quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Os pés e os rastros


1) A consistência na caracterização de personagens em Homero não tem fundamento em razões estéticas, e sim em razões funcionais, didáticas, técnicas, cognitivas: a repetição de nomes e de atributos é indício de um sistema de lembretes, fundamental para o processo de enunciação poética oral. A aparição de um nome tanto resgata o que já foi dito quanto prepara o terreno para o que virá - que nunca é da ordem da surpresa, e sim da ordem da associação (não haveria, portanto, uma reminiscência da oralidade na premissa platônica de que todo conhecimento é reconhecimento?).

2) A repetição de nomes e atributos atua em conjunto com os padrões sonoros, os ritmos, bem como possíveis gestos e movimentos corporais; a escansão dirige a memória pela força da repetição, que dá lugar, pouco a pouco, à emergência de sutis novas modulações do material conhecido (daí um dos paradoxos de Zenão: a flecha nunca chega ao alvo, da mesma forma que, no poema, o "novo" nunca chega, porque o poema se realiza no jogo de atualização daquilo que já foi evocado, ainda que sutilmente, outrora).

3) O termo "pé", em grego, faz referência a um passo de dança; o "coro" grego indica um grupo de dançarinos, não de cantores, ou indica mesmo a própria dança; "estrofes" e "antístrofes", que dividem as estâncias cantadas, são "voltas" e "contravoltas" de dança; a palavra "metro", métron, pode se aplicar também à medida de uma superfície, de um terreno; talvez a origem do hexâmetro grego seja coreográfica, talvez seja a combinação de medidas de dança, de gestos corporais, que acompanhavam a elocução (algo disso sobrevive no Rastro dos cantos de Bruce Chatwin: a poesia oral só existe porque ligada ao território, e vice-versa).