segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Eu, ele


1) O filme mais recente de Lukas Dhont, Coward, de 2026, se passa durante a Primeira Guerra Mundial; logo no começo, o cotidiano da frente de batalha surge de forma direta: um contingente de soldados deve ir ao campo de batalha, após a batalha, para recolher os corpos de seus companheiros - se trata, portanto, de iguais recolhendo cadáveres de iguais, uma atividade que é, ao mesmo tempo, mecânica e excruciante, já que são corpos conhecidos ou potencialmente conhecíveis, colocando em funcionamento um mecanismo mental incontornável de reconhecimento (se hoje é ele, amanhã poderá ser eu).

2) O "eu", de certa forma, entra em curto-circuito, muito por conta desse processo de identificação (e de imediata recusa da identificação) com os cadáveres dos companheiros - algo que se repete, em uma insistência; alguns deles passam mal, vomitam, e, enquanto isso acontece, outros ao redor repetem com veemência palavras de ordem e de estímulo (pare com isso!; volte imediatamente à des-identificação que nosso uniforme permite!). Duas respostas contemporâneas: de um lado, as memórias de Ernst Jünger, quase raivosas em sua insistência na singularidade de seu narrador, de sua experiência (eu!, eu!); de outro, a reflexão de Walter Benjamin sobre o esvaziamento psíquico decorrente da experiência das trincheiras.

3) Outro contemporâneo, Erich Auerbach (ferido seriamente na perna quando serviu na Primeira Guerra Mundial), fala de "realismo criatural" em Mimesis, uma estratégia da arte para dar conta dos limites do corpo - seus extremos e extremidades -, desde o corpo perfurado de Jesus, passando por Boccaccio, Rabelais, Montaigne; as cenas de Lukas Dhont promovem uma espécie de declinação específica do realismo criatural, aquele que se passa não diretamente na guerra (que seria o óbvio, o evidente), mas nos interstícios do conflito, nas brechas, daí a possibilidade de identificação do soldado vivo com o soldado morto, cujo cadáver ele remove do campo de batalha, leva ao caminhão e, do caminhão, para uma vala coletiva. 

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