quarta-feira, 20 de maio de 2026

Jeanne Duval




1) Ainda na caderneta de Proust citada por Compagnon em Toda a vida para trás (p. 203): ao revisitar Baudelaire em seus últimos meses de vida, Proust escreve que, em sua "cama de sofrimentos", "a negra que fora sua única paixão não o deixava em paz com seus pedidos de dinheiro" (infelizmente não tenho acesso original para saber as palavras originais, em francês, de Proust). "Perseguido por Jeanne Duval", comenta Compagnon logo depois da citação, "o poeta é expulso, por causa das injúrias que profere, pelas religiosas da enfermaria de Bruxelas onde ele havia encontrado refúgio".

2) A "negra", "única paixão" de Baudelaire, que o "persegue" com "pedidos de dinheiro", Jeanne Duval: apesar das datas de nascimento e morte serem conhecidas (18 de novembro de 1818; 20 de dezembro de 1868, exatos 50 anos), poucas são as certezas com relação a Jeanne, especialmente sobre suas origens - o sobrenome é uma possibilidade entre outras (ela usou "Lemer" e "Prosper", além de Duval, para escapar de agiotas), bem como o país de origem (a hipótese mais utilizada é que tenha vindo do Haiti, mas existem elementos que a ligam à Ilha da Reunião, Madagascar, África do Sul, etc).

3) Baudelaire a chama de la Vénus noire, inspiração de muitos dos poemas de As flores do mal; Baudelaire escreve um cycle de Jeanne, poemas que falam de sua beleza, de seus cabelos, da paixão tumultuada que inspira, da intensidade que essa atriz e dançarina levava para todos os gestos, movimentos e palavras; ano passado, duas fotografias perdidas/desconhecidas de Jeanne Duval foram encontradas (uma investigação da rarefação fotográfica que é o exato oposto do excesso que Nathalie Léger explora em seu livro sobre a condessa de Castiglione), na Biblioteca Nacional da França, pela pesquisadora Maria Scott - a foto está incorporada a uma carte de visite e leva o carimbo do estúdio do célebre fotógrafo Félix Nadar.

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