sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
O cisne
sábado, 7 de fevereiro de 2026
O remédio
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
Do amor aos filhos
1) No final de seu breve texto "Do amor aos filhos" (uma das partes da Moralia), Plutarco comparada esse amor ao ouro; mas não assim, simplesmente, e sim no interior de um processo metafórico de descoberta: o ouro é descoberto no fundo da sujeira, entre a lama e os dejetos (sobre a relação entre dinheiro e dejetos, ver a "merdologia" de Freud), exatamente como o "amor aos filhos" pode ser descoberto no fundo da lama do ser humano; como acontece com os animais, argumenta Plutarco (usando ursos e cães como exemplos, mas também pássaros), o amor aos filhos surge nos seres humanos para além de qualquer desejo de recompensa (e, por vezes, à revelia do caráter duvidoso do indivíduo em questão).
2) A metáfora final, portanto, não tem fins "puramente" estéticos, mas também serve para amarrar a argumentação de Plutarco, que faz repetidamente menção ao "salário" e às "compensações materiais". É um tema recorrente em toda a obra de Plutarco: dinheiro, moedas, cobiça, recursos, ouro, prata, minas, e assim por diante. Na vida de Licurgo, por exemplo, Plutarco comenta a lei do espartano que proibiu moedas de ouro e prata, mantendo apenas as de ferro, o que acarretou aumento de peso, logo de desconforto, visando desestimular o hábito do dinheiro e da moeda (e, com isso, também a cobiça e o luxo, estimulando a virtude, a contenção e a parcimônia - pensemos em Aira, Gide, Piglia e Arlt ao redor do dinheiro falso).
3) Do lado de Atenas, Plutarco também faz o dinheiro aparecer de forma proeminente, especialmente na vida de Temístocles: foi ele quem sugeriu que os recursos abundantes das minas do Láurio fossem investidos na construção de uma frota de embarcações; 200 navios foram construídos e com eles a guerra contra a Pérsia (uma delas) foi vencida. Na vida de Címon, por outro lado, Plutarco resgata Tucídides e sua informação de que a família (Címon e Tucídides eram parentes) possuía abundantes minas de ouro na Trácia, recursos decisivos para cimentar o percurso de seus membros.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Tudo é água
domingo, 25 de janeiro de 2026
Montaigne/Tales
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
18 de agosto de 1965
domingo, 18 de janeiro de 2026
Segredos/espaços
sábado, 17 de janeiro de 2026
Autodefesa
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Uma dracma no máximo
2) Num estilo condensado, por vezes oracular, esses compêndios de doutrina eram publicados como um guia do sistema do filósofo, usado para suplementar o ensinamento oral. Tais sumários podiam ser escritos de forma parcelar, em folhas de papiro postas à venda à razão de uma dracma cada. Segundo Havelock (A evolução da escrita, p. 341), essa passagem da Apologia foi esgarçada pelos comentaristas ao longo de gerações, como se fizesse referência a um suposto comércio de livros em Atenas, ou fosse mesmo a afirmação de uma sofisticada cultura letrada - especulações fundadas na tradução equívoca de biblíon por "livro".
3) Havelock diz que uma dracma é pouco para um livro, por isso, também, se trata de um "folheto"; as traduções, contudo, não são homogêneas, algumas dando a entender que poderia ser o valor da admissão no teatro para, talvez, escutar alguém falar sobre as doutrinas de Anaxágoras: uma versão em inglês diz these are the doctrines which the youth are said to learn of Socrates, when there are not infrequently exhibitions of them at the theatre (price of admission one drachma at the most); uma versão em espanhol diz los jóvenes van a perder el tiempo escuchando de mi boca lo que pueden aprender por menos de un dracma, comprándose estas obras en cualquiera de las tiendas que hay junto a la orquesta y poder reírse después de Sócrates.
sábado, 10 de janeiro de 2026
Dicção e arquitetura
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
A mulher trácia
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Calpúrnio Sículo
2) O poema de Calpúrnio Sículo, evidentemente, é um exercício feito a partir das Bucólicas de Virgílio, que, naquela de número cinco (versos 13-15), escreve: "Antes vou experimentar estes versos que há pouco gravei na verde casca de uma faia, escrevendo e cantando alternadamente; ordena depois que Amintas contenda comigo" (João Pedro Mendes, Construção e arte das Bucólicas de Virgílio, UnB, 1985, p. 238). Não apenas a escrita na casca da árvore (ou a significativa alternância entre escrita e canto), mas o modo como Mopso recusa a sugestão de Menalcas de lidar com temas tradicionais e parte para uma experimentação "fresca" de sua própria criação.
3) A escrita do Fauno, contudo, não pode ser simplesmente contida pela casca da árvore. É muito longa, tem quase cinquenta linhas, fala da Idade de Ouro que está para surgir e dos triunfos que ainda viverá Roma depois das guerras civis; sua extensão não é condizente com o suporte, suporte que se torna, diante disso, adereço poético deslocado de sua verossimilhança. Em outras palavras, a evocação poética da escrita não precisa mais respeitar a verossimilhança do suporte, pois a escrita já é parte constituinte e "naturalizada" do fazer poético (muito ao contrário do que acontecia em Homero, nos líricos posteriores, ou mesmo Píndaro).
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
Duas semanas
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Os pés e os rastros
2) A repetição de nomes e atributos atua em conjunto com os padrões sonoros, os ritmos, bem como possíveis gestos e movimentos corporais; a escansão dirige a memória pela força da repetição, que dá lugar, pouco a pouco, à emergência de sutis novas modulações do material conhecido (daí um dos paradoxos de Zenão: a flecha nunca chega ao alvo, da mesma forma que, no poema, o "novo" nunca chega, porque o poema se realiza no jogo de atualização daquilo que já foi evocado, ainda que sutilmente, outrora).
3) O termo "pé", em grego, faz referência a um passo de dança; o "coro" grego indica um grupo de dançarinos, não de cantores, ou indica mesmo a própria dança; "estrofes" e "antístrofes", que dividem as estâncias cantadas, são "voltas" e "contravoltas" de dança; a palavra "metro", métron, pode se aplicar também à medida de uma superfície, de um terreno; talvez a origem do hexâmetro grego seja coreográfica, talvez seja a combinação de medidas de dança, de gestos corporais, que acompanhavam a elocução (algo disso sobrevive no Rastro dos cantos de Bruce Chatwin: a poesia oral só existe porque ligada ao território, e vice-versa).













