"Em 1975, saudando a presença de Lacan em Yale, Paul de Man proferiu, em homenagem ao convidado, algumas palavras de apresentação, que descreveram tão veemente e laconicamente o que era fundamental a seus olhos, que pedi a ele em seguida para me deixar ler novamente sua apresentação. Ele não tinha intenção de salvar essas palavras roubadas [purloined words] e imediatamente me deu a folha. Relendo-a hoje, eu a acho bonita demais, rica demais, para perder a oportunidade de publicá-la pela primeira vez em sua inteireza:
'(...) Como Freud, como Nietzsche, Jacques Lacan é um desses que conhecem a potência insólita que tem a língua de recusar a verdade na mesma medida em que não cessa de exigi-la. Ele nos ensinou essa mistura de rigor, de pathos e de suspeita, que deve guiar qualquer um que se aventura a um verdadeiro ato de leitura. As consequências para o ensino da leitura, isto é, para os departamentos de literatura, são incalculáveis. (...)'
Sabe-se muito bem que De Man resistiu ao discurso da psicanálise. E, ainda, que ele resistiu como alguém que é extremamente próximo a isso, como alguém que de certa forma sabia tudo sobre isso, mas que escolheu dizer esse saber sob a forma não tanto de uma negação, mas de uma recusa; uma recusa ativamente repetida, sustentada, paradoxalmente, não por estar cego quanto à importância da psicanálise, mas justamente pela recusa em iluminar tal importância. Gostaria aqui de pensar esta recusa, que considero nada mais do que um diálogo complexo com a psicanálise: um diálogo de uma vida, na escrita de De Man e no processo de suas leituras, entre a proximidade emocional de De Man, e simultaneamente sua distância crítica, em relação ao discurso psicanalítico"
(Shoshana Felman, "Sobrevivência postal, ou a questão do umbigo", aqui)

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