sábado, 7 de fevereiro de 2026

O remédio



1) A velha questão dos limites do conhecimento em Platão/Sócrates: quem pode ter acesso? Quais os passos, os níveis de descortinamento do segredo? No Cármides, Platão apresenta um "medicamento", um pharmakon, que Sócrates poderia dar ao jovem Cármides para curar sua dor de cabeça - mas Sócrates diz que não, que não servirá de nada, uma vez que Cármides ainda não tinha passado pelas etapas prévias que garantiriam acesso ao efeito do pharmakon (é preciso primeiro expor sua alma ao encantamento, diz Sócrates) (outro aspecto interessante: Sócrates diz que o "medicamento" é "importado da Trácia", o que permite retomar por outro viés a leitura que faz Blumenberg da "mulher trácia").

2) Sócrates afirma ter um pharmakon para a enfermidade de Cármides, mas que só funciona em ação conjunta com um "encantamento" - ambos, remédio e encantamento, recebidos de um sacerdote trácio por Sócrates, a quem jurou que jamais faria a aplicação de um sem o outro. Está em operação aqui precisamente aquela ambivalência do pharmakon de que fala Derrida: Sócrates não quer quebrar o juramento que fez ao seu "mestre trácio" (são as palavras de Thomas Szlezák, Ler Platão, p. 107), não quer administrar o remédio sem o devido e prévio ritual de iniciação, de preparação, de aprendizado.

3) No caso do Fedro, o diálogo de Platão que Derrida privilegia em sua análise do pharmakon, o pharmakon é o texto de Lísias que Fedro mantém escondido sob seu manto (e que é solicitado, mobilizado e, em certo sentido, recusado por Sócrates); no caso do Cármides, o pharmakon é mobilizado pelo próprio Sócrates, está em seu poder e diz respeito à sua fala, sua doutrina, sua performance; existe, nos dois diálogos, um movimento dúplice de atração e repulsa com relação ao pharmakon, e também nos dois diálogos o pharmakon está ligado ao ensinamento e àquilo que, no ensinamento, se prende à ambivalência que articula fala e escrita.

Nenhum comentário:

Postar um comentário