sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O fantasma de Stendhal

                      Napoleão por Antoine-Jean Gros. Retratado aos vinte e sete anos, o período no qual se passa A cartuxa de Parma, de Stendhal.
1) O que há de único em Stendhal? O que há de perturbador em Stendhal? Não sofre com o tempo: tem sido lido e reverenciado por artistas de alta envergadura, que encontram em seus livros enigmas que escapam da história cronológica padrão. Elias Canetti cita Stendhal com frequência - e há um capítulo de Massa e poder dedicado ao escritor francês. Stendhal era também uma das maiores obsessões de Leonardo Sciascia - colecionava edições, relia os romances de Stendhal ao menos uma vez ao ano, tomava notas, elaborava projetos para livros sobre Stendhal, etc. Depois da morte de Sciascia, sua mulher reuniu esse material em um livro póstumo: O adorável Stendhal
2) Roberto Bolaño, assim como Sciascia, separou uma parte de sua biblioteca especialmente para Stendhal - cujos livros ele não emprestava a ninguém. Mas a marca mais profunda está num dos versos de seu longo poema "Um passeio pela literatura", incluído no livro Tres - Bolaño sonha com o fantasma de Stendhal: Soñé que leía a Stendhal en la Estación Nuclear de Civitavecchia [cidade italiana na qual Stendhal foi cônsul francês]: una sombra se deslizaba por la cerámica de los reactores. Es el fantasma de Stendhal decía un joven con botas y desnudo de cintura para arriba. 
3) Stendhal é brilhante especialmente na costura de seus romances, no dinamismo que utiliza para a construção de suas tramas - sua capacidade de montar pequenos relatos independentes dentro da narrativa. Um exemplo, nas primeiras páginas d'A cartuxa de Parma:
Em maio de 1796, três dias depois da entrada dos franceses em Milão, um jovem pintor miniaturista, meio louco, chamado Gros [Antoine-Jean Gros, 1771-1835, pintor romântico, autor de vários retratos de Napoleão], célebre desde então, e que viera com o exército, ouvindo contar no grande Café Servi as façanhas do arquiduque, que para completar era enorme, pegou a lista dos sorvetes impressa numa folha de papel pardo ordinário. No verso da folha desenhou o gordo arquiduque; um soldado francês lhe dava um golpe de baioneta na barriga, e em vez de sangue dali saía uma quantidade incrível de trigo [o arquiduque estava roubando dos camponeses]. Essa coisa chamada de pilhéria ou caricatura não era conhecida nesse país de despotismo cauteloso. O desenho deixado por Gros em cima da mesa do Café Servi pareceu um milagre caído do céu; foi gravado durante a noite e no dia seguinte o venderam a vinte mil exemplares.
Stendhal, A cartuxa de Parma. Tradução de Rosa Freire d'Aguiar. Penguin-Companhia, 2012, p. 33.

6 comentários:

  1. Sebald o usou como personagem em Vertigem, e algo me diz que o próximo texto será sobre isso.

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  2. haha bem lembrado, Paulo... Não posso queimar todos os cartuchos em uma batalha, não é verdade?

    Você lembra daquela cena em "Matrix", na qual o protagonista visita o Oráculo e ela lhe diz, "Não se preocupe com o vaso", e, no momento em que ele pergunta "Qual vaso?" o vaso se quebra... Será que eu escreveria sobre Sebald se você não tivesse dito nada?

    Abraço e obrigado pelo comentário

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  3. Penso que escreveria, pois dei um tiro certeiro. Sebald tem 27 marcações em suas tags, e fez uma bela narrativa sobre Henri Beyle; é de se esperar. Por outro lado, este "bem lembrado" me deixa em dúvida, e sempre há a possibilidade de não acontecer, não é? (Mesmo porque a cena do Oráculo não teria tanta graça sem essa dúvida).

    Sobre Stendhal (só li O Vermelho e o Negro): realmente adorável. Vejo uma ligação entre Sorel e vários outros personagens megalomaníacos que transitam entre o ridículo, o grotesco e o grandioso, como o Quixote, o Herzog, o Ignatius de Toole, entre outros. Ah, e me lembro de alguma personagem de Proust que alegava ser ele, Stendhal, uma companhia não muito interessante em seus jantares. Será?

    Sobre Napoleão: você chegou a ler aquele romance sagaz e divertido, A Morte de Napoleão, de Simon Leys?

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    1. Sebald vai aparecer: isso é certo, ele sempre aparece. Sebald é incontornável - ele marcou todas as posições do pensamento sobre a memória e a modernidade.

      Conheço esse livro do Leys, mas não li - você recomenda? Do Leys li "Os náufragos do Batávia", que é excelente.

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  4. Confesso que li o outro post praticamente esperando o Sebald.

    Recomendo esse livro sim. Nada que mude a vida de alguém, mas é bem escrito e muito divertido. Curiosamente, o comprei sem conhecer, por fetiche, porque gostei do que li dessa coleção de livrinhos da Companhia das Letras, e vejo que há um ensaio dele na última Serrote.

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