1) No terceiro capítulo de seu livro Literatursprache und Publikum in der lateinischen Spätantike und im Mittelalter (Linguagem literária e público na Antiguidade tardia latina e na Idade Média), intitulado "Camila, ou o renascimento do sublime" ("Camilla oder über die Wiedergeburt des Erhabenen"), Erich Auerbach alcança as canções de gesta e os romances de cavalaria dos séculos XI e XII para falar do amor e dos amantes. Auerbach menciona rapidamente uma passagem de Antígona, de Sófocles (v. 781), para atestar que Eros era, sim, um deus poderoso, mas em seguida acrescenta que na literatura antiga as "vicissitudes" dos amantes tinham pouco peso (por isso recebiam um tratamento estilístico "médio").
2) Na literatura antiga, escreve Auerbach, o amor não era tema merecedor do estilo sublime; além disso, uma relação amorosa só podia representar o trágico se servisse como elo de um encadeamento no destino de um personagem (como nos casos de Medeia ou Dido, exemplifica Auerbach). O amor como tema na tragédia foi introduzido por Eurípides, continua Auerbach, apontando que, na épica, aparece pela primeira vez no terceiro livro das Argonáuticas, de Apolônio de Rodes; por meio de Virgílio e Ovídio, esse modelo exerceu uma "enorme influência" (p. 218-219 da edição em inglês do livro de Auerbach).
3) O amor que surge nas Argonáuticas, contudo, é registrado no estilo médio, escreve Auerbach: cenas jocosas entre deuses, Eros como uma criança caprichosa. Na minha visão, continua Auerbach, o estilo posterior de Virgílio (no canto IV da Eneida, que fala da relação entre Eneias e Dido) é elevado, embora isso não tenha sido "reconhecido" pelos críticos da antiguidade - e nesse ponto Auerbach cita um trecho do comentário de Sérvio (gramático romano do século IV d.C.), que diz que Virgílio usou um estilo próprio à comédia, o que não é surpreendente em uma passagem que lida com o amor.

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