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domingo, 23 de fevereiro de 2025

As cartas e o palco


Ainda nos comentários de Philip Roth sobre o Herzog de Saul Bellow, ele escreve: "Este livro de mil delícias não oferece nenhuma maior do que essas cartas, e nenhuma chave melhor para destrancar a notável inteligência de Herzog e penetrar nas profundezas do tormento que ele sente diante das ruínas de sua vida. As cartas são a demonstração de sua intensidade, fornecem o palco para seu teatro intelectual, o espetáculo de um só artista, no qual é menos provável que desempenhe o papel de bobo" (p. 394).

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1) A insistência tanto de Bellow quanto de Roth (o primeiro, na narrativa; o segundo, no comentário) no tema da carta me faz pensar em uma conferência de Agamben dada em 1984, "A coisa mesma", cujo texto é dedicado a Jacques Derrida e à memória de Giorgio Pasquali. Nesse ensaio, Agamben fala da Carta VII de Platão, "um texto cuja importância para a história da filosofia ocidental está ainda longe de ter sido devidamente avaliada".

2) Em torno dessa carta (e também de toda a epistolografia platônica) é colocada em questão toda a história da filosofia e, de certa forma, do próprio pensamento ou mesmo da possibilidade do pensamento: depois dos ataques de Meiners, Karsten e Ast, escreve Agamben, as cartas de Platão "foram pouco a pouco expulsas da historiografia filosófica". No século XX, contudo, a tendência começa a se inverter, continua Agamben, mas a desconexão prévia - a resistência contra as cartas de uma forma geral - se faz notar e torna o trabalho em torno a essas mesmas cartas mais difícil.

3) O que se perdeu, escreve Agamben, foi "a relação viva entre o texto a tradição filosófica posterior, de tal modo que, por exemplo, a Carta VII, com seu denso excursus filosófico, apresentava-se agora como um bloco montanhoso árduo e isolado, a cuja penetração se interpunham obstáculos quase insuperáveis". A carta, de resto, finaliza Agamben, tira parte de sua força justamente do fato de ser o registro de um fracasso no palco de um teatro intelectual: "Platão, já velho - com 75 anos -, evocou aos amigos de Dião seus encontros com Dionísio e a aventura fracassada de suas tentativas políticas sicilianas".


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

As cartas de Herzog





1) Em um ensaio sobre Saul Bellow ("Relendo Saul Bellow", Por que escrever? Conversas e ensaios sobre literatura, 1960-2013, trad. Jorio Dauster, Cia das Letras, 2022, p. 380-401), Philip Roth comenta o romance Herzog, de 1964, apontando que quase não há ação ou drama para além daquela que ocorre no cérebro do protagonista - nesse sentido, poderia ser lido ao lado do Monsieur Teste, de Paul Valéry, que já rendeu muitas associações pela via do cérebro, da cabeça e do crânio (via Beckett, Descartes, Piglia e Agamben, por exemplo).

2) Roth aponta que o fluxo de consciência de Bellow em Herzog não está aparentado com aqueles de Faulkner ou Virginia Woolf (ou, ao menos, não exclusivamente): ele vê uma afinidade maior com o Diário de um louco, de Gógol: a principal estratégia narrativa compartilhada por Bellow e Gógol, escreve Roth, é a escrita de cartas (no caso de Gógol, é um cachorro quem teria escrito o maço de cartas que o narrador encontra, e o cachorro pertence à mulher pela qual está apaixonado - tudo tão Kafka e Felice (via Canetti), tudo tão Sloterdijk e Heidegger (via Regras para o parque humano)).

3) O diferencial do romance de Bellow, escreve Roth (p. 394), está na intensidade do uso das cartas e na liberdade ensandecida com a qual o narrador seleciona seus destinatários: a mãe morte, a amante viva, a primeira esposa, o presidente Eisenhower, o chefe da polícia de Chicago, Nietzsche, Heidegger ("Caro doktor professor, gostaria de saber o que o senhor quer dizer com a expressão 'a queda no cotidiano'") e, por fim - resgatando, de certa forma, o magistrado Daniel Paul Schreber de Freud, Lacan e Deleuze -, o próprio Deus ("tenho desejado cumprir sua vontade insondável").

sexta-feira, 18 de março de 2022

Por que escrever?


Philip Roth, Por que escrever? Conversas e ensaios sobre literatura (1960-2013), trad. Jorio Dauster, Companhia das Letras, 2022:

1) "Ao escrever sobre Kafka, contemplo sua fotografia aos quarenta anos (minha idade) — estamos em 1924, um ano tão doce e cheio de esperança quanto ele possa ter vivido como adulto, e também o ano em que morreu. O rosto é afilado e esquelético, como o de um animal escavador; maçãs do rosto proeminentes, evidenciadas ainda mais pela falta de costeletas; orelhas com o formato e o ângulo de asas de anjo; um olhar intenso, quase desumano, de uma serenidade assustada" (p. 14).

2) "Henderson, o rei da chuva, de Saul Bellow, é um livro dedicado a celebrar a regeneração do coração, do sangue e da saúde em geral de seu protagonista. Entretanto, considero de alguma importância que a regeneração de Henderson ocorra num mundo que é totalmente imaginado, que não existe na realidade. A África que Henderson visita não é a África tumultuada dos jornais e dos debates das Nações Unidas. Lá não há nada que lembre os distúrbios de rua, os levantes nacionalistas, o apartheid. Mas por que haveria? Há o mundo, e também há o ser individual. E o ser individual, quando o escritor lhe devota toda sua atenção e talento, revela ser uma coisa notável" (p. 55).

3) "Sob o domínio do comunismo soviético, alguns dos escritores mais originais da Europa Oriental que li em inglês se posicionaram de modo similar - Tadeusz Konwicki, Danilo Kiš e Kundera, por exemplo, para mencionar apenas três que têm nomes com K - rastejaram de baixo da barata de Kafka para nos dizer que não há anjos não contaminados, que o mal está tanto dentro como fora. Não obstante, esse tipo de autoflagelação, malgrado suas ironias e nuances, não pode estar livre de certo elemento de culpa, do hábito moral de localizar a fonte do mal no sistema, mesmo ao examinar como esse sistema nos contamina" (p. 304)

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Entrevistas


Em sua entrevista para a Paris Review (publicada em 2006), Javier Marías fala de seu breve período morando nos Estados Unidos, ainda na infância. "Devia ser 1955 ou 1956", diz ele, acrescentando que ele e seu irmão não frequentaram a escola porque havia uma epidemia de pólio e a mãe achou melhor ficar em casa. Nascido em 1951, Marías era ainda bem pequeno. Essa breve informação me fez pensar em Philip Roth - em primeiro lugar por conta da sua estreia na ficção, em 1959, com Goodbye, Columbus, e em segundo lugar por conta do papel central que ocupa a pólio em outro de seus romances, Nemesis, de 2010. 

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Ian McEwan, também na entrevista para a Paris Review (publicada em 2002), fala de seu começo como escritor no recém-criado programa de escrita criativa da Universidade de East Anglia. McEwan chega lá em 1970, o primeiro sujeito a se candidatar para o programa. Ele escreve um conto a cada três ou quatro semanas e encontra seu supervisor, Malcolm Bradbury, em um bar de Norwich (é também o período, afirma McEwan, no qual ele entra em contato pela primeira vez com o trabalho de vários escritores, entre eles Philip Roth e Saul Bellow). Esse conjunto de informações me fez pensar de imediato em W. G. Sebald, que chega à mesma Universidade de East Anglia no mesmo ano de 1970, na condição de lecturer: "No final de setembro de 1970, pouco antes de assumir meu cargo em Norwich, no leste da Inglaterra, eu e Clara fomos de carro até Hingham em busca de um lugar para morar", é o que diz a primeira frase de Os emigrantes.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Bellow, Oraibi

1492. 
Colombo na América 
Morre Piero della Francesca 
1493. 
Nasce Paracelso 
1494. 
Nasce Rabelais 
Morrem Memling e Poliziano
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Essa dupla deriva presente no Renascimento na Europa: por um lado, em direção à Antiguidade; por outro, em direção ao Novo Mundo, ao insólito e exótico. E não se deve nunca esquecer como um eixo complementa e interfere no outro, de modo que a Antiguidade é sempre atravessada pelo Novo Mundo, e vice-versa. Daí a sabedoria de Aby Warburg ao traduzir Atenas em Oraibi em 1923, modificando o verso do Fausto de Goethe (do Harz à Grécia, todas são primas/Atenas e Oraibi, todas são primas). Nenhuma disciplina ou discurso ignora o Novo Mundo, ele reconfigura termos e procedimentos (como escreve Carlo Ginzburg: "O choque com os indígenas pueblo permitiu a Warburg analisar o Renascimento italiano numa perspectiva vigorosa e originalíssima, hoje mais viva do que nunca"). 
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É possível rastrear esse encadeamento de situações até a obra de Saul Bellow, por exemplo. No romance Henderson the Rain King, de 1959, Bellow apresenta a transformação da ideia de cultura nos Estados Unidos do pós-guerra: cultura não mais como "refinamento", mas como um complexo arranjo de modos de vida. No conto "Cousins", o narrador de Bellow, Ijah Brodsky, passa muito tempo envolvido com o material etnográfico produzido por Franz Boas em 1900, na Expedição Jesup North Pacific para a Sibéria, com as tribos Chukchee e Koryak. Bellow, de resto, se formou em Antropologia e Sociologia na Northwestern University, em 1937. Com o passar do tempo, contudo, Bellow tornou-se um crítico do que chamava "multiculturalismo", defendendo um conservadorismo cultural à moda de Harold Bloom. Teria dito em entrevista: "Who is the Tolstoy of the Zulus? The Proust of the Papuans? I'd be glad to read him" (algo que faz pensar no procedimento de Colombo, querendo encontrar nas Américas aquilo que imaginava estar lá esperando por ele). Em nota relacionada, é possível relembrar que Christopher Hitchens (em Arguably: Essays) chama Bellow de The Great Assimilator.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Bellow e o filho

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Saul Bellow conta, em um texto sobre seus anos em Paris, um dos encontros que teve com Arthur Koestler pelas ruas da cidade. Bellow estava com seu filho pequeno, Koestler estava sozinho. Bellow conta que a surpresa de Koestler foi dupla: 1) ele tinha um filho (e pequeno, ainda por cima - algo em torno de 4, 5 anos); 2) ele havia levado o filho para morar com ele em Paris. Bellow afirma que, para Koestler, poucas coisas poderiam ser mais estranhas que um filho - especialmente um filho em Paris, em uma viagem que se pretendia literária, cultural. Bellow não leva a surpresa de Koestler muito a sério. Ou ainda: com o passar dos anos, distante de Paris e distante daquele encontro, escrevendo sobre o acontecimento, tenha decidido não levar muito a sério a mensagem de Koestler: sinto muito, amigo, mas você não vai conseguir aproveitar Paris com esse pestinha a tiracolo. Bellow estava escrevendo Henderson, o rei da chuva, que é dedicado a seu filho.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A arca de Nabokov

Nabokov e Saul Bellow publicaram textos na Partisan Review na mesma época, principalmente entre 1948 e 1951. A PR estava sediada em Nova York e juntava uma miscelânea de intelectuais antistalinistas e profundamente interessados no modernismo literário. George Orwell também colaborou com a revista durante a mesma época (seus dois últimos anos de vida). Nabokov publicou versões iniciais do que seriam capítulos de sua autobiografia, Speak, memory (A pessoa em questão, na tradução brasileira da Companhia das Letras). Nabokov, assim como o Bellow de anteontem, também menciona uma arca. Ele não diz se a arca atravessou o oceano, como aconteceu no caso de Bellow, mas é certo que os objetos guardados ali dentro estão no exílio. Nossa edição conta com um caderno interno de fotos, e uma das últimas, tirada em fevereiro de 1929, mostra Nabokov escrevendo. Ele conta que sua mulher tirou a foto sem que ele percebesse. Nabokov estava escrevendo A defesa Lujin, em um quarto de hotel na França. "Um maço meio vazio de Gauloises pode ser percebido entre o vidro de tinta e um cinzeiro abarrotado", ele escreve na generosa descrição e contextualização que faz para a foto. Nabokov chama a atenção, também, para o quadriculado da toalha sobre a mesa, para as fotos de família, para os quatro volumes de um dicionário crítico do russo. E então ele fala de seu "porta-penas", robusto e marrom, cuja ponta "já foi bastante mastigada". Esse porta-penas, "amado instrumento de madeira de carvalho", foi usado por Nabokov para escrever tudo que escreveu durante seus vinte anos de perambulação europeia - os primeiros contos e poemas, escritos em russo, publicados em jornais de exilados (em Berlim, em Paris), Machenka, O riso no escuro, etc. O porta-penas de Nabokov, esse companheiro fiel (ainda que tantas vezes mordido), sumiu na mudança para os Estados Unidos. Mas Nabokov finaliza a legenda imaginando o reencontro: "um dia ainda hei de redescobrir numa das arcas armazenadas num guarda-móveis de Ithaca, estado de Nova York".

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A arca russa de Saul Bellow


Saul Bellow nasceu em 1915, numa cidade chamada Lachine, no Canadá. Seus pais haviam emigrado de São Petersburgo para Montreal em 1913. Bellow conta que, na mesa de jantar, o czar, a guerra, Lênin, Trotski e os bolcheviques eram mencionados com a mesma constância que os parentes deixados para trás. A família de Saul Bellow compartilhava com a família de Vladimir Nabokov a incredulidade com a queda da monarquia russa, em 1917. Em suas memórias, Nabokov escreveu que “o bolchevismo não passava de uma forma especialmente brutal e implacável da opressão bárbara – tão antiga quanto as areias do deserto – e não era nem de longe a atraente e inédita experiência revolucionária com que tantos observadores estrangeiros o confundiram”. Não sei se alguma vez se encontraram. Quando Bellow foi para a Europa, em 1947, Nabokov já estava há 7 anos nos Estados Unidos. Bellow diz que, em Montreal, os velhos achavam que os arrogantes bolcheviques logo seriam expulsos – mas os filhos estavam ávidos para se juntar à revolução. Lyova, o filho do professor de hebraico, partiu para a Rússia, ignorando as recomendações e reprimendas dos mais velhos. Nunca mais voltou. Muitos anos mais tarde, já em Chicago, na década de 1930, Saul Bellow lia Marx e Lênin com devoção e escutava as advertências de seu pai: “Não esqueça do que aconteceu com Lyova; e não só com ele, pois há anos não tenho notícias de suas tias”. Bellow relembra tudo isso em um texto de 1993 – muito distante, portanto, da infância, dos pais, dos bolcheviques e do Nobel que recebeu em 1976 (razoavelmente próximo da morte, que chegaria doze anos depois) –, publicado na revista The National Interest. Ele escreve que, mesmo diante da resistência do pai, considerava-o russo, “com agradáveis feições russas”, tanto ele quanto sua mãe. Saíram de São Petersburgo com uma arca repleta de apetrechos e ornamentos: “brocados, cartola, casaca, lençóis de linho com bordas plissadas, anáguas pretas de tafetá, penas de avestruz, botinas com botões e cano alto, fotografias, talheres de prata, velhas canetas com seus aparadores”. Bellow afirma que a única utilidade dos objetos era servir de brinquedo para as crianças – o baú era um pouco da Rússia em Chicago, e para o pequeno Saul os objetos eram mágicos, passagens que ligavam tempos e espaços.

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Walter Benjamin, no ensaio “Brinquedo e brincadeira. Observações sobre uma obra monumental”, escreve o seguinte: Um poeta contemporâneo disse que para cada homem existe uma imagem que faz o mundo inteiro desaparecer; para quantas pessoas essa imagem não surge de uma velha caixa de brinquedos?