quinta-feira, 7 de maio de 2026

Percênio



1) No que diz respeito ao seu comentário sobre Petrônio (27-66), Auerbach é muito claro tanto na exaltação dos méritos quanto na indicação dos limites: ele insiste que, diante do material sobrevivente da Antiguidade, o romance de Petrônio é único, "genial" se não tiver antecedentes (que podemos não conhecer); sua insistência no estilo baixo/cômico é uma limitação, mas Auerbach aponta também que a própria noção de "força histórica" (que permitiria uma ligação entre os eventos/fatos dos primeiros tempos do Império e a interação específica dos personagens tanto no banquete quanto nessa "cena social" de uma cidade italiana meridional, ambiente do Satíricon) era inacessível para Petrônio.

2) Mesmo no trabalho de um historiador Auerbach não encontra, com total desenvolvimento, a percepção das "forças históricas" na Antiguidade - é por isso que, logo depois da análise de Petrônio, Auerbach se move em direção aos Anais de Tácito (55-117), um trecho específico, que lida com a descrição de um início de revolta por parte do exército depois da notícia da morte de Augusto. Embora próximos no tempo, a época de Tácito e os eventos com os quais lida são bem distintos daqueles de Petrônio - a rudeza das campanhas no primeiro, o ambiente excessivo dos "novos ricos" no segundo; no entanto, Auerbach vê nos dois a mesma obediência à separação dos estilos e, no caso de Tácito, um "olhar de cima" característico da aristocracia. 

3) Ao mesmo tempo, em paralelo (e aí está a densidade da exposição de Auerbach e o "prazer do texto" em Mimesis), Auerbach enfatiza a carga estética dos elementos dispostos por Tácito em sua narrativa, o olhar retórico para o detalhe que dá páthos ao discurso: Percênio ("...um certo Percênio", como fará Erico Verissimo com "um certo capitão Rodrigo"), o soldado raso que, no passado, trabalhou com o teatro e que, por isso, tem habilidade com as palavras e com a movimentação dos ânimos (que espera os mais espertos irem dormir para poder falar com os mais burros, influenciáveis); a exaltação da massa bruta dos soldados diante de suas palavras, um deles mostrando as marcas dos açoites, outro, os cabelos grisalhos, outro ainda, suas roupas rasgadas.   

terça-feira, 5 de maio de 2026

Fortunata



1) No início de seu capítulo sobre Petrônio ("Fortunata"), Auerbach interpreta o modo como um vizinho de banquete do narrador do Satíricon se refere à mulher do anfitrião: seu jargão é ordinário e seu interesse está única e exclusivamente nos bens materiais; ele é "baixo" e "criatural" pela via da matéria, do dinheiro, das posses, esses são os elementos constituintes de seu mundo; seu discurso não é lógico, escreve Auerbach, e sim associativo; ele fala abertamente e, como Homero, usa uma luz uniforme sobre os eventos, nada deixando escondido ou incerto.

2) Mas de imediato Auerbach apresenta os pontos nos quais Petrônio se afasta de Homero: o mundo grego, de uma forma geral, remete à mitologia e à genealogia, ou seja, a pontos fixos de origem e de legitimação dos destinos (mesmo na tragédia, a resolução é algo que reside para além do ordinário); o mundo de Petrônio, por outro lado, é incerto, instável, caótico, sem pontos de referências prévios aos quais retornar, apenas a linha do horizonte do futuro imediato, "da mão para a boca" (é uma visão "intrinsecamente histórica" a de Petrônio, escreve Auerbach, das mudanças não só dos destinos, mas do meio social no qual os indivíduos estão inseridos).

3) E também em seguida, no dinamismo que lhe é típico, Auerbach mostra que essa visão histórica é apenas um efeito de superfície - ainda assim, uma importante etapa no processo de representação da realidade por parte da literatura. Petrônio permanece no estilo baixo-cômico limitado de seu tempo, permanece seguindo as regras estilísticas de seu tempo no que diz respeito à presença do "povo" na literatura; falta o conflito e o "problemático" em Petrônio, escreve Auerbach, falta um verdadeiro "pano de fundo histórico", que só poderia ser alcançado com menções diretas a situações e eventos dos primeiros tempos do Império.

domingo, 3 de maio de 2026

Um bom movimento

Erwin Panofsky (1892-1968)

1) Em determinado ponto de seu ensaio sobre a "Filologia da literatura mundial" (de 1952), mais para o final, Erich Auerbach resgata uma sugestão dada a ele por Erwin Panofsky (uma conjunção, por si só, já bastante carregada de sentido, em uma equação referencial que pode incluir, no início, Warburg, e, no final, Didi-Huberman): Panofsky sugere a Auerbach que, para de fato praticar a história das ideias, um bom movimento poderia ser, no caso de Dante, por exemplo, acompanhar a interpretação de determinadas passagens da Comédia desde os primeiros comentadores até o século XVI e, depois, a partir do Romantismo. 

2) Entre outras coisas, Auerbach está falando da dificuldade de montar (escrever, publicar) amplos panoramas sobre temas, figuras ou literaturas nacionais; está falando de como um mundo impossivelmente amplo como o "nosso" (ele escreve na década de 1950, mas essa proliferação/estilhaçamento das referências e pontos de vista só fez se intensificar desde então) já não pede sínteses absolutas e totalizantes, e sim esforços interpretativos mais "criativos", "disruptivos", daí a relevância da sugestão de Panofsky. 

3) Dada a proliferação, é preciso ser o mais específico possível, argumenta Auerbach; categorias genéricas como "barroco", "romantismo", "dramaticidade" ou "fatalismo", "mito" e "perspectivismo" (os exemplos são de Auerbach; poderíamos acrescentar a ideia de "gótico" em tantos e tantos textos sobre parte da produção literária latinoamericana recente) devem ser evitadas; ao mesmo tempo, ele defende uma "filologia sintética da literatura mundial", para que as "especificidades" não se transformem em bolsões inexpugnáveis.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Sinais de pontuação



1) Pensando ainda na obsessão de Ginzburg com a pontuação (confessada na entrevista sobre Pavese), lembro do ensaio de Theodor Adorno, "Satzzeichen", "Sinais de pontuação", publicado em 1956 na revista Akzente (descubro agora que muitos textos do Grupo 47 foram publicados pela primeira vez nessa revista; textos de Ingeborg Bachmann e Hans Magnus Enzensberger, por exemplo), e hoje parte das Notas de literatura.

2) Adorno lê nos sinais de pontuação uma espécie de zona fronteiriça: são signos de uma convenção que limita o trabalho criativo; ao mesmo tempo, são necessários para o impulso criativo individual alcance certo patamar "compartilhável"; os sinais de pontuação são parte da garantia de legibilidade que liga a fase da escrita à fase da leitura; ainda assim, escreve Adorno, a pontuação é fonte de "permanente perigo", sempre na iminência de revelar aquilo que é trivial e convencional em todo trabalho criativo com a linguagem.

3) Para Pavese, diz Ginzburg na entrevista, a pontuação é fundamental para imprimir o ritmo peculiar de sua poesia; mas não apenas da poesia, continua Ginzburg: segundo ele, é possível reconhecer esse ritmo peculiar de Pavese também em suas narrativas: a primeira edição de Trabalhar cansa é de 1936, e Ginzburg cita diretamente dois romances posteriores de Pavese nos quais ele reconhece esse ritmo, La casa in collina, escrito entre 1947 e 1948 (e publicado nesse ano), e La luna e i falò, escrito entre 18 de setembro e 9 de novembro de 1949 e publicado em abril de 1950 (Pavese comete suicídio em 27 de agosto de 1950).

sábado, 18 de abril de 2026

O ritmo de Pavese


1) Em uma entrevista de 2020 (uma homenagem a Pavese por conta dos 70 anos de sua morte), Carlo Ginzburg fala de Cesare Pavese: fala de como o principal elemento que o atinge de Pavese, especialmente da poesia de Pavese, é o ritmo; para Ginzburg, o ritmo de Trabalhar cansa é uma "novidade extraordinária", algo que Ginzburg não sabe dizer se um dia conseguirá investigar (como ensaísta, como pesquisador), mas que o fascina, principalmente como "leitor", como "re-leitor" (Ginzburg enfatiza, repete essa palavra: "re-leitor", "releitor"). 

2) "Gostaria de analisar esse ritmo de Pavese", diz Ginzburg na entrevista, "especialmente pela via da pontuação", e aqui Ginzburg faz, subitamente, uma revelação: "porque tenho uma obsessão pela pontuação" (e nesse ponto valeria revisar a obra de Ginzburg, à luz dessa entrevista de 2020 e dessa declaração de "obsessão" pela pontuação; revisar para ver se a pontuação é elemento de análise - de improviso, lembro apenas do ensaio dedicado a Flaubert, "Decifrando um espaço em branco" (mas não é bem a pontuação), que está no livro Relações de força). 

3) Outro ponto em Pavese que, para Ginzburg, é essencial: a ligação entre mito e infância, a insistência com o tema do mito ao longo de toda sua produção, o modo como o tema da infância em Pavese (temas, resgate da própria biografia, paisagens) reforça, obliquamente, a preocupação com o mito (que é tanto criativa quanto crítica: Ginzburg insiste na colaboração de Pavese com Ernesto de Martino, antropólogo, da ideia que tiveram, juntos, para uma coleção editorial, a collana viola (religião, etnologia, psicologia), feita para a editora Einaudi entre 1948 e 1956, continuada pela Bollati Boringhieri a partir de 1957). Em seu livro Settanta, por exemplo, Marco Belpoliti fala que o livro de Ginzburg de fins dos anos 1980, História noturna, é a "enésima reencarnação dos problemas debatidos por Cesare Pavese".

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Não gosto



"Não creio que se possa pôr Shakespeare juntamente com outro poeta. Talvez ele fosse antes um criador de linguagem do que um poeta?

Eu só pude olhar assombrado para Shakespeare; jamais fazer algo com ele.

Tenho uma desconfiança profunda da maioria dos admiradores de Shakespeare. O infortúnio, creio, é que, pelo menos na cultura ocidental, ele se acha sozinho, e por isso, para classificá-lo, as pessoas têm de classificá-lo erradamente" (p. 263).

"'O grande coração de Beethoven' - ninguém poderia dizer 'o grande coração de Shakespeare'. 'A mão flexível, que criou novas formas naturais da linguagem' me pareceria mais correto" (p. 265).

"Não posso compreender Shakespeare porque em toda aquela assimetria quero achar a simetria.

Para mim, suas peças são como enormes esboços, não pinturas; foram lançadas no papel, por alguém que, por assim dizer, tudo se permitia. E compreendo que se possa admirar essa obra e considerá-la arte suprema, mas não gosto dela. - Portanto, se alguém fica perplexo diante dessas peças, posso compreender essa pessoa; mas quem as admira como quem admira Beethoven, digamos, esse me parece compreender mal Shakespeare" (p. 269).

(Wittgenstein, Pensamentos diversos: sobre cultura, filosofia, religião e arte. Trad. Paulo César de Souza. Cia das Letras, 2025).

domingo, 12 de abril de 2026

A ocasião



1) Ainda em seu livro sobre Saer, Prieto resgata um ensaio de Alan Pauls, intitulado "La primera novela realista sobre el azar", publicado em Babel, revista de libros (revista mensal, direção de Martín Caparrós e Jorge Dorio), em setembro de 1988, um número que conta com um dossiê sobre Walter Benjamin, com textos de Ricardo Forster, Horacio González ("Borges y Benjamin") e Alejandro Katz. O "livro do mês" é, precisamente, A ocasião, de Saer (romance que vence o Prêmio Nadal em 1987); na mesma página em que inicia o ensaio de Pauls, inicia também um ensaio de Sergio Chejfec sobre o romance de Saer, intitulado "Una gran obra sin preceptivas" (Chejfec, no final, elogia Saer como um escritor que deseja escrever, e não "regular a literatura").

2) O texto de Pauls é, em grande medida, uma defesa de Saer diante de certas incompreensões na recepção crítica argentina; o principal antagonista é Tomás Eloy Martínez, que Pauls chama de "Professor Martínez", que denunciou em Saer uma escrita endereçada à crítica, um centramento excessivo na "autorreferencialidade", uma recusa da "própria história" (Martínez denuncia Saer, segundo Pauls, como um imitador de Thomas Bernhard). O trunfo de Saer, escreve Pauls, está justamente em multiplicar incertezas: "confabulação de coincidências", "opacas indeterminações".

3) Em A ocasião, Saer conta a história de Bianco, "mentalista" italiano que foge de uma "humilhação pública" em Paris e se refugia no interior da Argentina, por volta de 1870; o telepata foge também da recusa positivista de sua arte oblíqua (algo análogo, mas invertido, àquilo que faz Aira com Rugendas em Un episodio en la vida del pintor viajero, novelita de 2000 - é interessante que Pauls também faz um paralelo entre Saer e Aira em seu texto: ao escrever que o romance de Saer é o "primeiro romance realista sobre o azar" (acaso, fatalidade, acidente), mais do que isso, "um dos primeiros delírios de azar", outro sendo O vestido rosa, de César Aira).