1) Outra constante da obra de Leonardo Sciascia - que o livrinho Una storia semplice reitera - é sua insistência no atravessamento entre realidade e literatura: por vezes, a literatura serve para preparar o espírito para aquilo que é encontrado na realidade; por vezes, aquilo que surge na realidade (um roubo, um assassinato, uma traição) é material de comprovação daquilo que foi anunciado, insinuado na literatura - o "caso Moro", por exemplo, é emoldurado por Sciascia com referências a Tolstói (Guerra e paz) e Borges (no começo, "Pierre Menard"; no final, "Exame da Obra de Herbert Quain").
2) Voltando a Una storia semplice: um homem é assassinado logo depois de ligar para a polícia, afirmando no telefonema que "havia encontrado"; não sabemos o que encontrou, provavelmente tenha sido o quadro roubado; ele é assassinado e o assassino monta a cena de um suicídio. Já de início, surge a literatura atacando a realidade: o homem volta à casa da família, no interior, à casa abandonada, para procurar em seu sótão cartas de Pirandello e de Garibaldi. O nome do morto é Giorgio Roccella, e um amigo diz à polícia que in una cassapanca che doveva ancora esserci nel solaio del villino c'erano dei pacchetti di vecchie lettere: uno di Garibaldi al suo bisnonno, un altro di Pirandello a suo nonno (avevano fatto assieme il liceo).
3) Luigi Pirandello, nascido em 1867, teria sido colega de escola do avô de Giorgio Roccella, o homem assassinado; uma dimensão de familiaridade que Pirandello explora em sua obra e que Sciascia reitera em sua: a cidade pequena fechada, na qual todos se conhecem; os casamentos, os sobrenomes, os apelidos, as anedotas; quando resgata provérbios e expressões sicilianas de sua infância (em pelo menos dois livros, Kermesse e Occhio di capra), Sciascia com frequência usa trechos de obras de Pirandello como exemplos de uso e manutenção dessas variações.

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