1) Johann Joachim Winckelmann (1717-1768) usa como epígrafe no seu Versuch einer Allegorie, besonders für die Kunst (Tentativa de uma alegoria, especialmente para a arte - disponível digitalizado aqui), publicado em 1766, uma frase que Plutarco (em De gloria Atheniensium) atribui a Simônides de Ceos (ca. 556 a.C.-468 a.C.), poeta epigramático: "a pintura é uma poesia muda e a poesia uma pintura que fala". Winckelmann reconhece os limites entre as artes, mas não deixa de descrever, de mobilizar a ekphrasis: é o que faz com as três principais esculturas das quais se ocupa, o Laocoonte, o Apolo Belvedere, o torso de Hércules (desenvolvimentos aqui).
2) O que Goethe (1749-1832) resgata e amplia de Winckelmann? A insistência em uma tarefa impossível e que, justamente por isso, deve ser feita - a descrição, a tradução via discurso daquilo que é visual. Goethe, curiosamente, pouco fala do encontro com o Laocoonte em sua viagem à Itália entre 1786 e 1788, durante a qual a obra de Winckelmann operou como guia espiritual: "A História da arte de Winckelmann, traduzida por Fea na nova edição, é obra bastante útil, e eu a comprei de pronto, julgando muito proveitosa a sua leitura aqui, em boa, especializada e instrutiva companhia" (Roma, 3 de dezembro de 1786, Viagem à Itália, trad. Sérgio Tellaroli, Cia das Letras, 1999, p. 174).
3) Mas o Laocoonte ganhará o primeiro plano na reflexão de Goethe poucos anos depois: sua descrição e comentário dessa obra, "Über Laokoon", foi publicado em outubro de 1798 no primeiro número da revista Propyläen, que Goethe funda com Schiller e Friedrich August Wolf (durou apenas até 1800; coincidentemente, corresponde aos mesmos anos de existência da revista concorrente, do grupo dos primeiros românticos de Iena (os irmãos Schlegel, Novalis), a Athenäum - maio de 1798 a agosto de 1800). Aquilo que para Winckelmann é transcendência, para Goethe é evidência do corpo e de seu sofrimento; no primeiro, metáfora; no segundo, intuição estrutural.

Davi Arrigucci Jr. trata do Laocoonte em seu ensaio “A beleza humilde e áspera”, incluído em O cacto e as ruínas, ao analisar o poema “O cacto”, de Manuel Bandeira. A ideia central é muito interessante: o Laocoonte funciona como uma imagem do sofrimento humano e ajuda a transformar um acontecimento aparentemente banal (a queda de um cacto) em uma representação do trágico.
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