2) A reforma carolíngia, na argumentação de Auerbach, surge como um legítimo phármakon platônico-derridiano: busca resgatar (e ensinar) o latim clássico para organizar a sociedade, mas, com isso, interrompe o contato que, até certo ponto, existia entre a língua popular e o latim - a discussão prévia de Auerbach lida com três autores envolvidos nesse contato, Cesário de Arles, Gregório Magno e Gregório de Tours (Auerbach enfatiza como o primeiro Gregório - de família tradicional, eleito Papa em 590 - reconhece a importância da escrita "simples", para chegar ao povo, e como o segundo Gregório, não tão erudito, pede desculpas por seu latim incorreto inúmeras vezes em seus escritos).
3) Para Auerbach, esse "latim escolástico" fruto da reforma é um "véu" que oculta as "personalidades" daqueles que escrevem nesse período. Essa linguagem padronizada e artificial não fornece uma "imagem sintética" do período e também não permite acesso aos indivíduos que escreveram e que nela são representados; são "figuras indistintas", que "dificilmente despertam nossa simpatia ou compreensão". Quando compreendemos o passado, continua Auerbach, compreendemos a personalidade humana e, por meio dela, "tudo o mais". E nesse ponto, decisivo, Auerbach mais uma vez recorre a Vico e à Ciência Nova: compreender a existência humana é redescobri-la em nossa própria experiência potencial (dentro le modificazioni della medesima nostra mente umana).

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