"Eu estou viva. Meu marido, Paul Auster, está morto. Ele morreu no dia 30 de abril de 2024 às 18h58, aqui, na casa do Brooklyn onde agora escrevo estas palavras. Ele foi diagnosticado com câncer de pulmão de células não pequenas em janeiro de 2023. Mas antes, em novembro de 2022, Paul tinha feito uma tomografia no pronto-socorro do hospital Mount Sinai West. O radiologista viu uma massa em seu pulmão direito e comentou que podia ser câncer." (p. 7)
"No início da nossa relação, Paul citou um trecho de Beckett que com o tempo virou um símbolo cômico compartilhado. É de A última gravação de Krapp. O velho Krapp, que tem exatamente a mesma idade que eu tenho agora, sessenta e nove, escuta uma gravação dele mesmo aos trinta e nove anos, falando com uma voz descrita como 'pomposa' na nota de palco. A peça fala do tempo - a versão velha do homem encontra a versão jovem - e de solidão, arrependimento e memórias de felicidade erótica. As palavras aparecem perto do final da peça de um ato. O velho Krapp fala: 'Dezessete cópias vendidas, das quais onze foram a preço de custo para bibliotecas públicas em outros continentes. Divulgação (Pausa)'." (p. 260)
"Há mais ou menos vinte anos, época em que Paul e eu lemos a biografia de Wittgenstein escrita por Ray Monk, muito depois da publicação, nós chegamos em casa depois de jantar fora, e quando fomos para o quarto, ao invés de dormir, passamos horas conversando na cama. Talvez tenhamos começado fofocando sobre aquela noite, sobre as pessoas de que já nem me lembro, mas um assunto foi levando a outro, e de repente nos vimos numa discussão acalorada sobre Wittgenstein. Vi de relance o relógio: três da manhã." (p. 280)
(Siri Hustvedt, Histórias de fantasma - memórias, trad. Ana Guadalupe, Cia das Letras, 2026)

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