segunda-feira, 28 de junho de 2010

Frente a frente com Alan Pauls

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  1. No dia 14 de junho de 2010 Alan Pauls falou na Universidade Federal de Santa Catarina, uma conferência que faz parte das comemorações aos cinquenta anos da instituição. No início estava Raul Antelo relembrando o primeiro encontro com Alan Pauls: Buenos Aires, 1981, a parte externa de uma casa em San Telmo. O encontro inaugural da revista Lecturas críticas, publicação que durou apenas dois números. Raul lembra também o encontro dez anos depois, um congresso de literatura latino-americana em Saint-Nazaire, 1991. Estavam lá Saer, Aira. Pauls começava. A crítica francesa saudava a chegada de O pudor do pornógrafo.

  2. O primeiro nome do livro O passado foi A mulher zumbi – e Raul Antelo afirma que esse estado de suspensão do sujeito que comunga, simultaneamente, da morte e da vida é a chave para a experiência de Pauls com a abjeção, “aquilo que te enoja mas cuja convivência é incontornável”. Na literatura de Pauls, uma sociedade se reconhece por seus crimes – e sua ficção, como potência do falso, do pseudônimo e da referência equivocada, suplementa o real, rasura o real.

  3. O título da intervenção de Pauls foi “Elogio do sotaque” - um extenso arrazoado acerca das lembranças de Pauls das músicas e shows musicais televisivos que viu na infância. Elogio del acento. Pauls investe sobre cantores estrangeiros, cultura de massa incipiente, fantasmas na TV, programas de auditório em busca de uma língua que estava e permanece não registrada. Pauls sofria de uma síndrome de estranheza, reconhecendo e não reconhecendo aquela língua capenga utilizada por cantores italianos e brasileiros (ele cita Roberto Carlos) para cantar em espanhol. O sotaque não era uma assinatura pessoal e sim uma expressão impessoal, uma adequação, um procedimento.

  4. A trilogia de Pauls, A história do pranto em primeiro lugar e, agora, A história do cabelo, vem se mostrando pautada por essa arqueologia das imagens da infância – como a sobrecarga simbólica dos primeiros anos gera trabalho mental e neurose para o resto da vida. Pauls investiga o cenário de forma bastante detida. Sua dicção é pausada. Ele escande bem as palavras, olhando o papel, olhando a audiência. Vai, aos poucos, questionando a identidade adquirida, problematizando a sobrevivência desses elementos da infância. E encontra as três manifestações mais comuns da identidade argentina, ou as ferramentas para a busca cega da identidade plena: o mantra, o wishful thinking e o grito de guerra.

  5. A identidade busca capturar e reduzir o matiz, a especificidade, a monstruosidade. O sotaque, diz Pauls, é o ready made da argentinidade, a evidência da utilização corrente da língua e sua irremediável arbitrariedade. O sotaque é o resto da língua – imaterialidade aguda, intransigente e sempre em movimento.

  6. Elogiar o sotaque, no fim das contas, é celebrar as múltiplas temporalidades envolvidas no uso da língua, sobretudo no momento em que ela falha – a língua não falha, quem falha é o usuário –, porque a falha ilumina a apreensão de quem pronuncia e de quem escuta, em uma aglutinação da memória. O que interessa na história do cotidiano é o invisível, justamente porque não há passado em estado puro – o tempo atravessa os corpos.

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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Bacon, Onetti, impurezas da imagem

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Se pensarmos nas relações possíveis entre Francis Bacon e Juan Carlos Onetti, por exemplo, veremos que é impossível determinar quem tem a precedência, a palavra ou a imagem. É fato que Onetti já morava em Madri no fim da década de 1970, quando a cidade recebeu uma ampla exposição das obras de Bacon, e é também fato que Onetti tinha uma intensa admiração pela pintura e pela arte em geral, é só lembrarmos aquela célebre história do roubo do desenho de Picasso para a capa de seu primeiro livro. Em Deixemos falar o vento, um de seus últimos livros, espécie de suma da obra toda de Onetti, onde encontramos trechos, citações, personagens, toda uma rede de auto-intertextualidade (um traço que é, de resto, bastante característico de Onetti), o narrador da primeira parte é um pintor, um pintor que percorre a praia em busca da onda perfeita, que era o motivo que buscava para pintar. Não se sabe se Onetti estava lá, na exposição de Bacon, mas é fato que admirava os herdeiros de Picasso e o próprio Picasso, e Bacon é, sem dúvida, um herdeiro de Picasso. Há uma visão em Deixemos falar o vento: o pintor vê um cão parado, olhando para o mar; uma forma indistinta que lembra um cão, mas que pode ser uma mulher dobrada sobre si, uma figura que compartilha do animal e do humano. Ainda mais interessante e revelador me parece as constantes referências que o pintor-narrador, no livro de Onetti, faz às pinturas do Papa que estão na Igreja de Santa Maria, a cidade de Onetti, a Yoknapatawpha de Onetti, a cidade que é queimada em Deixemos falar o vento e que ressurge das cinzas em Quando já não importa, o livro póstumo. O pintor-narrador está obcecado por esse retrato do Papa – assim como Francis Bacon estava obcecado com a figura do Papa Inocêncio X pintado por Velázquez. E Bacon estava obcecado por uma pintura que nunca viu, estava obcecado pela imagem de uma imagem, da mesma forma que Onetti: tergiversando em torno de uma imagem que é puro fantasma. Os trípticos de Bacon também estão na escritura de Onetti, seja nos trechos que se repetem de livro para livro, seja na reiteração de uma mesma figura, dentro de um mesmo livro, com distância de poucas páginas entre uma aparição e outra. Sem mencionar os corpos solitários, fora de foco, sempre em suspensão, sempre em movimentação suspeita, sempre deixando para trás a sensação de que, a cada representação na tela (ou na página), o corpo fica, progressivamente, mais fraco.

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quarta-feira, 23 de junho de 2010

terça-feira, 22 de junho de 2010

Borges, Groussac e os livros aos montões

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Em julho de 1929, Jorge Luis Borges publica na Revista Nosotros um breve comentário acerca de Paul Groussac. O responsável pela seção “Letras argentinas” da Nosotros era Álvaro Lafinur, filho do poeta Juan Crisóstomo Lafinur e primo de Borges – Nosotros era o grande veículo da intelectualidade argentina nas primeiras décadas do século XX. Borges tinha 30 anos e já contava dez volumes de Groussac em sua biblioteca. É assim que ele começa o ensaio: “Verifiquei em minha biblioteca dez tomos de Groussac”. Groussac (1848-1929) era francês e foi para a Argentina com menos de 20 anos. Trabalhou no campo, cuidando dos animais e acordando antes do sol nascer (trabalhou com gado em San Antonio de Areco). Em 1883 voltou para a França. No ano seguinte retorna a Buenos Aires e nunca mais sai. Foi diretor da Biblioteca Nacional, assim como Borges. Compartilharam também a cegueira. É por isso que Borges escreveu, no poema dos dons, Qual de nós dois escreve este poema / Groussac ou Borges – exatamente 30 anos depois do texto sobre Groussac, em um volume de poesias de 1959 em edição particular (mais tarde incluído em El hacedor).



O que importa dizer é que, a partir de uma breve olhada na estante, Borges desenvolve uma ética da leitura. “Sou um leitor hedônico”, escreve ele, e enfileira uma série de três diretrizes: 1) jamais consentir que o senso do dever intervenha sobre uma atividade tão pessoal quanto a aquisição de livros; 2) não se aventurar duas vezes com autor intratável, eliminando um livro anterior com um livro novo; 3) não comprar livros em grande quantidade.

Eu não tenho a mesma sorte. Ao lado dos muito queridos Coetzee, Bolaño e Houellebecq estão os intragáveis Bosi, Milton Hatoum e Luiz Antonio de Assis Brasil (culpa do senso do dever ou das momentâneas exigências acadêmicas). E quantas vezes eu já não repisei a obra de (supostos) intratáveis pensando que nesse novo livro ele vai dar um jeito – e essa categoria é tão vasta que abarca Paul Auster, Bernardo Carvalho, Thomas Pynchon, Onetti, etc. Difícil saber o que Borges tinha em mente quando menciona a compra de livros en montón. Talvez a compra indistinta, só pelo preço ou pelo nome do autor, ou porque alguém disse que deveria, sem a devida atenção com a capa, o projeto gráfico, a tradução, a edição, a origem – esses elementos tão caros ao leitor hedônico que era Borges.

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quarta-feira, 16 de junho de 2010

César Aira e o Bloomsday

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Fevereiro de 1992. César Aira escreve Diário da hepatite. Publica no ano seguinte por um selo editorial pequeno, bajo la luna.

Aira trabalha a partir do silêncio, ou a partir da possibilidade do silêncio, a partir de Bartleby, Rimbaud, Beckett – a partir, também, de Bartleby e companhia. Parménides, outro livro de Aira, é um livro sobre a eterna procrastinação que pode se abater sobre a realização de um livro.

Aira declarou que, durante uma época, fins dos anos 1980, só abria a boca para falar sobre o Procedimento: a função do artista não era criar obras e sim criar procedimentos para que as obras se fizessem sozinhas. Coisas que soavam bem mas que não tinham muito sentido, continua Aira.

Dizia para mostrar-se interessante, como Vila-Matas vestido de preto em Paris na década de 1970. Nunca pôs em prática nada do que falou, continuando a escrever suas novelitas como se nada (sabendo, enfim, que elas não se escreverão sozinhas) – e não se sente uma fraude por isso, afirma Aira, pois inventar uma teoria é um ato tão imaginativo, tão irresponsável quanto inventar o argumento de uma novela.


Não estou seguro acerca da superioridade do processo sobre o resultado, diz Aira. Teoricamente soa bem, mas na prática dá a impressão que essa valorização do processo, tão em moda ultimamente, corre o perigo do umbiguismo e do narcisismo. Ou talvez o perigo de terminar girando sobre si mesmo em uma estúpida enfatuação. Creio que nem sempre escapei desse perigo, finaliza Aira.


Abaixo, um trecho do Diário da hepatite no qual Aira menciona Joyce e o Ulisses.





Voltar a escrever, eu? Jamais.


A sincronização. Isso é o pior. Sincronizar o trabalho de escrever com o escrito... As palavras com seu significado, o sentido com o sentido.


Vê-las com o tempo, com o tempo que está feita nossa vida, é pavoroso. Mas dois tempos! Isso supera todo incômodo imaginável. (E, no entanto, há gente que gosta, gente que gostaria, horror dos horrores, de ter sido Joyce, ter escrito o Ulisses, estar escrevendo-o... E é isso que fazem, pobres infelizes.)




O Ulisses, alguém deveria dizer, é nada. Nada em absoluto. O tempo que leva! É horrendo. O tempo que tomou de Joyce... É como uma ameaça: a profissão de romancista. Isso pode acontecer a qualquer um.


“Hoje trabalhei bem...” “Naquele tempo estava escrevendo meu romance...” “Fui a uma cabana na montanha para escrever...” “Às tardes escrevo no Select...”


Nunca mais cairei nisso! Por sorte isso ficou para trás. Não tanto por preguiça como por respeito ao próximo, para não torná-lo vítima desse narcisismo sem limites.

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terça-feira, 15 de junho de 2010

Os esquecidos e os prediletos

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Respondendo ao questionário que uma revista francesa lhe enviou, Susan Sontag levanta a questão da diferença entre escrever sobre um autor e simplesmente gostar desse autor. Sontag diz que nem sempre os autores prediletos de um crítico (de um leitor que coloca suas predileções por escrito) são os autores mencionados por esse crítico. Ela dá o exemplo de Shakespeare: é um dos escritores aos quais ela sempre retorna, mas sente que não tem nada a dizer sobre ele – e ela deixa claro: não por falta de leitura ou por escassez do autor; talvez muito pelo contrário, a intensa admiração bloquearia o mecanismo crítico, que funciona tão bem com tantos outros. E Sontag também salienta o lado curioso dos críticos do crítico: se você nunca citou é porque não gosta, se você nunca escreveu sobre é porque não leu, descartou. E como saber se o crítico gosta se ele não escreve sobre?




Observei os autores que citei apenas uma vez, os meus prediletos que tem apenas uma menção nas etiquetas do blog. Não há tempo para falar sempre de todos, ainda que sejam lidos com atenção há anos. Thomas Bernhard, por exemplo, o predileto de Bernardo Carvalho, o que já constrói uma linhagem consistente, interessante – isso sem mencionar sua arte sobre a arte, Wittgenstein, Glenn Gould, gostaria de ter tempo para ler mais e melhor, decifrar essas homenagens soterradas de bile. E Barthes, que também está lá, gostaria de ter tempo para ler mais e melhor sobre sua viagem ao Marrocos, sobre sua leitura atrasada de Michelet. E Philip Roth, grandioso, gostaria de ter tempo para reler com atenção Sabbath e Complô contra a América, ler Complô como Coetzee leu naquela resenha rigorosa, que me pegou desprevenido, pois eu havia recém saído da leitura de Roth e Complô me parecia irretocável. E Paul Valéry, mencionado por conta de sua amizade com Marcel Schwob, é o Borges europeu – queria ter tempo para esmiuçar o método de Da Vinci, reler seu livro sobre Degas, pensar a ubiquidade, etc. Martín Kohan, um bom escritor em um cenário concorrido, político sem ser chato, pensa a imagem, pensa a cultura de massa, gostaria de ter tempo para ler melhor seus textos sobre Benjamin. Lévi-Strauss nem se fala – gostaria de ter tempo para escrever um livro só sobre sua viagem com Breton para a América, fugindo do nazismo. E Georges Perec é importante para mim porque foi importante para Vila-Matas e para Antonio Marcos Pereira, e porque é citado no último livro do Paul Auster, e porque sobrevive, afinal de contas, também em Muriel Barbéry.

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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Saer e a biopolítica

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O centro de Glosa – o livro de Juan José Saer que flui como um passeio pela rua e como uma conversa entre velhos amigos – é a cápsula de cianureto que Ángel Leto leva no interior oco de um dente. Essa cápsula é, para Leto, um talismã, a evidência da derradeira escolha possível – uma escolha em direção ao Nada, ao Vazio, ao Abismo. O homem, livre, é dono da própria morte. Não há retorno possível diante da captura iminente: certos homens deram tanto que é melhor a morte que a tortura.



Muitos relatos contam que nada irrita mais um torturador que o suicídio. O suicídio é a fuga da lógica totalitária armada em volta do sujeito – e nada irrita mais um agente da lógica do que absurdo que lhe faz fissura. Foucault disse e Agamben repetiu: o Estado moderno trocou seu lema do fazer morrer pelo slogan do fazer viver, eis a biopolítica – coordenação e cooptação dos corpos, manutenção, desvio, o corpo é cultivado para consumir e persistir. Nada irrita mais do que um corpo que contraria a lógica e decide silenciar.

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terça-feira, 8 de junho de 2010

Benjamin: do surrealismo ao gás

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Já no fim de seu ensaio sobre o surrealismo, que ele define como o último instantâneo da inteligência europeia, Walter Benjamin oferece um inventário das desconfianças do surrealismo. Mais que isso: aponta que o surrealismo é uma operação da desconfiança, que circula a partir dela, e então dá alguns exemplos. Essa é a leitura privilegiada do surrealismo que apenas os alemães podem oferecer – Benjamin afirma, na abertura do ensaio, escrito em 1929, que a Alemanha estava no vale do fluxo da inteligência europeia, ao contrário dos franceses, que estavam na fonte. Os alemães, portanto, podiam observar o fluxo em sua completude.


A desconfiança surrealista estava voltada ao destino da literatura, ao destino da liberdade, ao destino da possibilidade de convivência, ao destino da humanidade europeia. E Benjamin termina o parágrafo avisando que havia “confiança ilimitada apenas na I.G. Farben e no aperfeiçoamento pacífico da Força Aérea”. Benjamin, portanto, em 1929, ao falar do surrealismo, fala de uma percepção privilegiada alemã e exalta o conglomerado industrial da I.G. Farben.


A I.G. Farben foi uma resposta da Alemanha ao mundo depois de sua derrota na Primeira Guerra Mundial. Reunia as maiores indústrias do país, entre elas a BASF e a Bayer, e anunciava-se, em 1925, quando foi criada (ou posta a público), como o mais acabado esforço alemão. O complexo de Auschwitz, os fornos, as câmaras e todo o aparato industrial, foi um desdobramento da I.G. Farben, que cedeu seu espaço e sua tecnologia para o estabelecimento dos campos de extermínio. A I.G. Farben também detinha a patente do gás Zyklon B, usado nas câmaras para assassinar os judeus.

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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Aira e o dinheiro falso

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1) A obra de César Aira nos ensina que os absolutos se tocam, tornando a escassez um correlato íntimo do excesso e a verborragia um suplemento do silêncio (talvez uma lição de Balzac). Essa noção está presente em um tema recorrente nos livros de Aira: o dinheiro falso. O procedimento já serve para a leitura imediata que desenvolvo agora: a recorrência vertiginosa do tema me impede de elencar os livros em que isso aparece, ao mesmo tempo em que a tentação do inventário é também vertiginosa – os absolutos se tocam. E a obra de Aira compreende isso também: eu sei que por mais exemplos que eu tenha recolhido, há outros, e eles são legião – a totalidade e a completude são saltos no vazio. Basta com isso, portanto: Aira utiliza o dinheiro falso em muitos de seus escritos.

2) O que isso pode querer dizer? Inúmeras coisas. A primeira delas e talvez a mais interessante: o questionamento de uma alucinação coletiva. O dinheiro é uma abstração compartilhada, pedaços pintados de papel aos quais atribuímos valor. O dinheiro falso é também uma abstração, algo que diz respeito diretamente àquilo que circula mas que guarda uma diferença monstruosa, pois, ao mesmo tempo em que compartilha da alucinação, desmente a sua efetividade. O dinheiro falso é um choque de realidade naquilo que se convencionou chamar realidade – ou ainda: o dinheiro falso é tão ficcional quanto o dinheiro verdadeiro, mas, em sua queda, em seu desvelamento, na descoberta de seu procedimento, o dinheiro falso expõe a sua construção e o absurdo da matriz da qual se origina, ela também uma ficção. Grosso modo, o dinheiro falso para Aira é uma oportunidade de confrontar a literatura com o real (como em Os moedeiros falsos, de André Gide).

3) E uma breve analogia com Piglia, porque ele é o monstro para Aira, e sempre que seus caminhos coincidem há uma fissura no discurso daquele que se constrói a partir das fissuras (Aira): Dinheiro queimado retoma Brecht: o que é roubar um banco comparado com fundá-lo; em Nome falso Piglia coloca em circulação um texto inédito (real? ficção? re-escritura de Arlt à maneira de Menard?) de Roberto Arlt, etc.
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Duchamp pagou seu dentista, em 1919, com o desenho de um cheque, uma obra de arte que ficou conhecida com o nome de Cheque Tzanck, um dinheiro falso posto em circulação que, ao invés de ter seu valor anulado por conta da exposição do mecanismo de circulação da alucinação, teve seu valor multiplicado por conta da inscrição do nome de Duchamp.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O fetiche e a memória

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Podemos botar lado a lado três imagens que circulam hoje e dizem muito sobre o fetichismo de nosso tempo. Fetichismo: deslocamento do desejo para um objeto, um adorno, um pedaço de qualquer coisa. Derradeiro esforço para que o desejo continue circulando.


Se pensarmos na boite en valise de Duchamp, a caixa-maleta que guardava reproduções de suas obras, se olharmos para a edição especial do livro Searching for Sebald e se terminarmos a triangulação com Walter Benjamin’s Archive, uma reunião de reminiscências do crítico alemão, que cenário, que memorabilia temos então. São sempre dois lados: museificação e estagnação da força criativa em objetos dados, prontos ou, de outro lado, a ressignificação e o reaproveitamento do tempo que ainda resistia nas ideias/imagens/ficções tanto de Duchamp quanto de Sebald e Benjamin.

Dois livros amarram esse percurso possível: a Historia abreviada de la literatura portátil de Vila-Matas, com sua ficcionalização de Benjamin e Duchamp, colocando a ênfase na maleta como mobilidade, como nomadismo e sobrevivência; e, o segundo livro, Las tres fechas de César Aira, que dá uma lição de como armar as temporalidades conflitantes dentro de um texto que está disponível e dentro da leitura que esse texto nos exige, uma leitura que é dupla: leitura do tempo que o livro traz e leitura do tempo que trazemos conosco.

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terça-feira, 1 de junho de 2010

Alejandra Pizarnik


O verdadeiro nome de Alejandra Pizarnik era Flora. Alejandra foi uma criação da adolescência. Seus pais vieram da Rússia. Nasceu em 1936, morou em Avellaneda, Buenos Aires e Paris, onde conheceu Cortázar e Octavio Paz. Escreveu poesia. Morreu em setembro de 1972, por conta de uma dose excessiva de soníferos. Era miúda, usava o cabelo sempre muito curto e mantinha os dedos sempre em movimento. Sua voz era rouca e ofegante. Ela mantinha na cabeceira da cama, exatamente como fazia Bolaño com a frase sobre a anarquia em polonês, um pequeno aviso de Artaud: é preciso, acima de tudo, ter vontade de viver.
Dois grandes leitores contemporâneos foram muito amigos de Alejandra: César Aira e Alberto Manguel. Considero Aira e Manguel meus amigos. Fico levemente melancólico quando procuro imaginar o sofrimento dos dois quando Flora morreu. Em 1972 tanto Aira quanto Manguel tinham apenas 23 anos. Frequentavam o apartamento minúsculo de Alejandra no centro de Buenos Aires, discutiam literatura, tomavam cafés, etc. Manguel conta que conheceu Flora em 1967, quando pediu a ela que reescrevesse uma história de Shakespeare. Logo lhe chamou a atenção o quadro-negro pendurado na parede: era ali que Alejandra trabalha seus poemas, apagando mais do que escrevendo. Escolher a palavra definitiva era sempre um esforço físico.
Flora tinha asma e era insone. Também era paranoica: achava que os vizinhos esmurravam as paredes para mantê-la acordada. Usava a psicanálise para explorar (e canalizar) seu sofrimento (para) dentro da poesia. Usava o surrealismo para gargalhar nervosamente da clausura que era (e é, para sempre) o mundo. Alejandra lia Bataille, Cervantes, Borges, Michaux, Stendhal, Olga Orozco e Kafka. Flora era rigorosa em sua poesia: concisa, ritmada, burilada ao extremo, aguda, perspicaz, lancinante.
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Aira, Saer, Piglia (I)

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Se partirmos dos livros de Saer e Piglia, analisando o padrão que eles estabeleceram para o que veio depois, veremos que a negatividade é o centro do cânone argentino contemporâneo. Essa é uma herança das políticas discursivas da década de 1960 (Blanchot, Foucault, Deleuze) – a negatividade aparece, portanto, como um elemento valorizado no debate sobre o poder da literatura, sua colocação na sociedade e a função do escritor. É a utilização (e as filiações decorrentes dessa utilização) que determina a consideração de um elemento como central para a discussão do cânone imediato.



A negatividade, na literatura de Saer e Piglia, funciona a partir da resistência às pressões do mercado, tanto na forma como no conteúdo, na resistência que a língua oferece em seu próprio percurso. A tarefa dessa literatura é abrir brechas, não crer nos dispositivos do mundo instrumental, funcional e corporativo. Aira, por outro lado, encarna um posicionamento completamente diverso: sua massiva participação editorial, seu uso contínuo das formas correntes da discursividade televisiva, instauram um pertencimento que termina por sobrecarregar a demanda virtualmente insaciável do mercado.



Beatriz Sarlo afirma que Aira, de alguma maneira, previu a iminente transformação de Piglia e Saer em modelos para a literatura argentina, como se sentisse que aquela forma de expressão literária seria em breve requisitada, cooptada, como se sentisse no ar que aquilo era fundamental para uma manutenção auto-fágica do discurso do poder, que só na aparência desconstrói suas ramificações: ficção da paranoia para mantê-los todos ocupados e esvaziar, finalmente, a literatura de sua radicalidade, de sua, nas palavras de Aira, inventividade.

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