quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Tudo é água



1) No capítulo XII de seu livro sobre o riso da mulher trácia - um impressionante rastreamento das transformações da anedota de Tales, o "prototeórico"/"protofilósofo", caindo no poço por olhar as estrelas -, Hans Blumenberg fala de Nietzsche: ele prefere a versão de Platão àquela de Diógenes Laércio (para Nietzsche, escreve Blumenberg, este último era um "copista duvidoso"), enfatizando que Tales era um "grande matemático", o que acarreta uma "sensibilidade pelo abstrato" já nos inícios da filosofia, dada a tendência "não-mítica" e "não-alegórica" da postura de Tales (segundo Nietzsche, retoma Blumenberg). 

2) Blumenberg cita de algumas aulas de Nietzsche de 1872, depois transformadas no livro Os filósofos pré-platônicos; dois elementos são sublinhados por Nietzsche: a suspeita da origem fenícia de Tales (ou seja, a filosofia grega não nasceu na Grécia) e a lenda de sua temporada de estudos no Egito; um duplo deslocamento, portanto, da "autoctonia" da fundação da filosofia/teoria (e Blumenberg acrescenta um terceiro elemento: justamente o riso da mulher trácia, também ela originária de um espaço "bárbaro").

3) Nietzsche enfatiza também a faceta política de Tales, e como seu preceito filosófico ("tudo é água") poderia ser tomado como testemunho de sua intervenção política, que falhou (a proposta de uma confederação das cidades costeiras gregas na Jônia); a unidade da razão deveria triunfar sobre o pluralismo dos mitos, da mesma forma que uma confederação unida seria melhor que uma dispersão política (que deixava os gregos vulneráveis diante dos persas). Assim como Tales falhou (no contato com a política), também Sócrates falhará (comenta Blumenberg), preparando o terreno para a falha de Platão (vendido como escravo na Sicília).

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