo outras meninas chegarem e partirem, finalmente se apaixona por Frédérique - mais velha, misteriosa, como se já tivesse vivido toda sua vida por antecipação. No Jakob von Gunten de Walser, Jakob também se apaixona - muitos de seus dias são preenchidos pela observação dos movimentos de Klaus, tão viril, decidido, desprovido de dúvidas (seu oposto, em suma).
2) Walser, no entanto, não parece nutrir qualquer interesse sobre o futuro de seu instituto - ou o futuro das pessoas do passado, dos prédios do passado, das imagens do passado. Talvez venha daí toda a estranheza de livros como Doutor Pasavento, de Vila-Matas, ou I beati anni del castigo, de Fleur Jaeggy - ou de O estádio de Wimbledon, de Daniele Del Giudice. Tentam rastrear aquilo que, desde o início, foi pensado como improvisado, fugidio, feito de ar - e fazem, ainda por cima, de forma ficcional, como se dissolvessem um punhado de areia dentro do oceano.
3) Quando Sebald decide escrever sobre Walser, quando esse Sebald tão dependente dos rastros, da documentalidade e do confronto com os escombros do passado decide escrever sobre Walser, deve necessariamente encontrar um ponto de apoio - e essa referência é seu avô, que morreu no mesmo ano de Walser, 1956. Não é curioso que nesse ano, 1956, Ernst Jünger decida finalmente publicar sua tradução dos Pensamentos de Antoine de Rivarol (1753 - 1801), um projeto que Jünger preparava desde a II Guerra, essa guerra que ele registrou com seu corpo e seus diários, guerra cuja história e destruição foram tão importantes para Sebald, sua vida e sua poética? A leitura de Jünger de seu mundo, em 1956, passava pelo resgate de uma figura obscura do passado e, principalmente, passava por uma ética da citação, da tradução e da apropriação de um outro - sua resposta ao caos era uma resposta anacrônica, uma sorte de necromancia através do texto, um texto que mesclava ensaio, citação, glosa e cotejo, um híbrido.
  

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O grau zero do estar-no-mundo

1) Justamente por seu caráter lacunar e sucinto, I beati anni del castigo fica ainda mais sensível ao influxo de outros livros e autores. A narrativa transmite uma espécie de grau zero do estar-no-mundo - como se a narradora, ao resgatar seus anos de educação, seus anos de castigo, finalmente pudesse dar uma amostra do quão eficaz foi seu apagamento, de como sua vida futura foi determinada por suas vivências desses anos. A narrativa da memória mimetiza o próprio lugar onde os eventos aconteceram - e é particularmente inquietante descobrir, nas últimas linhas do romance, a dimensão da vacuidade desse espaço até então apenas relembrado.
2) Assim como no Jakob von Gunten de Walser, um casal toma conta do instituto - e a mulher tem o papel determinante: Frau Benjamenta para Walser, Frau Hofstetter para Jaeggy. O livro de Jaeggy é também um excelente exemplo daquilo que Roland Barthes definiu como o viver-junto: todo o campo ficcional que se forma a partir do arranjo contingente de corpos em um espaço restrito e povoado de tensões permanentes (no caso de A montanha mágica, de Thomas Mann, a tensão permanente é, do lado de dentro, a morte e, do lado de fora, a guerra; em I beati anni del castigo, a tensão vem daquilo que Jaeggy chama de "castigo", ou seja, a lenta, progressiva e inexorável transformação da espontaneidade infantil em conduta, cultura, educação).
3) No livro de Jaeggy, contudo, o viver-junto barthesiano está ligado ao Neutro - essa categoria de Blanchot que Barthes também retoma em um seminário. Na narrativa de Jaeggy (e também na do Walser de Jakob), o neutro se funda a partir da permanente simultaneidade de afirmação e negação - enquanto o tempo passa, as crianças crescem, as aulas acontecem, ou seja, ao mesmo tempo em que as experiências se acumulam e se encadeiam, há, como meta final dessa progressão, um esvaziamento, um silenciamento, uma celebração da impossibilidade de criar, de ser o que quer que se possa ser. Esse neutro, fundado na co-existência de fundação e destruição, só pode existir no ambiente restrito do instituto - um Neutro, portanto, que é filtrado e complexificado pelo viver-junto. 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Os beatos anos

1) A primeira questão que aparece é: como traduzir a palavra beati, que aparece no título original? I beati anni del castigo - a história do termo é longa, pois vem direto do latim ("beatum") e acumulou uma série de usos ao longo dos séculos. Podemos pensar, por exemplo, no livro de Antonio Tabucchi - Os voláteis do Beato Angelico. Beato Angelico foi um monge pintor, que escolheu o nome "Beato" para si porque a palavra representava, para ele, a "felicidade" e "fortuna" de servir a Deus. Antes de Angelico, portanto, a ênfase de "beato" estava mais sobre a "felicidade" do que sobre a "religiosidade". 
2) Uma tradução literal - "Os beatos anos do castigo" - talvez não alcance as camadas mais profundas do romance. Por outro lado, a tradução ao espanhol (Los hermosos años del castigo), ao francês (Les années bienheureuses du châtiment) e ao inglês (Sweet days of discipline) reforçam apenas o lado gozoso do contexto, optando por deixar de lado o sentido por vezes espiritual de beatum.    
3) Essa palavra, portanto, desde muito cedo, acumula uma carga religiosa que é por vezes enganosa. Há uma carga mística no livro de Jaeggy - o colégio como um espaço de abandono do ser, como um espaço de esvaziamento das pulsões individuais -, que ganha ainda mais força quando os "anos beatos" ou "anos felizes" se tornam "anos de castigo". Os anos de castigo são justamente os anos de educação, o tempo que leva para uma pessoa passar do estado "natural" para o estado "civilizado" - porque essa é uma das principais ênfases que coloca Jaeggy: como uma criança aparentemente normal pode se tornar, sob os estímulos corretos, uma figura anônima e apática. 

quinta-feira, 3 de maio de 2012

I beati anni del castigo

Aos quatorze anos eu estudava em um internato no Appenzell. Um lugar no qual Robert Walser havia feito muitas caminhadas quando estava no manicômio, em Herisau, não muito longe do nosso instittuto. Morreu na neve. Fotografias mostram suas pegadas e a posição do corpo na neve. Nós não conhecíamos o escritor. Nem mesmo nossa professora de literatura o conhecia. Às vezes penso como seria bonito morrer assim, depois de um passeio, deixar-se cair num sepulcro natural, na neve do Appenzell, depois de quase trinta anos de manicômio, em Herisau. É realmente uma pena que não soubéssemos da existência de Walser, teríamos levado uma flor para ele.

Fleur Jaeggy. I beati anni del castigo.
Milano: Adelphi, 1989, p. 9
*
A primeira vez que li o nome "Fleur Jaeggy" foi em Doctor Pasavento, o romance de Vila-Matas. Escrevendo em espanhol, Vila-Matas cita o título do livro em francês, Les années bienheureuses du châtiment - um livro escrito originalmente em italiano, publicado em 1989. Grande parte do fascínio de Doctor Pasavento está em sua maníaca perseguição a Robert Walser, e tudo que Vila-Matas fala sobre o livro de Jaeggy é que se passa rigorosamente no mesmo lugar em que Walser viveu suas últimas décadas de vida. Primeiro pensei que fosse um livro inventado por Vila-Matas, como tantos outros. Quando verifiquei a autenticidade de Fleur Jaeggy e I beati anni del castigo, passei a imaginar como seria uma narrativa que toma como ponto de partida a geografia crepuscular de Robert Walser. Depois de finalmente ler o livro, descubro que esse caráter parasitário é apenas a superfície - o cerne é muito maior, feito de angústia, vazio e um silencioso desespero diante daquilo que poderíamos chamar, no sentido que dava Gombrowicz a essa palavra, de maturidade.