1) François Hartog escreve (Memória de Ulisses) que Plutarco cristalizou em uma "imagem forte" o surgimento da "questão romana" para os gregos: "no encontro entre Pirro, o soberano grego, e as legiões de Roma" (a referência é à Vida de Pirro, quando este, diante das legiões romanas, diz algo como "a formação do exército desses bárbaros não tem nada de bárbaro"). "Montaigne, como leitor atento e inventivo de Plutarco", continua Hartog, "retomou a imagem, mas transferiu a cena para o Novo Mundo, a fim de pensar o selvagem - começando por demonstrar a força dos preconceitos".
2) "A resposta de Plutarco é dupla", escreve ainda Hartog, "uma inegável defesa da identidade grega e uma prática sistemática do paralelo. (...) O próprio paralelo, tal qual operado nas Vidas paralelas, age num outro registro: o do exemplum e do melhoramento de si. Está-se entre o público e o privado - para uma apropriação privada dos grandes homens públicos do passado". Plutarco colocaria "do mesmo lado e no mesmo plano os gregos dos tempos passados e os homens que fizeram a grandeza de Roma", "por igual homens e cidadãos, que oferecem aos homens de hoje, todos cidadãos do mesmo Império, modelos de conduta que se devem imitar e grandes lembranças (greco-romanas) que se devem partilhar" (p. 252).
3) Não concordo com a ideia que o Império do presente (a Roma do início do século II, quando Plutarco escrevi) funciona como uma força homogeneizadora do passado; o cuidado de Plutarco com suas fontes e referências e o apego que tem aos detalhes (Licurgo e seu sobrinho; as bolotas de carvalho na época de Coriolano; Teseu e as moedas com a efígie de um boi) atestam mais uma heterogeneidade de posturas, ações e temperamentos do que uma homogeneidade diante (e decorrente) do poder político.

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