segunda-feira, 30 de março de 2026

O verbo ser


"Quando lemos os diálogos socráticos, temos esta sensação: que terrível perda de tempo! Para que esses argumentos, que nada provam e nada esclarecem? (p. 59)

Sempre tornamos a ouvir a observação de que a filosofia não faz realmente nenhum progresso, que os mesmos problemas filosóficos que já ocupavam os gregos ainda nos ocupam. Mas os que dizem isso não compreendem por que tem de ser assim. A razão é que nossa linguagem permaneceu a mesma e sempre nos desvia para as mesmas questões. Enquanto existir um verbo 'ser' que parece funcionar como 'comer' e 'beber' (...) as pessoas depararão sempre com as mesmas misteriosas dificuldades. (p. 61)

Leio que 'philosophers are no nearer to the meaning of 'Reality' than Plato got' [os filósofos não estão mais próximos do sentido da 'Realidade' do que Platão esteve]. Que situação peculiar. Que estranho que Platão pudesse ir tão longe! Ou que nós não tenhamos podido ir mais longe! Seria porque Platão era tão inteligente? (p. 63).

Creio que resumi a minha atitude ante a filosofia ao dizer: filosofia, na verdade, deveríamos apenas escrever como um poema. Disso se depreenderá, me parece, até que ponto meu pensar pertence ao presente, ao futuro ou ao passado. (p. 89)"

(Wittgenstein, Pensamentos diversos: sobre cultura, filosofia, religião e arte. Trad. Paulo César de Souza. Cia das Letras, 2025).

quarta-feira, 25 de março de 2026

O romance, o verso


1) O limoeiro real, romance que Juan José Saer publica em 1974, retorna frequentemente a uma espécie de refrão: "Amanhece, e já está com os olhos abertos". Nascido em 1937, estreando na literatura em 1960 – com um livro de contos intitulado En la zona –, Saer sempre encarou o trabalho ficcional como um experimento com a linguagem. Suas obras com frequência chamam a atenção do leitor para a performance da língua, para o evento de construção do sentido que se dá sempre que o olhar encontra um significante na página. Por isso o refrão, que dá ritmo à narração, reiterando sua dimensão artificial. 

2) Em entrevista dada a Guillermo Saavedra em 2002, Saer conta que começou a escrever O limoeiro real em versos, mas que desistiu depois de duas páginas e meia. Como escreve Beatriz Sarlo (Zona Saer), sua obra solicita a lentidão da escritura poética, sendo melhor "lê-lo em voz alta", "como acontece com James Joyce", dando o tempo necessário para que ocorra uma sorte de homeostase entre a consciência do leitor e a prosa de Saer. 

3) Além disso, continua Sarlo, Saer escreve "a partir da poesia", como outros escrevem "a partir da história" ou "a partir dos gêneros"; para Sarlo, o ponto de vista de Ninguém nada nunca, A volta completa, O enteado, As nuvens – em suma, da obra de Saer como um todo – é sustentado por um "fazer poético" marcado pela repetição, pela digressão e pelas antecipações, algo que se percebe desde En la zona até o romance O grande, de lançamento póstumo (Saer morre em 11 de junho de 2005).

domingo, 22 de março de 2026

Sonhar na praia



1) "Por que se sonha tanto na praia?", pergunta Alan Pauls logo no início de A vida descalça, evocando suas férias em Cabo Polônio, praia uruguaia. Esse lugar específico – de onde parte o relato de Pauls – "não tem luz elétrica", "não tem cinema, televisão, não tem computadores", e é "tão indigente que as formas de comunicação publicitária mais elaboradas que tolera são as pichações da política municipal e os painéis dos cigarros Nevada". Em outras palavras, conclui Pauls: "sonha-se muito porque a praia é um território livre de imagens". Essa última frase será retrabalhada pelo narrador ao longo de todo o livro, uma vez que a praia é, também, local por excelência de produção de imagens. O próprio livro, como objeto material, prova esse ponto – Pauls reproduz uma série de fotos suas quando criança, entre os capítulos, vindas diretamente do álbum familiar (sempre o céu imenso e a quase infinita extensão de areia).

2) Um dos pontos fortes de A vida descalço é o modo como Pauls oscila entre o registro da memória e o registro do ensaio, apresentando comentários sobre outras obras e autores no interior do processo autobiográfico (tudo começa com uma reveladora epígrafe do italiano Cesare Pavese - de seu breve romance A praia, de 1942). A paisagem que desconcerta o narrador é semelhante àquela que desconcerta alguém como Diderot, por exemplo: "No final do século XVIII, Diderot, em pé em frente à costa holandesa, perguntava-se como era possível que alguém aceitasse viver à vista de semelhante massa de água, sabendo que a qualquer momento o mar poderia sair de seu leito e precipitar-se sobre a terra". 

3) E quando pensa nos amores de verão, Pauls evoca "o célebre fotograma de A um passo da eternidade", o filme de Fred Zinnemann de 1953, com "o sargento Warden e Karen Holmes" se beijando "numa praia do Havaí enquanto as ondas quebram sobre seus corpos". O que impressiona o narrador é, antes de mais nada, o desconforto daquela areia molhada, "dura como uma tábua", transformada "numa legião de cristaizinhos insuportáveis" indo parar "nas virilhas de Burt Lancaster e Deborah Kerr".

terça-feira, 17 de março de 2026

Sófocles, roxo-avermelhado



1) Sófocles é contemporâneo dos principais acontecimentos do quinto século ateniense: tinha 36 anos de idade quando o historiador Tucídides nasceu, 40 quando Ésquilo faleceu em Gela, na Sicília, 67 quando Péricles morreu em decorrência da peste que assolou Atenas em 429 AEC. Talvez tenha assistido ao primeiro triunfo de Eurípides, em 449, quando tinha 47 anos; viu a inauguração do Parthenon em 447 e a estátua de Palas Atena em ouro e marfim, obra de Fídias, ser depositada no templo em 438; vivenciou os quase 27 anos da guerra contra Esparta, falecendo em 406, dois anos antes da capitulação de Atenas. Plutarco escreve (Vida de Numa, 3) que Sófocles introduziu em Atenas o culto do deus Asclépio e sua serpente; depois de sua morte, foi honrado como herói e cultuado com o nome de Dexion. 

2) Anne Carson escreve sobre a relação de Hölderlin com Sófocles: "Quando, em 1796, o poeta lírico alemão Friedrich Hölderlin assumiu a tarefa de traduzir a Antígona de Sófocles, ele se deparou com este problema já na primeira página. A peça abre com Antígona, angustiada, confrontando a irmã, Ismênia. 'O que foi?', pergunta Ismênia, e acrescenta o verbo púrpura: 'Obviamente, você está ficando sombria, está remoendo profundamente (kalchainous) alguma notícia' (Antígona, 20). Essa é uma tradução-padrão do verso. E esta é a versão de Hölderlin: Du scheinst ein rotes Wort zu färben, o que quer dizer algo como 'Você parece pintar uma palavra roxo-avermelhada, tingir suas palavras de púrpura-vermelho'. O literalismo implacável desse verso é típico de Hölderlin".

3) E Carson continua, enfatizando o procedimento tradutório "errático" de Hölderlin: "Seu método de tradução era apanhar cada item da dicção original e arrastá-los à força para a língua alemã, mantendo exatamente a mesma sintaxe, a ordem das palavras e o sentido lexical. Disso resultaram versões de Sófocles que fizeram Goethe e Schiller gargalhar quando as ouviram. Resenhistas eruditos fizeram uma lista com mais de mil erros e chamaram as traduções de desfiguradas, ilegíveis, obras de um louco" ("Variações sobre o direito de permanecer calado", Sobre aquilo em que eu mais penso, tradução de Sofia Nestrovski, Editora 34, 2023, p. 164).

sexta-feira, 13 de março de 2026

No alto do monte


1) Em As Traquíneas, Sófocles arma uma trama na qual é possível ver tanto a estrutura (a arquitetura) abstrata típica do olhar da escrita (os paralelos entre Héracles e Dejanira, marido e mulher, ela começando a peça e morrendo, ele terminando a peça e morrendo) quanto a recorrência das fórmulas da oralidade, bem como sua estratégia típica de reiteração e rememoração. Nos versos 335-340, por exemplo, um mensageiro chega para desmentir o que foi dito pelo mensageiro anterior (Licas, o arauto de Héracles): pede atenção e diz que está ali para suprir lacunas, ou seja, solicita o resgate daquilo que acaba de ser dito e, simultaneamente, anuncia que precisa daquele material para acrescentar novos elementos.

2) Na Ilíada (XVIII, 117-119), encontramos um comentário sobre Héracles que ecoa na peça de Sófocles: Homero registra que nem mesmo Héracles escapou da morte, mesmo sendo filho de Zeus, mesmo sendo querido por seu pai e possuidor de consideráveis dons e capacidades; foi subjugado pela ira de Hera e pelo destino. É pela via do exemplo de Héracles que Aquiles, na Ilíada, aceita seu destino: se até mesmo o maior dos homens teve de morrer, por que eu escaparia? A morte de Héracles é um dos pontos centrais da peça de Sófocles, As Traquíneas: envenenado pelo “fármaco” que Dejanira coloca em uma túnica (um presente de grego!), ele suplica ao filho (Hilo) que o queime vivo no alto do monte Eta, para libertá-lo da agonia.

3) Nós não vemos a morte de Héracles, assim como não vemos a morte de Dejanira: ela se suicida depois de saber que foi a causadora da morte do marido (o “fármaco” deveria ser um filtro do amor, não um veneno), mas ficamos sabendo disso pelo relato de uma terceira (a nutriz que descreve como Dejanira se matou usando seu broche, cravando-o na carne repetidas vezes); assim como não vemos a pira queimar, pois a peça termina antes mesmo da subida em direção ao alto do monte (Héracles dá instruções específicas ao filho sobre o tipo de madeira e como a pira deve ser montada – resquícios de instruções rituais provavelmente reconhecíveis pela plateia contemporânea em Atenas).

segunda-feira, 9 de março de 2026

Vá e busque


1) Ainda em sua História da filologia, Pfeiffer desenvolve alguns temas paralelos com relação à difusão do texto de Homero, seja na possível primeira edição crítica de Antímaco (fim do século V AEC), seja no uso (ou falta de uso) dessa edição (e de outras versões escritas de Homero) por parte dos escritores do século IV. Um aspecto decisivo, segundo Pfeiffer, está no hábito dos pensadores-escritores-filósofos desse período buscarem cópias próprias de diferentes textos antigos, cujas versões fidedignas frequentemente se encontravam nas cidades de origem de seus autores (sempre uma marca de prestígio, como prova a reivindicação de Antímaco que Homero era originário de sua cidade, Colofão).

2) Pfeiffer dá um exemplo que envolve precisamente esses personagens em questão: está “bem comprovado”, escreve ele, que Platão enviou um de seus discípulos (seu favorito, informa Pfeiffer em outro momento do volume), Heráclides Pôntico, justamente para Colofão, para coletar e copiar os poemas de ninguém mais, ninguém menos que o próprio Antímaco (talvez mais celebrado à época de Platão como poeta, e não tanto como “leitor crítico” de Homero – Pfeiffer chega a dizer que é possível ver o reflexo do trabalho do crítico no trabalho do poeta, já que os poemas épicos de Antímaco estão carregados de “glosas” da Ilíada e da Odisseia). Plutarco fala da viagem de Licurgo em busca dos poemas homéricos.

3) Nesse cruzamento de dados específicos, toda uma tradição múltipla se dispersa em várias direções: lendas locais e fundações míticas (Cadmo semeando os dentes do dragão para fundar Tebas); curiosidades arqueológicas, geológicas e linguísticas (Heródoto comenta variações linguísticas em várias passagens; nos capítulos 57-58 do Livro I define o “ser grego” a partir da língua comum); túmulos, relíquias e inscrições comemorativas que marcam a presença de personagens ilustres às respectivas cidades (Plutarco, na Vida de Teseu, afirma que Teseu foi enterrado na ágora, depois que seus ossos foram resgatados na ilha de Esquiro). 

quarta-feira, 4 de março de 2026

O topo, o final


1) Em sua História da filologia, Rudolf Pfeiffer afirma que a primeira edição crítica de Homero de que se tem notícia é aquela realizada por Antímaco de Colofão (ou “Cólofon”, antiga cidade grega na Jônia, hoje Turquia, perto de Éfeso; lar de Xenófanes, famosa por sua cavalaria; Antímaco afirmava, inclusive, que Homero era originário dessa cidade; o nome da cidade passou a designar a nota final de um livro porque kolophon quer dizer ‘cume’ ou ‘topo’, deslizando em direção à ideia de ‘final’), provavelmente em algum ponto da última década do V século AEC (410-400); os anos finais de Sócrates, portanto.

2) Seria de esperar que os escritores do século seguinte utilizassem a edição de Antímaco; Pfeiffer, contudo, aponta que tal homogeneidade é ilusória: as citações de Homero feita por autores como Platão e Aristóteles, por exemplo, frequentemente não condizem com o texto estabelecido por Antímaco. Pfeiffer enfatiza que a principal explicação dessa divergência está no fato desses escritores frequentemente citarem Homero (e outros) de memória (sendo que essa “capacidade” de memorização e enunciação muitas vezes é comentada e referida nos próprios textos, como é o caso das reflexões de Platão sobre o “improviso”, por exemplo).

3) Outra explicação para a divergência no teor do texto de Homero nas citações ao longo do século IV AEC está no uso de outras possíveis edições: o próprio Antímaco, para estabelecer sua edição, fez uso, evidentemente, de outras versões mais antigas; Pfeiffer argumenta que certamente tais versões mais antigas continuavam em circulação, frequentemente compostas apenas de fragmentos ou episódios seja da Ilíada, seja da Odisseia; por outro lado, Pfeiffer também argumenta que esse contexto começa a mudar com Aristóteles e com o estabelecimento de sua escola, dedicada, em grande medida, à reunião de versões escritas de textos antigos (e não apenas literários).