terça-feira, 13 de setembro de 2011

Os dentes, 1


1) Liova, um dos protagonistas de A casa de Puchkin, de Andrei Bitov, encontra pela primeira vez seu Tio Dickens [cujo nome verdadeiro é Dmitri, Tio Dmitri, Tio Mítia]: Bitov escreve que Liova se apaixonou imediatamente por aquela presença estranha, que lutou todas as guerras possíveis e, nos intervalos, estava preso. Tio Dickens [que ganhou esse apelido unicamente por gostar muito desse romancista, escreve Bitov], aos olhos de Liova, era fora do comum de tão magro e moreno, com um rosto enigmático e ao mesmo tempo tão convidativo, e sua boca formava um raro desenho sanfonado de ar satírico [esse ar satírico será fundamental para conferir legitimidade às histórias que Tio Dickens contará futuramente a Liova]. O narrador explica que a impressão de Liova decorre do fato de que Tio Dickens ainda não conseguira pôr dentadura.
2) Há uma cena em Às avessas, de Huysmans, na qual o protagonista, o duque Jean des Esseintes, é acometido, no meio da noite, de uma abominável dor de dentes. O homem dava palmadas no próprio rosto, chocava-se contra os móveis, corria pelo quarto feito louco, tudo por causa da dor. Assim que amanheceu [soaram finalmente as sete horas], des Esseintes foi atrás de um dentista que pudesse lhe resolver o problema o mais rápido possível [tratava-se de um molar já obturado, só o boticão dos dentistas poderia remediar o mal]. Agarrado aos braços da poltrona, sentindo uma dor inaudita, ele começa a bater os pés e a berrar feito um bicho sendo assassinado. De repente, um estalo: o molar se partia na ponta do alicate. Depois de uma luta infinita, o dentista se afasta - resfolevaga brandindo na ponta do seu boticão um dente azul de onde pendia um fio vermelho. Azul!
3) O protagonista de Huysmans, aliás, lembra muito o Flaubert de Julian Barnes: isolado, excêntrico, cheio de curiosidade sexual, meticuloso em seu espaço de trabalho, capaz de verticalizar de forma assombrosa seu interesse em algum assunto [geralmente menor, de pouca utilidade para as "massas"], insistente em sua campanha contra a estupidez generalizada do mundo, colecionador de prazeres "baixos" com figuras frequentemente doentes e/ou infectas, etc. Como muitos de seus contemporâneos, ambos demonstravam um grande interesse pela sífilis [des Esseintes chega a ter um pesadelo com a Grande Sífilis, uma espécie de Nossa Senhora dos Sifilíticos].

sábado, 10 de setembro de 2011

Os dentes

1) Um assunto delicado, o assunto dos dentes. A grande agonia que pode causar um pequeno desarranjo, uma pequena fissura, ainda que seja no menor dos dentes. Julian Barnes, ao reconstruir a cronologia da vida de Flaubert [em seu livro Flaubert's parrot], anota no ano de 1850: com o passar dos anos, ele perderá todos os dentes, menos um; sua saliva será permanentemente negra, devido ao tratamento à base de mercúrio. Nada que fugisse da condição habitual do período.
2) Os dentes podem ranger, de raiva, de desgosto. Os dentes podem bater uns nos outros, de pavor ou de frio. Dostoiévski colocou Raskolnikov para ranger dentes muitas vezes ao longo de Crime e castigo, e Coetzee, em sua reconstrução ficcional da vida de Dostoiévski [O mestre de Petersburgo], escolhe uma imagem particularmente pungente para mostrar o desamparo e a solidão do escritor russo: Dostoiévski preparando-se para dormir, depositando sua dentadura num copo com água, ao lado da cama.
3) Franz Biberkopf, o protagonista de Berlin Alexanderplatz, encontra, ao longo de sua jornada pela cidade, algumas figuras que compartilham um gesto: levar a língua a um buraco na gengiva, a um dente cariado ou a uma obturação que permanece dolorida. Franz não tem como saber disso, mas o narrador faz questão de informar o leitor, abrindo o desconforto de todas essas bocas anônimas que logo somem. Alfred Döblin, médico que era, tem particular apreço por esses instantâneos de agonia corporal, esses relâmpagos de sofrimento que crispam o interior das pessoas e que elas guardam para si, como amuletos.
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Borges escreve, em 1961: "Para não enfrentar o alicate do dentista, Macedonio Fernández costumava praticar o tenaz artifício de afrouxar continuamente os dentes; essa manipulação se dava atrás da mão esquerda, que servia de tela, enquanto a direita insistia. Não sei se o êxito coroou esse labor de dias e anos" (Prólogos, com um prólogo de prólogos, tradução de Josely Vianna Baptista, Companhia das Letras, 2010, p. 75-76).

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Berlim, 8 de setembro

1) Foi num dia como hoje, 8 de setembro, que Alfred Döblin começou a publicar Berlin Alexanderplatz, sua versão do Ulysses de Joyce. Rigorosamente um dia como hoje, uma versão anterior do dia de hoje: 8 de setembro de 1929. Berlin Alexanderplatz é publicado como folhetim no Frankfurter Zeitung, o histórico jornal que, além de Döblin, abrigou os textos de Walter Benjamin, Siegfried Kracauer, Adorno, Sándor Márai, Joseph Roth, entre outros. Não é fantasia, então, imaginar que talvez todos esses homens tenham lido Berlin Alexanderplatz no calor da hora, acompanhando de 8 de setembro até 11 de outubro o desenvolvimento da história caótica de Döblin.
2) Que espécie de sortilégio do tempo faz alguém ler Berlin Alexanderplatz exatamente no dia em que tudo começou, 82 anos depois? Borges um dia disse: a eternidade é todos os nossos ontens, todos os ontens de todos os seres conscientes, todo o passado, que não se sabe quando começou; e também todo o presente, o tempo presente que abarca todas as cidades, todos os mundos, o espaço entre os planetas; e também o futuro, ainda não criado, mas que também existe. Dentre todos os dias possíveis, alguém pode pegar Berlin Alexanderplatz para ler justamente num 8 de setembro, tentando imaginar a sensação do contato com o papel do jornal, em 1929, talvez diante da própria Berlin Alexanderplatz, granito e ferro batido.
3) Veja a foto: foi tirada em Berlim, no ano de 1929, por Willy Pragher. O que a mulher está lendo? O Frankfurter Zeitung deve estar por ali, em algum lugar. A mulher faz pose para o fotógrafo. Não está agasalhada, mas usa mangas longas. Talvez seja setembro. O metrô em Berlim é recente: começou a ser construído no ano anterior. Em 1929, Joseph Roth publica Rechts und Links [Direita e Esquerda], um romance sobre a entrada de um homem traumatizado no submundo alemão, uma frase que poderia definir também o romance de Döblin. Em 1929, Walter Benjamin prepara seu divórcio, Gramsci é preso, Adorno começa a escrever sua tese sobre Kierkegaard e Habermas está nascendo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

José

Na sua autobiografia, Elias Canetti, o autor de Auto de fé, conta como no restaurante Aschinger de Berlim ele se encontrava com Isaac Bábel para discutir a Neue Sachlichkeit, a nova objetividade. Porém o mais curioso era que eles estavam menos interessados em comer e beber do que em imaginar quem eram as pessoas em torno. Tentavam entender e descobrir os mistérios dessas pessoas - todos abrigam segredos e mistérios em sua mente. Bábel ensinou Canetti a olhar insaciavelmente as pessoas, a entendê-las sem julgar e condenar. Bábel dizia que se tratava da Neue Sachlichkeit, a nova sensibilidade. (Em algum lugar José já escreveu sobre isso, mas não lembra quando e onde).
Esse recurso criativo foi muito bem usado por Amos Oz, no seu livro Rimas da vida e da morte, em que o narrador, enquanto aguarda uma reunião que se prenuncia tediosa, começa a imaginar em detalhes a vida, os destinos das pessoas à sua volta, a quem atribui nomes, relacionamentos, vicissitudes, alegrias, amores e dissabores. E essas pessoas imaginárias tornam-se os personagens principais do livro. Teria Amos Oz se inspirado nos relatos autobiográficos de Canetti? A melhor inspiração do escritor é sempre encontrada nos livros.

Rubem Fonseca. José. Nova Fronteira, 2011, p. 49-50.
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1) Em primeiro lugar, essa insistência tão produtiva de Rubem Fonseca com Isaac Bábel: mesmo depois do excelente Vastas emoções e pensamentos imperfeitos - um romance que é uma glosa da vida de Bábel -, muitos anos depois do romance ainda aparecem notas esparsas, indícios de que esse fantasma ainda não foi embora, de que ainda há em Bábel um procedimento produtivo de observação literária do mundo.
2) É curiosa a aproximação com Amós Oz: faltou o nexo que liga o livro recente de Oz ao cenário do encontro de Bábel e Canetti, faltou uma indicação de que Oz tenha de fato lido Canetti. O tema da ficcionalização do mundo através do olhar do escritor é, de resto, abundante: Vila-Matas afirma, em París no se acaba nunca, que essa era sua principal atividade em seus anos de Paris. Como não era ainda um escritor de fato, sentava nos cafés [vestido de preto, como Beckett] e observava o movimento das ruas, exatamente como aprendeu naquele livro de Perec, Tentative d'épuisement d'un lieu parisien.
3) Mesmo que um pouco sufocado pela quantidade de obras que publicou, Umberto Eco deixou pelo menos uma obra irrepreensível em sua concisão e criatividade: Seis passeios pelos bosques da ficção. Ele reserva algumas palavras para esse livro de Perec [Tentativa de esgotar um local parisiense], escrito a partir da observação de "tudo o que havia acontecido" na place Saint-Sulpice entre 18 e 20 de outubro de 1974 [justamente a época em que Vila-Matas viveu em Paris]. Eco afirma que Perec buscava "a totalidade da vida cotidiana" em sua impossibilidade irredutível, mostrando o caráter alucinatório de nossa vivência com o tempo.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Barthes e as imagens

1) Não é curioso que Barthes tenha começado e terminado seu percurso intelectual com as imagens? Mitologias, livro do início, da década de 1950, é dedicado às imagens da comunicação de massa, imagens do fútil e do banal, feitas para penetrar o mais facilmente no olhar, sendo substituídas logo em seguida. A câmara clara, o último livro projetado e pensado por Barthes como tal, investiga imagens artísticas: belíssimas fotografias que Barthes foi arquivando com os anos, índices que ele coletou para marcar seu próprio percurso.
2) Talvez seja esse o caminho "natural" do percurso intelectual: Barthes começa por um inventário de imagens que podem ser compartilhadas por um grande número de pessoas, para que, dessa forma, suas reflexões possam ir mais longe, parecendo mais pertinentes, mais historicamente relevantes. Décadas depois, conhecido e estabelecido, chega o momento de simplesmente partir do desejo e teorizar em cima dos artefatos artísticos que sensibilizam ao homem Roland Barthes, sem qualquer preocupação com algum efeito de legitimidade externa.
3) Anos atrás, vi Fredric Jameson dar uma palestra na USP. Me surpreendeu justamente o alto teoria de pessoalidade em sua fala: Jameson resolveu comentar, de forma detida e pormenorizada, trechos de Balzac. Fez longas citações em francês, fruindo a prosa de Balzac como se estivesse sozinho, em casa. Nada de capitalismo tardio ou estruturas adornianas de iluminação hermenêutica. Acho que só agora começo a entender o que estava em jogo naquela escolha, naquela aposta deliberada em uma crítica pautada pelo gosto e pelo desejo pessoal.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Notas sobre a teoria literária


1) A teoria é uma escola de ironia, escreveu Antoine Compagnon. A teoria frequentemente sente repulsa pela ingenuidade, quando lê o Quijote em chave paródica, por exemplo, enfatizando a função de aprendizagem da literatura (que levaria à delirante colocação em prática dos romances de cavalaria por parte de Alonso Quijano). É também a leitura de Madame Bovary como uma mulher intoxicada por certa literatura. Além de buscar uma alternativa ao senso comum, a teoria literária teria a preocupação de separar a linguagem literária da linguagem cotidiana, singularizando o uso literário em relação à linguagem comum (esse é o lado formalista mais visível da teoria).
2) Uma das coisas mais importantes e interessantes em teoria literária é o imperativo da escolha: a teoria literária é uma lição de relativismo, não de pluralismo. Ou seja, várias respostas são possíveis, algumas até aceitáveis, mas nunca de forma simultânea. Ao invés de se somarem numa visão total e mais completa, as respostas se excluem mutuamente, porque não chamam de literatura ou qualificam como literária a mesma coisa. Não é possível tudo ao mesmo tempo. O procedimento teórico te leva, necessariamente, a uma escolha.
3) Alguns autores declaram ver uma diferença considerável entre Teoria da Literatura e Teoria Literária: a primeira estaria posicionada como um ramo da História, fundada em esquemas e estruturas que designam pertencimentos; a segunda estaria preocupada com o aspecto contingente da Teoria, com o posicionamento possível de uma Teoria dentro do tempo e da história. Para Paul de Man, a Teoria Literária difere da Teoria da Literatura a partir do momento que discute não o sentido ou o valor do artefato artístico, mas as modalidades de produção de sentido e valor (o procedimento teórico que é manipulado no processo).

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Terceira geração

1) Aleksandar Hemon já escreveu em algum lugar que o primeiro livro que leu inteiro em inglês foi um livro de Nabokov [Lolita? Ada?, não lembro]. Adoraria saber russo para tentar descobrir de onde Gógol tirou sua predileção maníaca pelas descrições becos-sem-saída - aquelas voltas narrativas, aquelas super aproximações vertiginosas do narrador, que terminam em nada. Nabokov, na concisa biografia de Gógol que escreveu, exalta essa particularidade como o ápice do gênio de Gógol [já escrevi um pouco sobre esse procedimento]. E qualquer página de Nabokov atesta que esse foi um exercício que ele tomou para si durante toda vida.
2) De modo que é muito bonito ver um procedimento literário tão rico chegar à terceira geração - um procedimento muito instável, que em mãos toscas facilmente escorrega para o gratuito ou para o enfadonho [ou até para o pretencioso].
3) Os livros de Hemon estão cheios desses estrangeiros perdidos observando as cidades, seguindo velhas malucas dando asilo a centenas de gatos, imaginando onde elas vão parar depois que somem atrás de uma porta; seriam senhoras russas com formato de abóboras, tagarelando em consoantes suaves? Estariam abauladas pelo peso úmido de seus xales de desenhos barrocos? Não sei. Ninguém sabe.