terça-feira, 28 de julho de 2026

Poeta demais



1) Na reconstrução do contexto literário dos dois primeiros séculos da Era Comum (no quarto capítulo de Linguagem literária e público na Antiguidade tardia latina e na Idade Média, intitulado "O público ocidental e sua linguagem") Auerbach reúne uma série de cenas e exemplos: o sistema de cópia e venda dos manuscritos, o sistema de divulgação oral das obras (reuniões privadas nas casas de notáveis e, a partir de Adriano, espaços públicos construídos especialmente para isso), sistema esse que era privilegiado, na medida em que a literatura era vista como atividade "secundária", a ser cultivada entre conhecidos nos momentos de lazer (um contexto, portanto, no qual era historicamente inacessível a própria ideia de "direitos de autor" - a partir da primeira cópia feita do manuscrito, infinitas outras poderiam ser feitas).

2) Apesar da ausência de liberdade política, a sociedade romana, durante os dois primeiros séculos do Império, era rica, vibrante e diversificada em suas correntes. Só no século III se instalou a esclerose que, gradualmente, levou à sua decadência. Essa sociedade logo se expandiu de Roma para outras cidades da Itália e para as províncias (especialmente a Gália), mas Roma sempre foi o centro. Para os escritores que não possuíam grandes fortunas, a vida em Roma não era simples ou confortável: todos sofriam com as humilhações decorrentes do sistema de clientelismo. Contudo, todas essas dificuldades eram compensadas pelo "calor humano", pela "atmosfera estimulante" e pela "rica vida intelectual" da capital. (p. 245)

3) Nessa reconstrução, o principal personagem mobilizado por Auerbach é Marcial (40-104) e seus epigramas: em um deles (VI, 82), aparece um sujeito que, depois de olhar o poeta por longo tempo, exclama: "Você é o famoso Marcial? Mas por que usa um manto tão feio?"; em outro (III, 44), Marcial faz troça do poeta ansioso e empolgado que está sempre querendo declamar seus versos a todos que encontra pelo caminho, "currenti legis et legis cacanti", ou seja, "você lê quando estou correndo, lê quando estou cagando" (no começo, ele escreve: "Queres saber por que ninguém vai ao teu encontro - por que, aonde quer que vás, há fuga e uma vasta solidão ao teu redor, Ligurino? És poeta demais").

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