terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Viagem sem retorno


1) "Se a Odisseia não é senão retorno, que esquemas espaciais organizam as outras narrativas de viagem fundadoras? A Eneida, num sentido, continua a Odisseia. Os navios de Eneias lavram um mar já percorrido, reconhecido pelos versos homéricos. Mas o movimento geral não está invertido? Enquanto Ulisses não deseja mais que retornar a Ítaca, deixando Troia enfim destruída, Eneias deixa Troia em chamas para não mais voltar. A Eneida não fornece justamente o exemplo de uma viagem sem retorno, mesmo se a narrativa tende de todo para a fundação de uma nova Troia? Onde e como? Tudo está aí.

2) Trata-se da narrativa de uma colonização forçada: perecer ou fugir, fugir para que Troia não pereça? Feror exul in altam ('Exilado, sou levado ao alto mar'), diz Eneias. Seus companheiros e ele próprio tornar-se-ão 'errantes', votados a um longo exílio, como prediz o fantasma de Creúsa, sua esposa morta, a Eneias: 'Tens diante de ti um longo exílio e as vastas planícies do mar para lavrar'. Eles não saberão, durante muito tempo, que orla abordar para fundar (condere) uma nova Troia ou ressuscitá-la (resurgere).

3) Através das predições, dos oráculos, dos sonhos, todos os esforços de Virgílio tendem, com efeito, a transformar a errância em retorno - que é posto em cena por Virgílio como se ele próprio o ignorasse - para a terra desconhecida das origens. Muito rapidamente, o leitor do poema descobre que os heróis levarão um tempo para poder entender" (François Hartog, Memória de Ulisses: narrativas sobre a fronteira na Grécia antiga, trad. Jacyntho Lins Brandão, Ed. UFMG, 2014, p. 31-32).

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