terça-feira, 18 de agosto de 2026

Opinião dividida


Revisito um texto sobre a relação entre Gert Ledig e Sebald, atentando especialmente para as estratégias de apreciação (e posicionamento no tempo e no espaço) do segundo em relação ao primeiro (visando uma espécie de arqueologia do Sebald-crítico, que redundará, necessariamente, no Sebald-narrador): 

"Sebald tem uma opinião dividida sobre o valor da obra [Vergeltung (Retaliação), de Gert Ledig, publicado em 1956]: ao mesmo tempo que afirma que alguns momentos são captados com precisão assombrosa, considera que outros são 'forçados'. Além disso, ele acredita que a razão para que a obra tenha caído no esquecimento tem uma conexão maior com a personalidade de Ledig, que ele considera “uma espécie de maverick”, do que com o caráter estético da obra. 

Ledig foi uma criança pobre, criada por parentes após o suicídio da mãe. Na guerra, ele lutou na Rússia, onde foi atingido duas vezes. Devido aos ferimentos, ele teve de abandonar a guerra e voltar para a Alemanha. Estabelecido em Leipzig, ele perdeu tudo o que tinha durante um bombardeio em 1944. Ledig chegou a ser convidado para participar de encontros do Grupo 47, mas só compareceu duas vezes. 

É verdade que a biografia atípica de Ledig pode ter sido responsável por problemas de socialização que fizeram com que ele não se sentisse confortável no Grupo 47 e decidisse largar a carreira de escritor para se dedicar à publicidade, mas também é essa biografia que garante, além da perspectiva tanto do front quanto dos bombardeios na cidade, a capacidade de Ledig de realizar essa representação crua dos bombardeios" (p. 94-95)

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