segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Pizarnik, dois planos



1) Desde muito cedo, Alejandra Pizarnik pensa as relações entre palavra e imagem como uma tensão entre dois planos. Em 24 de junho de 1959, por exemplo, ela escreve em seu diário: "Eu deveria pintar. A literatura é tempo. A pintura é espaço. E eu odeio o tempo e gostaria de abolir o tempo. Mas nem a pintura. Eu me refiro ao poder de me expressar em uma arte que fosse como um uivo na escuridão, terrivelmente breve e intenso como a morte”. A tensão opera entre dois planos, mas Pizarnik está frequentemente interessada em um terceiro elemento que surge dessa intenção, algo como um ponto de fuga - que, no caso específico dessa entrada, é a morte, mas que em outros momentos poderia ser um poema, um desenho, uma colagem, uma pintura.

2) Pizarnik frequentou o ateliê do pintor surrealista Juan Batlle Planas de forma intermitente a partir de 1954-1955, o que coincide com seu ingresso na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, estudos formais que pouco mais tarde abandonou. O ateliê de Batlle Planas foi determinante para seu encontro com o surrealismo, um estilo que ela vai elaborar tanto na poesia quanto em sua obra pictórica. Nessa mesma época, a partir de 1954, Pizarnik articulou pintura e psicanálise, iniciando sua terapia com León Ostrov e publicando seus primeiros livros de poesia, La tierra más ajena em 1955 e La última inocencia em 1956.

3) Nessa mesma época, mais especificamente em 1955, Claude Lévi-Strauss está publicando Tristes trópicos (o primeiro volume da Antropologia estrutural sai em 1958); a década de 1950 também registra as primeiras publicações de Leonardo Sciascia: Favole della dittatura, em 1950, La Sicilia, il suo cuore, em 1952, Pirandello e il pirandellismo, em 1953, Le parrocchie di Regalpetra, em 1956; embora Italo Calvino tenha publicado seu primeiro romance em 1947, a década de 1950 também registra algumas de suas publicações mais importantes: O visconde partido ao meio, em 1952, O barão nas árvores, em 1957.

sábado, 31 de outubro de 2026

Nomes, mestres


"Toda a obra de Coetzee é povoada por artistas que duvidam de suas capacidades ou mesmo da permanência póstuma de seus trabalhos: é o que acontece com o Dostoiévski transformado em personagem em O mestre de Petersburgo; é também o caso de Elizabeth Costello, do livro homônimo, ranzinza e de opiniões fortes; é o caso de Daniel Defoe, no romance Foe, de 1986, retratado nos dias em que a história de Robinson Crusoé chega até ele, crua e incerta. 

Essa dimensão da incerteza é reforçada pelo uso que Coetzee faz dos nomes: o autor russo não é diretamente nomeado, ele é 'o mestre'; em Foe, joga com a ambiguidade do termo, que indica tanto o sobrenome quanto a palavra inglesa para 'inimigo'; na trilogia sobre Jesus, o protagonista é um menino chamado David e sua sobreposição à figura bíblica nunca é clara ou completa; mesmo o protagonista de Vida e época de Michael K é, simultaneamente, escondido e revelado por essa simples letra que serve de sobrenome"

Escrevi mais sobre Coetzee aqui.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

O colega de Pirandello



1) Outra constante da obra de Leonardo Sciascia - que o livrinho Una storia semplice reitera - é sua insistência no atravessamento entre realidade e literatura: por vezes, a literatura serve para preparar o espírito para aquilo que é encontrado na realidade; por vezes, aquilo que surge na realidade (um roubo, um assassinato, uma traição) é material de comprovação daquilo que foi anunciado, insinuado na literatura - o "caso Moro", por exemplo, é emoldurado por Sciascia com referências a Tolstói (Guerra e paz) e Borges (no começo, "Pierre Menard"; no final, "Exame da Obra de Herbert Quain").

2) Voltando a Una storia semplice: um homem é assassinado logo depois de ligar para a polícia, afirmando no telefonema que "havia encontrado"; não sabemos o que encontrou, provavelmente tenha sido o quadro roubado; ele é assassinado e o assassino monta a cena de um suicídio. Já de início, surge a literatura atacando a realidade: o homem volta à casa da família, no interior, à casa abandonada, para procurar em seu sótão cartas de Pirandello e de Garibaldi. O nome do morto é Giorgio Roccella, e um amigo diz à polícia que in una cassapanca che doveva ancora esserci nel solaio del villino c'erano dei pacchetti di vecchie lettere: uno di Garibaldi al suo bisnonno, un altro di Pirandello a suo nonno (avevano fatto assieme il liceo). 

3) Luigi Pirandello, nascido em 1867, teria sido colega de escola do avô de Giorgio Roccella, o homem assassinado; uma dimensão de familiaridade que Pirandello explora em sua obra e que Sciascia reitera em sua: a cidade pequena fechada, na qual todos se conhecem; os casamentos, os sobrenomes, os apelidos, as anedotas; quando resgata provérbios e expressões sicilianas de sua infância (em pelo menos dois livros, Kermesse e Occhio di capra), Sciascia com frequência usa trechos de obras de Pirandello como exemplos de uso e manutenção dessas variações. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

18 de outubro, 1969



1) Releio um pequeno livro de Leonardo Sciascia, Una storia semplice, agora atentando para uma coincidência muito sugestiva: o livro chega às livrarias na Itália em 20 de novembro de 1989, que foi precisamente o dia da morte de Sciascia; seu último livro publicado em vida apareceu ao público no dia de sua morte. A coincidência ganha mais peso quando se pensa na importância que dava Sciascia às datas, seu cuidado com a precisão cronológica: os destinos de Moro e Majorana são relatados com muita atenção às cronologias; o batismo de Diego La Matina, protagonista de Morte dell'inquisitore, é registrado com precisão - 15 de março de 1622, e assim por diante.

2) Sciascia, em nenhum momento do breve livro, declara que a pintura roubada em questão - esse é o ponto central da novela, o roubo de uma pintura, mantida no sótão de uma mansão abandonada em uma cidade no interior da Sicília - é um quadro de Caravaggio; mas qualquer busca sobre o livro leva a essa informação, ou seja, à informação que Sciascia se inspirou no roubo do quadro de Caravaggio (feito por volta de 1600), Natività con i santi Lorenzo e Francesco d'Assisi, roubado em Palermo (no Oratório de São Lourenço) na madrugada do dia 18 de outubro de 1969, e nunca recuperado. O roubo foi encomendado pela máfia siciliana: os ladrões recortaram as bordas usando um estilete, deixando a moldura vazia.

3) Como costuma acontecer na obra de Sciascia, não se trata tanto do objeto roubado em si, ou seja, desse efeito de superfície que, frequentemente, oblitera a reflexão crítica acerca dos fatos; Sciascia está interessado na trama subterrânea que permite que o roubo aconteça e não seja resolvido - ou seja, o encadeamento de corrupções, desleixos e incompetências que permitem a manutenção de uma tal situação - um comissário de polícia está envolvido, por exemplo, bem como um padre (que, na última página, descobrimos que pode ser o chefão - um padre, além disso, que se disfarça de "padre à moda antiga", como ele próprio diz, ou seja, um padre que ainda usa batina e, com isso, melhor se esconde - no espírito da "carta roubada" de Edgar Allan Poe ou as "tantas máscaras, poucos rostos" de Pirandello, duas referências que acompanham Sciascia ao longo de toda a sua vida).

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Dois peregrinos, 1786



1) Em sua Viagem à Itália, no dia 28 de setembro de 1786, Goethe, já em Veneza, relembra como chegou ali, saindo de Pádua. Ele viaja de barco, na companhia de pessoas bem-educadas, são suas palavras; a descida do rio passa por eclusas, de modo que pequenas paradas são frequentes, ocasiões para breves passeios na margem, provando da abundância de frutas oferecidas, nas palavras de Goethe. Dentro do barco, no entanto, duas presenças se destacam: dois peregrinos, "os primeiros que vi de perto", ele escreve.

2) Com os peregrinos, a sobrevivência de outros tempos, gestos, hábitos; eles tem direito de viajar de graça no barco, mas são evitados pelos passageiros e, por isso, ficam no fundo, junto do timoneiro. É uma visão rara nos dias de hoje, escreve Goethe, e muitos desconfiam dos peregrinos, "em razão de no passado muitos vigaristas se terem servido desse disfarce" - e aqui alcançamos o nervo exposto de uma sobrevivência medieval: o Decameron de Boccaccio, por exemplo, está cheio de peregrinos falsos, de homens que vestem hábitos para enganar, como Tedaldo degli Elisei (Jornada 3, Novela 7), que se veste de peregrino para poder retornar a Florença sem ser reconhecido.

3) Mas Goethe se surpreende ainda mais ao descobrir que os dois peregrinos são alemães; vai conversar com eles e em pouco tempo passa a agir como intérprete (o timoneiro fica particularmente emocionado com a devoção dos peregrinos). Ambos tinham mais de cinquenta anos e falavam apenas o alemão; estavam em peregrinação para Roma; um deles tinha a intenção de seguir até Santiago de Compostela. "Eram tratados sempre como vagabundos", reclamam os peregrinos, escreve Goethe, mesmo mostrando os "passes episcopais". Como despedida e agradecimento, pedem a Goethe que distribua aos passageiros "pequenos santinhos bentos", com a imagem dos três Reis Magos "ao lado de orações em latim".

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Eu, ele


1) O filme mais recente de Lukas Dhont, Coward, de 2026, se passa durante a Primeira Guerra Mundial; logo no começo, o cotidiano da frente de batalha surge de forma direta: um contingente de soldados deve ir ao campo de batalha, após a batalha, para recolher os corpos de seus companheiros - se trata, portanto, de iguais recolhendo cadáveres de iguais, uma atividade que é, ao mesmo tempo, mecânica e excruciante, já que são corpos conhecidos ou potencialmente conhecíveis, colocando em funcionamento um mecanismo mental incontornável de reconhecimento (se hoje é ele, amanhã poderá ser eu).

2) O "eu", de certa forma, entra em curto-circuito, muito por conta desse processo de identificação (e de imediata recusa da identificação) com os cadáveres dos companheiros - algo que se repete, em uma insistência; alguns deles passam mal, vomitam, e, enquanto isso acontece, outros ao redor repetem com veemência palavras de ordem e de estímulo (pare com isso!; volte imediatamente à des-identificação que nosso uniforme permite!). Duas respostas contemporâneas: de um lado, as memórias de Ernst Jünger, quase raivosas em sua insistência na singularidade de seu narrador, de sua experiência (eu!, eu!); de outro, a reflexão de Walter Benjamin sobre o esvaziamento psíquico decorrente da experiência das trincheiras.

3) Outro contemporâneo, Erich Auerbach (ferido seriamente na perna quando serviu na Primeira Guerra Mundial), fala de "realismo criatural" em Mimesis, uma estratégia da arte para dar conta dos limites do corpo - seus extremos e extremidades -, desde o corpo perfurado de Jesus, passando por Boccaccio, Rabelais, Montaigne; as cenas de Lukas Dhont promovem uma espécie de declinação específica do realismo criatural, aquele que se passa não diretamente na guerra (que seria o óbvio, o evidente), mas nos interstícios do conflito, nas brechas, daí a possibilidade de identificação do soldado vivo com o soldado morto, cujo cadáver ele remove do campo de batalha, leva ao caminhão e, do caminhão, para uma vala coletiva. 

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

30 de abril, 2024


"Eu estou viva. Meu marido, Paul Auster, está morto. Ele morreu no dia 30 de abril de 2024 às 18h58, aqui, na casa do Brooklyn onde agora escrevo estas palavras. Ele foi diagnosticado com câncer de pulmão de células não pequenas em janeiro de 2023. Mas antes, em novembro de 2022, Paul tinha feito uma tomografia no pronto-socorro do hospital Mount Sinai West. O radiologista viu uma massa em seu pulmão direito e comentou que podia ser câncer." (p. 7)

"No início da nossa relação, Paul citou um trecho de Beckett que com o tempo virou um símbolo cômico compartilhado. É de A última gravação de Krapp. O velho Krapp, que tem exatamente a mesma idade que eu tenho agora, sessenta e nove, escuta uma gravação dele mesmo aos trinta e nove anos, falando com uma voz descrita como 'pomposa' na nota de palco. A peça fala do tempo - a versão velha do homem encontra a versão jovem - e de solidão, arrependimento e memórias de felicidade erótica. As palavras aparecem perto do final da peça de um ato. O velho Krapp fala: 'Dezessete cópias vendidas, das quais onze foram a preço de custo para bibliotecas públicas em outros continentes. Divulgação (Pausa)'." (p. 260)

"Há mais ou menos vinte anos, época em que Paul e eu lemos a biografia de Wittgenstein escrita por Ray Monk, muito depois da publicação, nós chegamos em casa depois de jantar fora, e quando fomos para o quarto, ao invés de dormir, passamos horas conversando na cama. Talvez tenhamos começado fofocando sobre aquela noite, sobre as pessoas de que já nem me lembro, mas um assunto foi levando a outro, e de repente nos vimos numa discussão acalorada sobre Wittgenstein. Vi de relance o relógio: três da manhã." (p. 280)

(Siri Hustvedt, Histórias de fantasma - memórias, trad. Ana Guadalupe, Cia das Letras, 2026)

domingo, 4 de outubro de 2026

Urnas sepulcrais



1) Na introdução que escreve ao livro Tratados sobre muerte y naturaleza, de Thomas Browne, Pablo Maurette comenta que Browne foi "um leitor voraz" e um escritor que soube combinar "engenho, sabedoria e erudição": "cuando Walter Benjamin dijo", continua Maurette (p. 7), "que el Renacimiento exploró el mundo mientras que el Barroco exploró las bibliotecas tenía en mente a personas como él", ou seja, como Browne. Um fio subterrâneo liga o tratado Urnas sepulcrais, de Thomas Browne, o Gräbersymbolik der Alten de Bachofen, "A ideia de história natural" de Adorno, o Trauerspiel de Benjamin, a "Conoscibilità della festa" de Furio Jesi e a História natural da destruição de Sebald.

2) A frase de Benjamin está na terceira seção da segunda parte ("Drama trágico e tragédia") de Origem do drama trágico alemão: Benjamin comenta a gravura de Dürer, Melancolia, que, segundo ele, com seus "instrumentos da vida ativa espalhados pelo chão", "antecipa em muito o Barroco"; na gravura de Dürer, continua Benjamin, vemos a fusão da meditação com a investigação do erudito, como veremos com o Barroco, e daí surge a frase: "O renascimento investiga o universo, o Barroco as bibliotecas. Tudo o que pensa ganha forma de livro. (...) O 'Livro da Natureza' e o 'Livro do Tempo' são objetos dessa meditação barroca. Eles são a sua casa e o seu teto" (trad. João Barrento, Autêntica, 2011, p. 146).

3) Essa exploração barroca das bibliotecas pode levar às ideias de Foucault sobre o "fantástico de biblioteca" (no posfácio de 1964 à Tentação de Santo Antão, de Flaubert), "novo lugar dos fantasmas", lugar de um "quimérico" que "nasce da superfície negra e branca dos signos impressos": "o imaginário se aloja entre o livro e a lâmpada"; "para sonhar, não é preciso fechar os olhos, é preciso ler"; "são palavras já ditas, recensões exatas, massas de informações minúsculas, ínfimas parcelas de monumentos e reproduções de reproduções que sustentam na experiência moderna os poderes do impossível" (Estética: literatura e pintura, música e cinema, trad. Inês Autran, Forense, 2001, p. 79).

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

20 de abril, 1991




1) O livro de Adolfo Bioy Casares intitulado Unos días en el Brasil (Diario de viaje), cuja edição que tenho em mãos é aquela espanhola de 2010 (um livrinho simpático de 100 páginas editado por La Compañía de los Libros, de Madrid), tem um posfácio assinado por Michel Lafon, que editou na França a obra de Bioy Casares, além de ter feito a tradução de uma série de novelitas de César Aira (o primeiro romance de Lafon, Une vie de Pierre Ménard, lançado pela Gallimard em 2008, foi traduzido para o espanhol por César Aira como Una vida de Pierre Menard, lançado na Espanha em 2014 pela editora independente Días contados, também este livro com um posfácio, assinado por Alberto Manguel e intitulado "Menard inventa a Borges").

2) Lafon intitula seu posfácio "Diario de Bioy (extractos)" e começa evocando o dia 20 de abril de 1991, um sábado: um amigo liga para ele, Lafon, para informar que Bioy está em Paris, em seu hotel habitual, o Claridge-Bellman; o amigo sabe que Lafon quer conhecê-lo, por isso liga; Lafon "não se atreve"; ele sai para jogar futebol com seu filho, para relaxar e pensar em outra coisa; duas horas depois volta para casa, fecha a porta do seu escritório e liga para o hotel, procurando Bioy; Bioy atende, Lafon diz que é professor de literatura argentina e que lê suas obras "desde sempre"; Bioy o convida para jantar em seu hotel alguns dias depois, na terça-feira.

3) O jantar da terça-feira dura quatro horas; Lafon escreve que vai da timidez à eloquência ao longo dessas horas, durante as quais Bioy se manteve "paciente e bondoso"; Lafon também escreve que Bioy contou a ele em detalhes a trama e o processo de realização do romance que então escrevia, Un campeón desparejo; Bioy ainda dá de presente a Lafon um exemplar "da enorme antologia de sua obra que acaba de publicar Marcelo Pichon Rivière", La invención y la trama, com uma dedicatória; Lafon volta para a casa do amigo parisiense que o hospeda, não consegue pregar o olho a noite toda, dada a emoção do encontro, finalmente, com Adolfo Bioy Casares.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Setembro, 1915



1) Seguindo, em grande medida, as indicações de Nietzsche, Freud internaliza as forças cósmicas gregas, suas entidades divinas e respectivas características - a crueza de Dionísio se liga ao Id, assim como a correção de Apolo se liga à articulação entre Ego e Superego, etc. Mais do que isso: o inconsciente passa a falar como um oráculo, por enigmas, pela via da contradição aparente, como se fazia em Delfos e Dodona; a "mania" volta a circular, gerando discursos aparentemente incoerentes que solicitam interpretação (como se diante da Sibila, Josef Breuer acompanha Bertha Pappenheim no desenvolvimento da talking cure, que Freud vai difundir).

2) No segundo capítulo de seu livro La nascita della filosofia (Adelphi, 1975), Giorgio Colli fala dos atributos de Dionísio tal como aparecem nos fragmentos órficos: como esvazia o rigor, o peso e a continuidade, Dionísio - nessa versão - é apresentado como uma criança acompanhada de seus brinquedos, como o pião e a bola. Os "brinquedos de Dionísio" foram usados pelos Titãs para atrair a criança, herdeira de Zeus, e matá-la: os Titãs pintam os rostos com argila branca, levam um espelho, dados, um pião, um novelo de lã; com a criança distraída, fica mais fácil a captura, o desmembramento e o derradeiro consumo de sua matéria.

3) Em setembro de 1915, Freud passa algumas semanas hospedado na casa da filha, Sophie Freud, em Hamburgo; tem a oportunidade de observar seu neto, Ernst Wolfgang Halberstadt, então com um ano e meio de idade. Em uma de suas brincadeiras, Ernst usa um carretel de madeira amarrado em um cordão; ele joga o carretel para longe e diz fort (foi!), puxa de volta e diz da (aqui!). Freud argumenta que esse jogo permite à criança o domínio e controle simbólico da ausência e do retorno de sua mãe (mãe que morrerá poucos anos depois, em 1920, de gripe espanhola).

domingo, 27 de setembro de 2026

21 de junho, 1961


1) Em Cléo de 5 à 7, o filme de Agnès Varda lançado em 1962, há uma preocupação permanente com o tempo e suas balizas: desde o título, evidentemente, e todos os relógios que aparecem, mas especialmente na insistência de que se trata do dia mais longo do ano, o dia do solstício, do início do verão, uma fixação astrológica e astronômica que é estabelecida desde a primeira cena, com as cartas de tarô sobre a mesa (o filme se passa precisamente no dia 21 de junho de 1961).

2) Nesse sentido, o filme de Varda antecipa uma série de temas e cenas que aparecerão em 10:04, o romance de Ben Lerner: não só a insistência nas balizas do tempo desde o título, mas especialmente o modo como essa obsessão é somatizada pelos protagonistas: Cléo com seu possível câncer (referido pela cartomante já no início) e o narrador de Lerner com seu coração falho - I was now burdened with the awareness that there was a statistically significant chance the largest artery in my body would rupture at any moment, ele escreve logo na terceira página.

3) Lerner, de resto, organiza parte da narrativa ao redor do efeito criado pela obra, instalação, experimento de Christian Marclay, The Clock, filme feito de fragmentos de outros filmes que dura 24 horas e que, como não poderia deixar de ser, utiliza também uma cena do filme de Varda, quando Cléo caminha pelas ruas de Paris depois de comprar um chapéu: a tomada do alto registra um relógio de rua à direita, que marca 5h40.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

12 de maio, 1986


"Bioy acompañó a Borges hasta el último de sus días. En la página 1591 [Adolfo Bioy Casares, Borges, Edición al cuidado de Daniel Martino, Barcelona: Ediciones Destino ("Imago Mundi"), 2006] escribe lo ocurrido el lunes 12 de mayo de 1986: 'Hoy hablé con Borges, que está en Ginebra. A eso de las nueve, cuando íbamos a tomar el desayuno, llamó el teléfono. Silvina atendió. Pronto comprendí que hablaba con María Kodama (...) Me dio el teléfono y hablé con María (...) Me dijo que Borges no estaba muy bien, que oía mal y que le hablara en voz alta. Apareció la voz de Borges y le pregunté cómo estaba. 'Regular, nomás', respondió. 'Estoy deseando verte', le dije. Con una voz extraña, me contestó: 'No voy a volver nunca más'. La comunicación se cortó. Silvina me dijo: 'Estaba llorando'. Creo que sí. Creo que me llamó para despedirse' " (fonte).

domingo, 20 de setembro de 2026

Vidas paralelas


Dois livros atípicos, que encontrei em sebos ao longo dos anos, mas que compartilham um procedimento: vidas paralelas - Irena Gross aproxima Joseph Brodsky e Czeslaw Milosz; Tullio Kezich aproxima Italo Svevo de seu personagem Zeno Cosini (do romance A consciência de Zeno). O primeiro teve uma primeira versão em polonês (2007), foi expandido quando a autora fez a tradução para o inglês (2009); o segundo foi escrito em italiano, lançado em 1970 e, em 1978, uma nova edição aumentada, com um prefácio de Claudio Magris, senhor dos temas triestinos.

O segundo é mais inventivo, já que faz a aproximação entre um autor e seu personagem em uma cronologia comparada, com fotos (a organização formal é de uma crônica, ano a ano); o primeiro tem mais fôlego e documentação, citando cartas, poemas, bibliografia crítica (sem fotos). No prefácio ao livro de Gross, Tomas Venclova fala diretamente de Plutarco, já na primeira linha: "esse livro me lembra um pouco Plutarco", pelo modo como coloca Brodsky e Milosz lado a lado, como os pares "grego/romano" de Plutarco; a diferença mais importante, contudo, está no fato da autora ter conhecido e convivido com os dois escritores - algo inacessível para Plutarco na relação com seus personagens. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A gaiola



1) No Teeteto, Platão faz Sócrates falar de erros e sensações, opiniões, marcas e almas; está em questão o "conhecer" e o "não conhecer", a impossibilidade de se opinar o falso. Nesse momento (194-195), Sócrates recorre à metáfora do bloco de cera: a alma como superfície na qual é possível deixar marcas, ou seja, a alma como lousa, suporte, material de escrita. 

2) As sensações deixam marcas na cera da alma, diz Sócrates, escreve Platão; talvez o erro surja quando a alma não consegue ligar a sensação à marca correspondente: tenta conectar uma chamada equivocada, como as telefonistas em suas caixas/jaulas de ressonância, com seus fios e orifícios (a imagem vem de Kittler e de Henry James e do início do século XX). A cera deve ser maleável na medida, diz Sócrates: se muito dura, impede o aprendizado; se muito mole, favorece o esquecimento. 

3) A jaula retorna na próxima metáfora de Sócrates, pouco além: o pássaro na gaiola, ou melhor, a possibilidade do erro como a possibilidade de pegar o pássaro errado quando se recorre à gaiola (o arquivo, o repertório) do conhecimento. A proposta de Teeteto, que confunde tudo e lança o diálogo no absurdo momentâneo,  é a de que dentro da gaiola estão não apenas os conhecimentos, mas os não-conhecimentos (a cacofonia, o ruído branco, a estática?).



sábado, 12 de setembro de 2026

Il miglior fabbro



1) Em seu livro Perfis, H. U. Gumbrecht dedica um dos capítulos a Peter Sloterdijk, enfatizando a surpresa de seu sucesso no início dos anos 1980 com Crítica da razão cínica. O pensamento de Sloterdijk surge como uma sorte de corte transversal em uma situação de impasse, uma "guerra de trincheiras" entre os seguidores de Habermas e os seguidores de Luhmann, escreve Gumbrecht (que, no entanto, não esclarece se essa intervenção foi deliberada por parte de Sloterdijk ou se foi uma constatação tornada possível com o passar do tempo).

2) É evidente que a erudição de Sloterdijk é impressionante, bem como sua capacidade de intervir sobre o debate do presente por meio de cuidadosos resgates de referências do passado; mas aquilo que é decisivo no "perfil" de Sloterdijk, para Gumbrecht, é seu estilo, sua prosa, sua linguagem, "a melhor prosa filosófica em alemão desde Nietzsche". Faz pensar na tradução de Plutarco por Jacques Amyot (1513-1593): "graças a ela", escreve Montaigne, "não temos mais vergonha de falar e escrever hoje em dia; as damas com ela instruem os mestres-escola; é o nosso breviário" (Essais, II, 4 - em português, o capítulo é intitulado "Para amanhã os negócios", que começa com a frase: "Com razão, parece-me, dou a palma a Jacques Amyot acima de todos os nossos escritores franceses" [ênfase minha]).

3) É justamente esse modo peculiar de escrita que faz de Sloterdijk um filósofo não de descrição do mundo, mas de intervenção sobre o mundo (como faz com sua provocação em Regras para o parque humano, escreve Gumbrecht, ao exigir a fabricação de um "ser humano moralmente superior" assim que o genoma humano for decodificado) - o que fica evidente vendo seu último livro, de 2026, Der Fürst und seine Erben. Über große Männer im Zeitalter der gewöhnlichen Leute [O Príncipe e seus herdeiros. Sobre grandes homens na era das pessoas comuns], que tem o atual presidente dos Estados Unidos na capa.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Rudeza desfigurada

Goethe, Venetianische Epigramme


1) Ainda na esteira dos contatos entre Winckelmann e Goethe: já comentei a epígrafe que usa Warburg para seu Ritual da serpente, retirada (e modificada) de Goethe; nesse mesmo livro/palestra, Warburg, como não podia deixar de ser, retoma o Laocoonte: "A redenção do culto sanguinário do sacrifício animal permeia, como o mais intrínseco dos ideais da purificação, o movimento religioso do Oriente ao Ocidente. A serpente participa desse processo de sublimação na religião. (...) Na Grécia, também é a impiedosa devoradora do mundo inferior: (...) No mito e no grupo de Laocoonte, essa ideia da serpente como força destruidora do mundo inferior levou a esse poderosíssimo símbolo trágico" (Histórias de fantasma para gente grande, trad. Lenin Bicudo Bárbara, Cia das Letras, 2015, p. 238-239).

2) Sempre o jogo instigante das epígrafes, conexões intempestivas do presente com o passado, texto alheio que se inscreve no texto próprio antes mesmo de seu início; paradoxal ponto de partida que é, também, sustentação e condição de existência do discurso que se apresenta: Winckelmann que usa Plutarco (justamente porque é um grego que, vivendo sob Roma, evoca e alimenta o passado); Warburg que usa Goethe; Goethe que usa Marcial nos Venetianische Epigramme (ou Bulgákov que usa o Fausto de Goethe como epígrafe de O mestre e Margarida: "...quem és, afinal? - Sou parte da força que eternamente deseja o mal e eternamente faz o bem").

3) Warburg ainda escreve que na Grécia "estiveram em voga" cultos que excediam a "rudeza desfigurada" vista entre os Pueblos na América do Norte; o Laocoonte reflete a "incorporação ostensiva do máximo sofrimento humano", causado pela vingança dos deuses na forma de cobras estranguladoras; o sacerdote, que quis auxiliar seu povo, é assassinado "por demônios", "sem alguma justiça nem esperança de salvação"; é um "símbolo da paixão antiga", escreve ainda Warburg, mostra do "pessimismo trágico e desesperançado da Antiguidade".

sábado, 5 de setembro de 2026

Goethe, 1786



1) Johann Joachim Winckelmann (1717-1768) usa como epígrafe no seu Versuch einer Allegorie, besonders für die Kunst (Tentativa de uma alegoria, especialmente para a arte - disponível digitalizado aqui), publicado em 1766, uma frase que Plutarco (em De gloria Atheniensium) atribui a Simônides de Ceos (ca. 556 a.C.-468 a.C.), poeta epigramático: "a pintura é uma poesia muda e a poesia uma pintura que fala". Winckelmann reconhece os limites entre as artes, mas não deixa de descrever, de mobilizar a ekphrasis: é o que faz com as três principais esculturas das quais se ocupa, o Laocoonte, o Apolo Belvedere, o torso de Hércules (desenvolvimentos aqui).  

2) O que Goethe (1749-1832) resgata e amplia de Winckelmann? A insistência em uma tarefa impossível e que, justamente por isso, deve ser feita - a descrição, a tradução via discurso daquilo que é visual. Goethe, curiosamente, pouco fala do encontro com o Laocoonte em sua viagem à Itália entre 1786 e 1788, durante a qual a obra de Winckelmann operou como guia espiritual: "A História da arte de Winckelmann, traduzida por Fea na nova edição, é obra bastante útil, e eu a comprei de pronto, julgando muito proveitosa a sua leitura aqui, em boa, especializada e instrutiva companhia" (Roma, 3 de dezembro de 1786, Viagem à Itália, trad. Sérgio Tellaroli, Cia das Letras, 1999, p. 174).

3) Mas o Laocoonte ganhará o primeiro plano na reflexão de Goethe poucos anos depois: sua descrição e comentário dessa obra, "Über Laokoon", foi publicado em outubro de 1798 no primeiro número da revista Propyläen, que Goethe funda com Schiller e Friedrich August Wolf (durou apenas até 1800; coincidentemente, corresponde aos mesmos anos de existência da revista concorrente, do grupo dos primeiros românticos de Iena (os irmãos Schlegel, Novalis), a Athenäum - maio de 1798 a agosto de 1800). Aquilo que para Winckelmann é transcendência, para Goethe é evidência do corpo e de seu sofrimento; no primeiro, metáfora; no segundo, intuição estrutural. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A noiva de Corinto

Max Liebermann,
Die Braut von Korinth, 1924

1) No capítulo nove de seu livro sobre Freud e os atos falhos (Il lapsus freudiano. Psicanalisi e critica testuale, Florença, La Nuova Italia, 1975), Sebastiano Timpanaro retoma mais uma vez a Psicopatologia da vida cotidiana para discutir um dos exemplos de Freud: um "jovem colega", escreve Freud, tenta recitar um poema de Goethe, Die Braut von Korinth, A noiva de Corinto (1797), mas erra de tal forma que transforma inteiramente a obra. 

2) Se Goethe escreve "Wenn er teuer nicht die Gunst erkauft", "Se ele não compra o favor com afeição", o jovem colega diz, sem qualquer respeito pela rima (elemento frisado por Timpanaro, que está interessando justamente nessa explicação filológica/crítica dos exemplos de Freud), "Jetzt, wo jeder Tag was Neues bringt", "Agora, quando cada dia traz algo novo", deturpação na qual Freud identifica uma angústia com relação ao noivado do jovem colega com uma mulher mais velha (o tema do noivado, aliás, permanente fonte de angústia na literatura alemã: Goethe com Charlotte Buff, Lili Schönemann e Christiane Vulpius; Kafka com Felice Bauer, Julie Wohryzek e Milena Jesenská). 

3) A angústia do jovem colega era tamanha que o fez inventar versos; Timpanaro, ironicamente, comenta que se trata mais de uma manifestação de psicose do que de neurose, já que a recitação do poema de Goethe foi apenas o ponto de partida para uma espécie de monólogo delirante (que poderia ter sido despertado por qualquer outro poema ou texto, de qualquer outra proveniência ou autoria: essa arbitrariedade é a mesma que Timpanaro diagnostica nas interpretações de Freud para os atos falhos).

domingo, 30 de agosto de 2026

Dans le vrai



1) Outro elemento que vale a pena reter na retomada da relação entre Gert Ledig e Sebald, no que diz respeito à "incompreensão" de parte da crítica de seu romance de 1956, é o papel que a proximidade da experiência ocupa nessa incompreensão: alguns leitores de Ledig ficam "chocados" ou se sentem "atingidos" pela crueza de seu relato de eventos ainda recentes (os bombardeios, a destruição das cidades alemãs, a depauperação extrema na condição de vida daqueles que sobrevivem, reduzidos a um "povo de ratazanas", como escreve Sebald em Guerra aérea e literatura (p. 38)). 

2) A relação tensa entre crítica, produção literária e público leitor sempre passa por essa noção foucaultiana de "estar no verdadeiro de uma época" (dans le vrai): de um lado, a abertura (eventual) da crítica com relação às obras desconectadas com seu tempo (como faz Baudelaire em sua leitura de Poe, por exemplo, ou as reflexões de Auerbach sobre a fundação de um novo campo experimental para o literário por parte de Rabelais, Montaigne, Proust); de outro, a resistência do público leitor com relação a obras que rejeitam certa homogeneidade de uma época (o diagnóstico que faz Sebald a partir de Ledig, cuja obra romperia muito cedo com a "conspiração do silêncio" então vigente). 

3) Disso fala também Dolf Oehler em Quadros parisienses, seu livro sobre Baudelaire, Daumier e Heine (no período de 1830 a 1848), especialmente quando fala do "ódio do flâneur ao trabalhador", ou do "salutar ódio ao povo" no "satanismo baudelairiano"; em um ensaio sobre Sebald, Oehler toca em ponto semelhante quando escreve: "Ao contrário de muitos autores que romancearam assuntos relativos à Shoah, Sebald não joga com o voyeurismo do público, e tem horror ao amálgama da história dos campos de extermínio com cenas de amor mais ou menos sentimentais e apimentadas, ou escabrosas, ao modo, por exemplo, de Bernhard Schlink ou Jonathan Littell".

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Ruptura/sublime



1) A relação entre a obra de Ledig e a leitura que dela faz Sebald é cheia de ressonâncias e sutilezas: em primeiro lugar, a dissonância entre o que o público esperava da literatura nos anos 1950/1960 na Alemanha e aquilo que Ledig oferecia (um "público", na verdade, que agora é deduzido das críticas feitas à época); em segundo lugar, um interessante desdobramento das ideias de Foucault sobre como um discurso pode ou não "estar no verdadeiro" de sua época (a aula inaugural de dezembro de 1970, A ordem do discurso, publicada em 1971). 

2) É digno de nota que a autora do texto tenha resumido as reservas das críticas feitas a Ledig com a expressão "excelente capacidade de representação", que descreve a "falta" do autor: ser excessivamente preciso em sua representação do real, ou melhor, em sua transposição dos detalhes da experiência à linguagem (o terreno de atuação de Erich Auerbach, que encerra Mimesis com Virginia Woolf porque o escreve em 1944; mas não é absurdo pensar em Ledig como parte do material analisado em um hipotético capítulo subsequente de Mimesis). 

3) Isso porque um hipotético novo capítulo de Mimesis, pós-1944, necessariamente precisaria lidar com os efeitos da guerra e das ações nazistas (como Adorno já aponta em 1949 no ensaio "Cultura crítica e sociedade"); e, no caso específico de Ledig e de seu romance Vergeltung, Retaliação, para além da complexa relação entre obra e recepção imediata (um problema que sempre interessou Auerbach, que usa variações da ideia de que uma obra disruptiva cria seu público futuro em seus comentários sobre Dante, Rabelais, Montaigne, Proust), suas cenas de destruição (via bombardeios) acessam uma dimensão do sublime que certamente chamariam a atenção de Auerbach.