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quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Lições


1) Os romances de Ian McEwan, em geral, costumam apresentar uma sorte de camada metaficcional, que serve ao autor/narrador como oportunidade para a discussão "ensaística" ou "crítica" do fazer literário. Em Lições, seu último romance, de 2022, essa camada é oferecida pela personagem Alissa, esposa do protagonista Roland, que o abandona - deixando com ele o bebê do casal, Lawrence - para seguir seu projeto de se tornar uma grande escritora (algo que se realiza: a carreira de Alissa se desenvolve e ganha corpo ao longo do romance de McEwan, sempre pela perspectiva distanciada de Roland - o marido abandonado que é, ao mesmo tempo, leitor).

2) Esse conjunto de fatos torna possível a McEwan fazer essa mistura peculiar - um marido abandonado deve dar conta de seus afetos conflitantes para melhor (ou pior) ler os romances da mulher que o abandonou. Ele lê os romances e busca neles ecos da vida passada, da vida compartilhada, do casamento no período prévio ao abandono - é sempre, portanto, uma leitura viciada, comprometida, tendenciosa (como é, grosso modo, toda leitura: o exemplo extremo de McEwan leva em direção à validade da tese geral do comprometimento de toda leitura). 

3) "Passados cinco curtos anos, os livros e prêmios na Alemanha e em todo o mundo se acumularam", escreve o narrador sobre a carreira de Alissa, e continua: "Ela reescreveu e ressuscitou um dos romances que Roland havia datilografado e sido rejeitado pelos editores de Londres. (...) Não havia nada, material ou emocional, que ela não fosse capaz de descrever de maneira vívida. E, contudo, apesar de toda a intensidade do tempo que tinham passado juntos (...) nada estava na sua escrita, nem disfarçado ou deslocado. A experiência comum dos dois fora erradicada com um trator de sua paisagem criativa, incluindo o sumiço dela" (McEwan, Lições, trad. Jorio Dauster, Cia das Letras, 2022, p. 332-333).

domingo, 9 de janeiro de 2011

Alice Munro e as razões domésticas

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Alice Munro disse que iria parar de escrever. Durante seis meses ela tentou, saiu para almoçar com as amigas, dedicou-se ao jardim, plantou novas flores, frequentou e organizou eventos de caridade. Não deu certo. Alice Munro voltou a escrever, dizendo que não poderia fazer outra coisa, não poderia ter uma vida normal. Munro escreve desde a adolescência. Com vinte e poucos anos, já casada, durante a década de 1950, os filhos começaram a chegar. Dois bebês em casa, escrevia durante o sono das crianças. Como conciliar a atividade de mãe e de escritora?, ela se pergunta. Para mim não havia opção, ela diz. Sentia que tinha que lutar por esse espaço próprio, no qual não era nem mulher, nem mãe. Talvez por isso os contos duros, por vezes intransigentes em sua acuidade. Pelo que sei da vida, ela é sempre dura. Seu sonho de adolescente era ser romancista, escrever como Joyce. Com a chegada dos filhos, contudo, o tempo tornou-se limitado e muito precioso. Era preciso colocar tudo no papel antes que eles acordassem, entre uma tarefa e outra. O conto surgiu para Alice Munro a partir desse cenário doméstico, desse cenário de contingências cotidianas. Pensei que, com meus filhos grandes, tendo mais tempo para escrever, poderia, finalmente, me dedicar aos romances. Mas não foi o que aconteceu. Foi com o conto que aprendi a escrever. É assim que eu faço. Como uma pedra que vai adquirindo sua forma (perfeita) e seu aspecto (liso, irrepetível) ao longo dos anos, ao custo do esforço indiferente da água. Como aquelas imagens nas entradas das igrejas, cujos pés estão gastos de tantos dedos fiéis que, passando por ali, completam a súplica com um gesto, tocando a pedra. Como uma boca torta pelo cachimbo. É fascinante que algo tão luminoso e esteticamente potente, como os contos de Munro, tenha nascido da fuga doméstica, do exercício auto-imposto de um alheamento seletivo, da abstração com tempo contado. Sei que sou feliz quando tenho uma ideia e posso trabalhá-la de forma estruturada, e sei que não sou muito boa quando estou de férias ou de bobeira em casa.
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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Uma palavra

- Venha comer - chamou Nélida.
Sobre a mesa havia uma travessa de ravióli.
- Que fome - ele exclamou.
- Não sei se você gosta.
Vidal a tranquilizou: o ravióli evocava imagens de épocas felizes, dos domingos, quando era criança, e de sua mãe.
- Acredite - disse com efusiva sinceridade. - Este é melhor do que os que eu me lembro. Pensei que ninguém fosse superá-los.
Beberam vinho tinto; comeram bife à milanesa e batatas. Quando chegou o arroz-doce, Nélida disse:
- Se você não gosta, me desculpe. Ainda não conheço seus gostos.
Abraçou-a por ela ter dito ainda. Agradeceu a palavra, como a promessa de um longo futuro para os dois. Depois se calou; perguntou-se o que poderia acrescentar, do que poderia falar para não aborrecê-la. Bebeu outro copo de vinho e, quando Nélida se levantou para preparar o café, começou de novo a beijá-la.
Adolfo Bioy Casares. Diário da guerra do porco. p. 147.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Paul-Michel, 5

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Paul-Michel publica O nascimento da clínica em 1963. O livro não tem a menor repercussão. Afinal de contas, esse sujeito é médico? historiador? filósofo? Que coisa mais bizarra, dizem. Mas o livro não passa despercebido a Jacques Lacan, que numa sessão de seu concorrido seminário discorre longamente sobre o livro ignorado de Paul-Michel. Nos dias seguintes, algumas dezenas de exemplares são vendidos. O contato entre os dois se dá, via amigos em comum. Paul-Michel janta várias vezes na casa dos Lacan, sem estabelecer com eles laços mais estreitos. Sylvia Lacan, a esposa de Jacques, se lembra de uma frase proferida por Paul-Michel em sua casa na rue de Lille: Não haverá civilização enquanto o casamento entre homens não for admitido. A partir do próprio Lacan, e também de Lévi-Strauss, Paul-Michel pôde realizar toda a sua empreitada arqueológica na obra que, finalmente, lhe valeu a celebridade - As palavras e as coisas, três anos distante de O nascimento da clínica. O curioso é que, dez anos depois, o cenário muda completamente - a amizade morna vira combate intelectual direto. Agora, em 1976, é contra Lacan que ele empreende a pesquisa genealógica de A vontade de saber. Paul-Michel pretende uma arqueologia da psicanálise. Pretende uma ruptura com Lacan, mas, também, uma ruptura com todos os que se opõem a suas análises: ideologias da liberação, freudo-marxismo, teorias do desejo, legados de Sade e Bataille. São doutrinas contraditórias, mas solidárias umas às outras, explica Paul-Michel: estão presas nos mesmos dispositivos de saber e poder.
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segunda-feira, 17 de maio de 2010

O escritor e sua pareja, 2

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O mundo moderno, livro de Malcolm Bradbury, está curiosamente repleto de informações sobre os escritores e suas parejas – não chega a ser um assunto central, longe disso, mas se anuncia, aqui e ali. Consta que a mulher de James Joyce, Nora, nunca leu sequer uma linha do que escreveu seu marido. A primeira esposa de T. S. Eliot, Vivienne, foi internada em clínicas psiquiátricas algumas vezes, assim como a esposa de Luigi Pirandello. Zelda Fitzgerald, esposa de Scott Fitzgerald, também sofreu muito com distúrbios psíquicos os mais diversos (consta que o casal passeava de conversível jogando notas de dinheiro para os pedestres). Gala Dalí, esposa de Salvador Dalí (russa de nascimento), estimulava o marido a, na velhice, mesmo de cama, sofrendo de mal de Parkinson e arteriosclerose, desenhar e assinar febrilmente folhas de papel em branco, em seu castelo em Figueras, na Espanha. Falsificador de si mesmo.
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sexta-feira, 14 de maio de 2010

O escritor e sua pareja, 1

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Quando continuamos a pensar sobre o escritor e sua pareja, uma constelação se forma ao redor de Kafka. Ricardo Piglia, em um dos ensaios de O último leitor, reflete longamente sobre o jogo de sedução entre Kafka e Felice Bauer – Kafka, no encontro com Felice na casa de Max Brod, fica fascinado com a capacidade de leitura e de escuta de Felice, e se apaixona. Elias Canetti, em O outro processo, arma uma interpretação sistêmica da obra de Kafka baseada na relação dele com Felice. Canetti dedica seu livro a Veza Canetti, com quem casou em 1934, que também era escritora. Sebald comenta, em Vertigem, no capítulo “A vilegiatura do Dr. K. em Riva”, a angústia de Kafka durante sua viagem à Itália e as cartas que mandou a Felice – recebendo respostas que só aumentavam seu desamparo. Sebald está sempre sozinho. Mesmo quando aparece na foto, na frente de uma árvore gigantesca em Os anéis de Saturno, evidência de que havia alguém ali com ele, a narração é sempre em primeira pessoa. A única exceção está em Os emigrantes, nas breves passagens em que Sebald escreve “decidimos”, “fomos”.

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quinta-feira, 13 de maio de 2010

O escritor e sua pareja

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Fui levado a pensar nas relações íntimas, caseiras, dos escritores – e como isso pode influenciar no trabalho deles. Uma parte disso se deve às recentes leituras de Verão, de Coetzee, principalmente de AX e AM – e vale lembrar que li Verão a partir de uma cópia feita do livro de AM, recebido em casa, Deus sabe de onde. Os fracassos de Coetzee em suas relações amorosas me levam a pensar na rotina que pode se estabelecer entre um escritor e seu par, sua pareja, no caso de Ricardo Piglia. Esse contexto foi reforçado pela coincidência de duas entrevistas: levado ao site do SESC por conta do Concurso Literário, encontrei a entrevista com a última vencedora, Gabriela Guimarães Gazzinelli, que, ao comentar sua relação com os livros, diz: “sou casada com um filósofo, com quem tenho a felicidade de trocar ideias, textos e impressões de leituras”. Dois minutos depois leio a entrevista que Elvio Gandolfo fez com Ricardo Piglia, que diz: “Ahora tenemos una casa en Malabia y Gorriti, porque Beba quería tener unas plantas”. Gandolfo nos informa que Beba é Beba Eguia, pareja de Piglia. E Gandolfo diz mais: “antes de Beba vivió doce años con Josefina “la China” Ludmer, rigurosa ensayista literaria”. A pareja anterior de Piglia já impressiona – Ludmer é uma pensadora estupenda, autora de textos instigantes e basilares sobre a literatura latinoamericana. A pareja atual é uma surpresa agradável, quando lemos as palavras de Piglia: “Beba lee mucho, es traductora. Parte de lo que nos une es la literatura. Hace diez años que estamos juntos”. Parte do que nos une é a literatura: como é bom poder dizer isso de alguém.

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