quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Dois peregrinos, 1786
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
Eu, ele
2) O "eu", de certa forma, entra em curto-circuito, muito por conta desse processo de identificação (e de imediata recusa da identificação) com os cadáveres dos companheiros - algo que se repete, em uma insistência; alguns deles passam mal, vomitam, e, enquanto isso acontece, outros ao redor repetem com veemência palavras de ordem e de estímulo (pare com isso!; volte imediatamente à des-identificação que nosso uniforme permite!). Duas respostas contemporâneas: de um lado, as memórias de Ernst Jünger, quase raivosas em sua insistência na singularidade de seu narrador, de sua experiência (eu!, eu!); de outro, a reflexão de Walter Benjamin sobre o esvaziamento psíquico decorrente da experiência das trincheiras.
3) Outro contemporâneo, Erich Auerbach (ferido seriamente na perna quando serviu na Primeira Guerra Mundial), fala de "realismo criatural" em Mimesis, uma estratégia da arte para dar conta dos limites do corpo - seus extremos e extremidades -, desde o corpo perfurado de Jesus, passando por Boccaccio, Rabelais, Montaigne; as cenas de Lukas Dhont promovem uma espécie de declinação específica do realismo criatural, aquele que se passa não diretamente na guerra (que seria o óbvio, o evidente), mas nos interstícios do conflito, nas brechas, daí a possibilidade de identificação do soldado vivo com o soldado morto, cujo cadáver ele remove do campo de batalha, leva ao caminhão e, do caminhão, para uma vala coletiva.
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
30 de abril, 2024
"Eu estou viva. Meu marido, Paul Auster, está morto. Ele morreu no dia 30 de abril de 2024 às 18h58, aqui, na casa do Brooklyn onde agora escrevo estas palavras. Ele foi diagnosticado com câncer de pulmão de células não pequenas em janeiro de 2023. Mas antes, em novembro de 2022, Paul tinha feito uma tomografia no pronto-socorro do hospital Mount Sinai West. O radiologista viu uma massa em seu pulmão direito e comentou que podia ser câncer." (p. 7)
"No início da nossa relação, Paul citou um trecho de Beckett que com o tempo virou um símbolo cômico compartilhado. É de A última gravação de Krapp. O velho Krapp, que tem exatamente a mesma idade que eu tenho agora, sessenta e nove, escuta uma gravação dele mesmo aos trinta e nove anos, falando com uma voz descrita como 'pomposa' na nota de palco. A peça fala do tempo - a versão velha do homem encontra a versão jovem - e de solidão, arrependimento e memórias de felicidade erótica. As palavras aparecem perto do final da peça de um ato. O velho Krapp fala: 'Dezessete cópias vendidas, das quais onze foram a preço de custo para bibliotecas públicas em outros continentes. Divulgação (Pausa)'." (p. 260)
"Há mais ou menos vinte anos, época em que Paul e eu lemos a biografia de Wittgenstein escrita por Ray Monk, muito depois da publicação, nós chegamos em casa depois de jantar fora, e quando fomos para o quarto, ao invés de dormir, passamos horas conversando na cama. Talvez tenhamos começado fofocando sobre aquela noite, sobre as pessoas de que já nem me lembro, mas um assunto foi levando a outro, e de repente nos vimos numa discussão acalorada sobre Wittgenstein. Vi de relance o relógio: três da manhã." (p. 280)
(Siri Hustvedt, Histórias de fantasma - memórias, trad. Ana Guadalupe, Cia das Letras, 2026)
domingo, 4 de outubro de 2026
Urnas sepulcrais
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
20 de abril, 1991
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Setembro, 1915
domingo, 27 de setembro de 2026
21 de junho, 1961
2) Nesse sentido, o filme de Varda antecipa uma série de temas e cenas que aparecerão em 10:04, o romance de Ben Lerner: não só a insistência nas balizas do tempo desde o título, mas especialmente o modo como essa obsessão é somatizada pelos protagonistas: Cléo com seu possível câncer (referido pela cartomante já no início) e o narrador de Lerner com seu coração falho - I was now burdened with the awareness that there was a statistically significant chance the largest artery in my body would rupture at any moment, ele escreve logo na terceira página.
3) Lerner, de resto, organiza parte da narrativa ao redor do efeito criado pela obra, instalação, experimento de Christian Marclay, The Clock, filme feito de fragmentos de outros filmes que dura 24 horas e que, como não poderia deixar de ser, utiliza também uma cena do filme de Varda, quando Cléo caminha pelas ruas de Paris depois de comprar um chapéu: a tomada do alto registra um relógio de rua à direita, que marca 5h40.






