"Bioy acompañó a Borges hasta el último de sus días. En la página 1591 [Adolfo Bioy Casares, Borges, Edición al cuidado de Daniel Martino, Barcelona: Ediciones Destino ("Imago Mundi"), 2006] escribe lo ocurrido el lunes 12 de mayo de 1986: 'Hoy hablé con Borges, que está en Ginebra. A eso de las nueve, cuando íbamos a tomar el desayuno, llamó el teléfono. Silvina atendió. Pronto comprendí que hablaba con María Kodama (...) Me dio el teléfono y hablé con María (...) Me dijo que Borges no estaba muy bien, que oía mal y que le hablara en voz alta. Apareció la voz de Borges y le pregunté cómo estaba. 'Regular, nomás', respondió. 'Estoy deseando verte', le dije. Con una voz extraña, me contestó: 'No voy a volver nunca más'. La comunicación se cortó. Silvina me dijo: 'Estaba llorando'. Creo que sí. Creo que me llamó para despedirse' " (fonte).
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
domingo, 20 de setembro de 2026
Vidas paralelas
Dois livros atípicos, que encontrei em sebos ao longo dos anos, mas que compartilham um procedimento: vidas paralelas - Irena Gross aproxima Joseph Brodsky e Czeslaw Milosz; Tullio Kezich aproxima Italo Svevo de seu personagem Zeno Cosini (do romance A consciência de Zeno). O primeiro teve uma primeira versão em polonês (2007), foi expandido quando a autora fez a tradução para o inglês (2009); o segundo foi escrito em italiano, lançado em 1970 e, em 1978, uma nova edição aumentada, com um prefácio de Claudio Magris, senhor dos temas triestinos.
O segundo é mais inventivo, já que faz a aproximação entre um autor e seu personagem em uma cronologia comparada, com fotos (a organização formal é de uma crônica, ano a ano); o primeiro tem mais fôlego e documentação, citando cartas, poemas, bibliografia crítica (sem fotos). No prefácio ao livro de Gross, Tomas Venclova fala diretamente de Plutarco, já na primeira linha: "esse livro me lembra um pouco Plutarco", pelo modo como coloca Brodsky e Milosz lado a lado, como os pares "grego/romano" de Plutarco; a diferença mais importante, contudo, está no fato da autora ter conhecido e convivido com os dois escritores - algo inacessível para Plutarco na relação com seus personagens.
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
A gaiola
1) No Teeteto, Platão faz Sócrates falar de erros e sensações, opiniões, marcas e almas; está em questão o "conhecer" e o "não conhecer", a impossibilidade de se opinar o falso. Nesse momento (194-195), Sócrates recorre à metáfora do bloco de cera: a alma como superfície na qual é possível deixar marcas, ou seja, a alma como lousa, suporte, material de escrita.
2) As sensações deixam marcas na cera da alma, diz Sócrates, escreve Platão; talvez o erro surja quando a alma não consegue ligar a sensação à marca correspondente: tenta conectar uma chamada equivocada, como as telefonistas em suas caixas/jaulas de ressonância, com seus fios e orifícios (a imagem vem de Kittler e de Henry James e do início do século XX). A cera deve ser maleável na medida, diz Sócrates: se muito dura, impede o aprendizado; se muito mole, favorece o esquecimento.
3) A jaula retorna na próxima metáfora de Sócrates, pouco além: o pássaro na gaiola, ou melhor, a possibilidade do erro como a possibilidade de pegar o pássaro errado quando se recorre à gaiola (o arquivo, o repertório) do conhecimento. A proposta de Teeteto, que confunde tudo e lança o diálogo no absurdo momentâneo, é a de que dentro da gaiola estão não apenas os conhecimentos, mas os não-conhecimentos (a cacofonia, o ruído branco, a estática?).
sábado, 12 de setembro de 2026
Il miglior fabbro
1) Em seu livro Perfis, H. U. Gumbrecht dedica um dos capítulos a Peter Sloterdijk, enfatizando a surpresa de seu sucesso no início dos anos 1980 com Crítica da razão cínica. O pensamento de Sloterdijk surge como uma sorte de corte transversal em uma situação de impasse, uma "guerra de trincheiras" entre os seguidores de Habermas e os seguidores de Luhmann, escreve Gumbrecht (que, no entanto, não esclarece se essa intervenção foi deliberada por parte de Sloterdijk ou se foi uma constatação tornada possível com o passar do tempo).
2) É evidente que a erudição de Sloterdijk é impressionante, bem como sua capacidade de intervir sobre o debate do presente por meio de cuidadosos resgates de referências do passado; mas aquilo que é decisivo no "perfil" de Sloterdijk, para Gumbrecht, é seu estilo, sua prosa, sua linguagem, "a melhor prosa filosófica em alemão desde Nietzsche". Faz pensar na tradução de Plutarco por Jacques Amyot (1513-1593): "graças a ela", escreve Montaigne, "não temos mais vergonha de falar e escrever hoje em dia; as damas com ela instruem os mestres-escola; é o nosso breviário" (Essais, II, 4 - em português, o capítulo é intitulado "Para amanhã os negócios", que começa com a frase: "Com razão, parece-me, dou a palma a Jacques Amyot acima de todos os nossos escritores franceses" [ênfase minha]).
3) É justamente esse modo peculiar de escrita que faz de Sloterdijk um filósofo não de descrição do mundo, mas de intervenção sobre o mundo (como faz com sua provocação em Regras para o parque humano, escreve Gumbrecht, ao exigir a fabricação de um "ser humano moralmente superior" assim que o genoma humano for decodificado) - o que fica evidente vendo seu último livro, de 2026, Der Fürst und seine Erben. Über große Männer im Zeitalter der gewöhnlichen Leute [O Príncipe e seus herdeiros. Sobre grandes homens na era das pessoas comuns], que tem o atual presidente dos Estados Unidos na capa.
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Rudeza desfigurada
sábado, 5 de setembro de 2026
Goethe, 1786
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
A noiva de Corinto
![]() |
| Max Liebermann, Die Braut von Korinth, 1924 |
1) No capítulo nove de seu livro sobre Freud e os atos falhos (Il lapsus freudiano. Psicanalisi e critica testuale, Florença, La Nuova Italia, 1975), Sebastiano Timpanaro retoma mais uma vez a Psicopatologia da vida cotidiana para discutir um dos exemplos de Freud: um "jovem colega", escreve Freud, tenta recitar um poema de Goethe, Die Braut von Korinth, A noiva de Corinto (1797), mas erra de tal forma que transforma inteiramente a obra.
2) Se Goethe escreve "Wenn er teuer nicht die Gunst erkauft", "Se ele não compra o favor com afeição", o jovem colega diz, sem qualquer respeito pela rima (elemento frisado por Timpanaro, que está interessando justamente nessa explicação filológica/crítica dos exemplos de Freud), "Jetzt, wo jeder Tag was Neues bringt", "Agora, quando cada dia traz algo novo", deturpação na qual Freud identifica uma angústia com relação ao noivado do jovem colega com uma mulher mais velha (o tema do noivado, aliás, permanente fonte de angústia na literatura alemã: Goethe com Charlotte Buff, Lili Schönemann e Christiane Vulpius; Kafka com Felice Bauer, Julie Wohryzek e Milena Jesenská).
3) A angústia do jovem colega era tamanha que o fez inventar versos; Timpanaro, ironicamente, comenta que se trata mais de uma manifestação de psicose do que de neurose, já que a recitação do poema de Goethe foi apenas o ponto de partida para uma espécie de monólogo delirante (que poderia ter sido despertado por qualquer outro poema ou texto, de qualquer outra proveniência ou autoria: essa arbitrariedade é a mesma que Timpanaro diagnostica nas interpretações de Freud para os atos falhos).






