segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Calpúrnio Sículo


1) Já na primeira Bucólica de Calpúrnio Sículo (datas incertas - primeiro século d. C.? durante o reinado de Nero?) aparece, em uma cena inusitada, a escrita: Córidon e Órnito, irmãos, encontram um poema escrito com "lâmina afiada" no tronco de uma árvore, tudo feito recentemente, já que "as letras mantém ainda os sulcos verdes". Órnito declara que quem escreveu o poema não foi um pastor, mas o próprio deus, Fauno, como fica claro desde a primeira linha: "Eu Fauno, nascido do Éter, que protejo os bosques e as montanhas, anuncio aos povos o futuro" (introdução, tradução e notas de João Beato, editora Verbo, Lisboa, 1996, p. 60-61).

2) O poema de Calpúrnio Sículo, evidentemente, é um exercício feito a partir das Bucólicas de Virgílio, que, naquela de número cinco (versos 13-15), escreve: "Antes vou experimentar estes versos que há pouco gravei na verde casca de uma faia, escrevendo e cantando alternadamente; ordena depois que Amintas contenda comigo" (João Pedro Mendes, Construção e arte das Bucólicas de Virgílio, UnB, 1985, p. 238). Não apenas a escrita na casca da árvore (ou a significativa alternância entre escrita e canto), mas o modo como Mopso recusa a sugestão de Menalcas de lidar com temas tradicionais e parte para uma experimentação "fresca" de sua própria criação.

3) A escrita do Fauno, contudo, não pode ser simplesmente contida pela casca da árvore. É muito longa, tem quase cinquenta linhas, fala da Idade de Ouro que está para surgir e dos triunfos que ainda viverá Roma depois das guerras civis; sua extensão não é condizente com o suporte, suporte que se torna, diante disso, adereço poético deslocado de sua verossimilhança. Em outras palavras, a evocação poética da escrita não precisa mais respeitar a verossimilhança do suporte, pois a escrita já é parte constituinte e "naturalizada" do fazer poético (muito ao contrário do que acontecia em Homero, nos líricos posteriores, ou mesmo Píndaro).

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