1) Em sua Viagem à Itália, no dia 28 de setembro de 1786, Goethe, já em Veneza, relembra como chegou ali, saindo de Pádua. Ele viaja de barco, na companhia de pessoas bem-educadas, são suas palavras; a descida do rio passa por eclusas, de modo que pequenas paradas são frequentes, ocasiões para breves passeios na margem, provando da abundância de frutas oferecidas, nas palavras de Goethe. Dentro do barco, no entanto, duas presenças se destacam: dois peregrinos, "os primeiros que vi de perto", ele escreve.
2) Com os peregrinos, a sobrevivência de outros tempos, gestos, hábitos; eles tem direito de viajar de graça no barco, mas são evitados pelos passageiros e, por isso, ficam no fundo, junto do timoneiro. É uma visão rara nos dias de hoje, escreve Goethe, e muitos desconfiam dos peregrinos, "em razão de no passado muitos vigaristas se terem servido desse disfarce" - e aqui alcançamos o nervo exposto de uma sobrevivência medieval: o Decameron de Boccaccio, por exemplo, está cheio de peregrinos falsos, de homens que vestem hábitos para enganar, como Tedaldo degli Elisei (Jornada 3, Novela 7), que se veste de peregrino para poder retornar a Florença sem ser reconhecido.
3) Mas Goethe se surpreende ainda mais ao descobrir que os dois peregrinos são alemães; vai conversar com eles e em pouco tempo passa a agir como intérprete (o timoneiro fica particularmente emocionado com a devoção dos peregrinos). Ambos tinham mais de cinquenta anos e falavam apenas o alemão; estavam em peregrinação para Roma; um deles tinha a intenção de seguir até Santiago de Compostela. "Eram tratados sempre como vagabundos", reclamam os peregrinos, escreve Goethe, mesmo mostrando os "passes episcopais". Como despedida e agradecimento, pedem a Goethe que distribua aos passageiros "pequenos santinhos bentos", com a imagem dos três Reis Magos "ao lado de orações em latim".

Nenhum comentário:
Postar um comentário