terça-feira, 25 de agosto de 2026

Ruptura/sublime



1) A relação entre a obra de Ledig e a leitura que dela faz Sebald é cheia de ressonâncias e sutilezas: em primeiro lugar, a dissonância entre o que o público esperava da literatura nos anos 1950/1960 na Alemanha e aquilo que Ledig oferecia (um "público", na verdade, que agora é deduzido das críticas feitas à época); em segundo lugar, um interessante desdobramento das ideias de Foucault sobre como um discurso pode ou não "estar no verdadeiro" de sua época (a aula inaugural de dezembro de 1970, A ordem do discurso, publicada em 1971). 

2) É digno de nota que a autora do texto tenha resumido as reservas das críticas feitas a Ledig com a expressão "excelente capacidade de representação", que descreve a "falta" do autor: ser excessivamente preciso em sua representação do real, ou melhor, em sua transposição dos detalhes da experiência à linguagem (o terreno de atuação de Erich Auerbach, que encerra Mimesis com Virginia Woolf porque o escreve em 1944; mas não é absurdo pensar em Ledig como parte do material analisado em um hipotético capítulo subsequente de Mimesis). 

3) Isso porque um hipotético novo capítulo de Mimesis, pós-1944, necessariamente precisaria lidar com os efeitos da guerra e das ações nazistas (como Adorno já aponta em 1949 no ensaio "Cultura crítica e sociedade"); e, no caso específico de Ledig e de seu romance Vergeltung, Retaliação, para além da complexa relação entre obra e recepção imediata (um problema que sempre interessou Auerbach, que usa variações da ideia de que uma obra disruptiva cria seu público futuro em seus comentários sobre Dante, Rabelais, Montaigne, Proust), suas cenas de destruição (via bombardeios) acessam uma dimensão do sublime que certamente chamariam a atenção de Auerbach.

sábado, 22 de agosto de 2026

Sem rodeios


Ainda um trecho do texto sobre a relação entre Gert Ledig e Sebald: 

"Em 1956, a crítica a Vergeltung se dividiu entre o grupo daqueles que consideravam a linguagem utilizada por Ledig precisa e que ele tinha uma excelente capacidade de representação e aqueles que consideraram a obra excessivamente cruel e repulsiva, havendo até mesmo alguns que acharam a descrição do bombardeio exagerada e não condizente com a realidade. 

Essas críticas foram claramente pautadas pela experiência pessoal de seus autores, a qual definiu se o que era descrito deveria ser entendido como verossímil ou não. Mas a precisão das descrições não parece ter sido o que causou o desaparecimento do livro por tão longos anos, e sim o fato de as mortes brutais serem despidas de qualquer sentido ou consolo. Apenas o distanciamento temporal de pouco mais de dez anos não era suficiente para que o público já estivesse pronto para receber o livro, pois o processo de recuperação da guerra foi muito mais extenso na Alemanha. 

Além de o país ter sofrido a divisão em duas partes, a questão da culpa pelos crimes de guerra, da destruição das cidades e do extermínio de judeus ainda deveria ser trabalhada. A discussão aberta por Sebald foi um sinal de que era chegado o momento para que Vergeltung encontrasse uma repercussão notadamente positiva. Sebald clamava por livros que representassem a destruição da guerra aérea de forma direta, sem rodeios" (p. 105)

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Opinião dividida


Revisito um texto sobre a relação entre Gert Ledig e Sebald, atentando especialmente para as estratégias de apreciação (e posicionamento no tempo e no espaço) do segundo em relação ao primeiro (visando uma espécie de arqueologia do Sebald-crítico, que redundará, necessariamente, no Sebald-narrador): 

"Sebald tem uma opinião dividida sobre o valor da obra [Vergeltung (Retaliação), de Gert Ledig, publicado em 1956]: ao mesmo tempo que afirma que alguns momentos são captados com precisão assombrosa, considera que outros são 'forçados'. Além disso, ele acredita que a razão para que a obra tenha caído no esquecimento tem uma conexão maior com a personalidade de Ledig, que ele considera “uma espécie de maverick”, do que com o caráter estético da obra. 

Ledig foi uma criança pobre, criada por parentes após o suicídio da mãe. Na guerra, ele lutou na Rússia, onde foi atingido duas vezes. Devido aos ferimentos, ele teve de abandonar a guerra e voltar para a Alemanha. Estabelecido em Leipzig, ele perdeu tudo o que tinha durante um bombardeio em 1944. Ledig chegou a ser convidado para participar de encontros do Grupo 47, mas só compareceu duas vezes. 

É verdade que a biografia atípica de Ledig pode ter sido responsável por problemas de socialização que fizeram com que ele não se sentisse confortável no Grupo 47 e decidisse largar a carreira de escritor para se dedicar à publicidade, mas também é essa biografia que garante, além da perspectiva tanto do front quanto dos bombardeios na cidade, a capacidade de Ledig de realizar essa representação crua dos bombardeios" (p. 94-95)

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Chaucer x Boccaccio

Illustrations for Sir John Mandeville,
Voyage d'outre mer

1) Ainda no último capítulo ("O público ocidental e sua linguagem") de seu livro (Linguagem literária e público na Antiguidade tardia latina e na Idade Média), Auerbach (p. 325-326) faz uma aproximação entre Chaucer (1343-1400) e Boccaccio (1313-1375): apesar da "herança medieval comum a toda a Europa Ocidental", e a despeito das "influências antigas, cristãs e francesas refletidas em seus temas, ideias e formas de expressão", escreve Auerbach, "uma forte individualidade e um caráter popular manifestam-se desde o início" nas letras anglo-saxãs (que deve se afirmar mais contra o francês das cortes do que ao latim). Em nenhum outro lugar da Idade Média "correntes sociais tão profundas e variadas" foram retratadas com tamanha "veracidade concreta", empatia e humor quanto na Inglaterra do século XIV, afirma Auerbach.

2) Para Auerbach, os Contos da Cantuária superam o Decamerão "como retrato vívido da época": os narradores de Chaucer são peregrinos de todas as camadas sociais; possuem características marcantes, e as relações entre eles são "retratadas com vivacidade"; a estrutura da obra oferece um quadro dinâmico do cenário social da Inglaterra. Os narradores de Boccaccio formam um grupo de jovens elegantes e cultos que se refugiaram em uma casa de campo para escapar da peste; pertencem à mesma elite social e são caracterizados de forma pouco definida: é a atmosfera de uma cultura homogênea, e os elementos vulgares são assimilados por esse meio refinado; "lições morais" e "compilações típicas da Idade Média" estão praticamente ausentes; não há "ruptura estilística". Chaucer, por outro lado, completa Auerbach, utiliza como narradores pessoas que Boccaccio emprega apenas como "personagens de suas histórias".

3) Ao retratar, dessa forma, classes sociais muito mais baixas como dotadas de consciência e discernimento, Chaucer transmite uma imagem do país muito mais aguda e politicamente carregada. O estilo, de fato, é menos homogêneo e seguro, e quase não há vestígios de humanismo. Chaucer ainda faz uso considerável de exemplos de erudição superficial herdados do início da Idade Média; o efeito é, muitas vezes, algo grotesco, como no caso das histórias misóginas que a Mulher de Bath apresenta como o acervo literário erudito de seu falecido quinto marido (em resumo, o que se perde em estilo, se ganha em vivacidade).

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

A vista, o leitor



1) Ainda no último capítulo ("O público ocidental e sua linguagem") de seu livro (Linguagem literária e público na Antiguidade tardia latina e na Idade Média), Auerbach busca fazer uma conexão entre a evocação do leitor nos textos e a formação de um público leitor (se o texto mobiliza essa figura do leitor, é provável que tenha uma ancoragem no mundo real). Auerbach registra que tais evocações dos leitores já estão presentes em Ovídio e Marcial; tal tradição se mantém na literatura latina ao longo da Idade Média, alcançando Dante e a Divina Comédia. Antes de chegar a Dante, contudo, Auerbach (p. 298) reforça a ruptura apresentada por Santo Agostinho, em particular, e pela renovação estilística cristã, em geral: surge a urgência do contato entre emissor e receptor, autor e leitor/ouvinte, um apelo entre iguais que configura o cerne do sermo humilis.

2) Nessa mesma página em que fala de Agostinho para chegar a Dante, Auerbach acrescenta uma nota de rodapé para falar de Charles Baudelaire: também ele reconfigura essa longa tradição de evocação do leitor, um "eco" que é também uma "caricatura" de um tema cristão, escreve Auerbach, como quando Baudelaire escreve Hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère... (ou seja, os versos de conclusão do poema sintomaticamente intitulado "Au Lecteur", que funciona como prefácio de As flores do mal - um procedimento, é possível acrescentar, que ganhará força na obra de Nietzsche, leitor de Baudelaire, algumas décadas depois).

3) O ponto decisivo, para Auerbach, é que Dante resgata essa tradição latina de evocação do leitor e a expande a partir do vernáculo: no décimo canto do Paraíso, por exemplo, quando Dante e Beatriz estão prestes a sair do terceiro nível, Dante escreve: Leva dunque, lettore, a l'alte rote meco la vista, dritto a quella parte dove l'un moto e l'altro si percuote. Com essa invocação, escreve Auerbach, Dante age como um professor ou um irmão mais velho, "tomando o leitor pela mão" e mostrando o que deve ser visto, o que deve ser contemplado com atenção (o céu, a obra divina).