1) Releio um pequeno livro de Leonardo Sciascia, Una storia semplice, agora atentando para uma coincidência muito sugestiva: o livro chega às livrarias na Itália em 20 de novembro de 1989, que foi precisamente o dia da morte de Sciascia; seu último livro publicado em vida apareceu ao público no dia de sua morte. A coincidência ganha mais peso quando se pensa na importância que dava Sciascia às datas, seu cuidado com a precisão cronológica: os destinos de Moro e Majorana são relatados com muita atenção às cronologias; o batismo de Diego La Matina, protagonista de Morte dell'inquisitore, é registrado com precisão - 15 de março de 1622, e assim por diante.
2) Sciascia, em nenhum momento do breve livro, declara que a pintura roubada em questão - esse é o ponto central da novela, o roubo de uma pintura, mantida no sótão de uma mansão abandonada em uma cidade no interior da Sicília - é um quadro de Caravaggio; mas qualquer busca sobre o livro leva a essa informação, ou seja, à informação que Sciascia se inspirou no roubo do quadro de Caravaggio (feito por volta de 1600), Natività con i santi Lorenzo e Francesco d'Assisi, roubado em Palermo (no Oratório de São Lourenço) na madrugada do dia 18 de outubro de 1969, e nunca recuperado. O roubo foi encomendado pela máfia siciliana: os ladrões recortaram as bordas usando um estilete, deixando a moldura vazia.
3) Como costuma acontecer na obra de Sciascia, não se trata tanto do objeto roubado em si, ou seja, desse efeito de superfície que, frequentemente, oblitera a reflexão crítica acerca dos fatos; Sciascia está interessado na trama subterrânea que permite que o roubo aconteça e não seja resolvido - ou seja, o encadeamento de corrupções, desleixos e incompetências que permitem a manutenção de uma tal situação - um comissário de polícia está envolvido, por exemplo, bem como um padre (que, na última página, descobrimos que pode ser o chefão - um padre, além disso, que se disfarça de "padre à moda antiga", como ele próprio diz, ou seja, um padre que ainda usa batina e, com isso, melhor se esconde - no espírito da "carta roubada" de Edgar Allan Poe ou as "tantas máscaras, poucos rostos" de Pirandello, duas referências que acompanham Sciascia ao longo de toda a sua vida).

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