1) Como nos célebres versos de T. S. Eliot ("Burnt Norton"), no drama trágico grego parte do futuro está contida no presente, produzindo um sentido de tempo oralizado: passado, presente, futuro fluem um através do outro, sem divisões formais ou momentos fixos. Essa técnica é em parte responsável pela impressão de que os enredos são concebidos de modo fatalista, decorrendo disso a ideia de que os gregos mantém uma espécie de crença no poder de um destino esmagador (Havelock (A evolução da escrita, p. 313) chega a dizer que, dada sua história dinâmica, os gregos não poderiam ser um povo fatalista). O drama trágico grego usa o prognóstico, típico da composição oral, por motivos antes mnemônicos que ideológicos.
2) A dicção sofocliana, por exemplo, oscila entre a invenção pessoal (textos projetados e governados pelo gênio de seu autor) e a sabedoria arcaica comunitária: o prólogo de Édipo Rei está carregado de aforismos sobre o poder e a arte de governar; os coros reflexivos repercutem a dimensão gnômica da linguagem. Assim como a Atenas de 480 AEC está por trás de Os sete contra Tebas, de Ésquilo, o governo de Péricles está por trás da imagem de Édipo; ainda se sustenta, nas duas peças, a ideia do poeta como porta-voz do que é útil à sociedade.
3) Por outro lado, Édipo Rei explora o aparato mnemônico de antecipação e profecia, em sequência enfáticas e reiteradas, reforçando associações por meio de jogos de palavras e de uma sintaxe performativa. Em paralelo ao controle mnemônico de Sófocles, ocorre também o desenvolvimento de um traçado arquitetônico, em particular na disposição dos coros em intervalos regulares de diálogos - fato sintomático da inserção progressiva de um olho leitor no processo de composição (elemento que também é resgatado por Eliot, com seu uso reiterado de and, com sua preocupação com ressonâncias e ecos, tantos estruturais quanto linguísticos, em seus poemas e peças).

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