quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A noiva de Corinto

Max Liebermann,
Die Braut von Korinth, 1924

1) No capítulo nove de seu livro sobre Freud e os atos falhos (Il lapsus freudiano. Psicanalisi e critica testuale, Florença, La Nuova Italia, 1975), Sebastiano Timpanaro retoma mais uma vez a Psicopatologia da vida cotidiana para discutir um dos exemplos de Freud: um "jovem colega", escreve Freud, tenta recitar um poema de Goethe, Die Braut von Korinth, A noiva de Corinto (1797), mas erra de tal forma que transforma inteiramente a obra. 

2) Se Goethe escreve "Wenn er teuer nicht die Gunst erkauft", "Se ele não compra o favor com afeição", o jovem colega diz, sem qualquer respeito pela rima (elemento frisado por Timpanaro, que está interessando justamente nessa explicação filológica/crítica dos exemplos de Freud), "Jetzt, wo jeder Tag was Neues bringt", "Agora, quando cada dia traz algo novo", deturpação na qual Freud identifica uma angústia com relação ao noivado do jovem colega com uma mulher mais velha (o tema do noivado, aliás, permanente fonte de angústia na literatura alemã: Goethe com Charlotte Buff, Lili Schönemann e Christiane Vulpius; Kafka com Felice Bauer, Julie Wohryzek e Milena Jesenská). 

3) A angústia do jovem colega era tamanha que o fez inventar versos; Timpanaro, ironicamente, comenta que se trata mais de uma manifestação de psicose do que de neurose, já que a recitação do poema de Goethe foi apenas o ponto de partida para uma espécie de monólogo delirante (que poderia ter sido despertado por qualquer outro poema ou texto, de qualquer outra proveniência ou autoria: essa arbitrariedade é a mesma que Timpanaro diagnostica nas interpretações de Freud para os atos falhos).