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| Illustrations for Sir John Mandeville, Voyage d'outre mer |
1) Ainda no último capítulo ("O público ocidental e sua linguagem") de seu livro (Linguagem literária e público na Antiguidade tardia latina e na Idade Média), Auerbach (p. 325-326) faz uma aproximação entre Chaucer (1343-1400) e Boccaccio (1313-1375): apesar da "herança medieval comum a toda a Europa Ocidental", e a despeito das "influências antigas, cristãs e francesas refletidas em seus temas, ideias e formas de expressão", escreve Auerbach, "uma forte individualidade e um caráter popular manifestam-se desde o início" nas letras anglo-saxãs (que deve se afirmar mais contra o francês das cortes do que ao latim). Em nenhum outro lugar da Idade Média "correntes sociais tão profundas e variadas" foram retratadas com tamanha "veracidade concreta", empatia e humor quanto na Inglaterra do século XIV, afirma Auerbach.
2) Para Auerbach, os Contos da Cantuária superam o Decamerão "como retrato vívido da época": os narradores de Chaucer são peregrinos de todas as camadas sociais; possuem características marcantes, e as relações entre eles são "retratadas com vivacidade"; a estrutura da obra oferece um quadro dinâmico do cenário social da Inglaterra. Os narradores de Boccaccio formam um grupo de jovens elegantes e cultos que se refugiaram em uma casa de campo para escapar da peste; pertencem à mesma elite social e são caracterizados de forma pouco definida: é a atmosfera de uma cultura homogênea, e os elementos vulgares são assimilados por esse meio refinado; "lições morais" e "compilações típicas da Idade Média" estão praticamente ausentes; não há "ruptura estilística". Chaucer, por outro lado, completa Auerbach, utiliza como narradores pessoas que Boccaccio emprega apenas como "personagens de suas histórias".
3) Ao retratar, dessa forma, classes sociais muito mais baixas como dotadas de consciência e discernimento, Chaucer transmite uma imagem do país muito mais aguda e politicamente carregada. O estilo, de fato, é menos homogêneo e seguro, e quase não há vestígios de humanismo. Chaucer ainda faz uso considerável de exemplos de erudição superficial herdados do início da Idade Média; o efeito é, muitas vezes, algo grotesco, como no caso das histórias misóginas que a Mulher de Bath apresenta como o acervo literário erudito de seu falecido quinto marido (em resumo, o que se perde em estilo, se ganha em vivacidade).

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