segunda-feira, 30 de março de 2026

O verbo ser


"Quando lemos os diálogos socráticos, temos esta sensação: que terrível perda de tempo! Para que esses argumentos, que nada provam e nada esclarecem? (p. 59)

Sempre tornamos a ouvir a observação de que a filosofia não faz realmente nenhum progresso, que os mesmos problemas filosóficos que já ocupavam os gregos ainda nos ocupam. Mas os que dizem isso não compreendem por que tem de ser assim. A razão é que nossa linguagem permaneceu a mesma e sempre nos desvia para as mesmas questões. Enquanto existir um verbo 'ser' que parece funcionar como 'comer' e 'beber' (...) as pessoas depararão sempre com as mesmas misteriosas dificuldades. (p. 61)

Leio que 'philosophers are no nearer to the meaning of 'Reality' than Plato got' [os filósofos não estão mais próximos do sentido da 'Realidade' do que Platão esteve]. Que situação peculiar. Que estranho que Platão pudesse ir tão longe! Ou que nós não tenhamos podido ir mais longe! Seria porque Platão era tão inteligente? (p. 63).

Creio que resumi a minha atitude ante a filosofia ao dizer: filosofia, na verdade, deveríamos apenas escrever como um poema. Disso se depreenderá, me parece, até que ponto meu pensar pertence ao presente, ao futuro ou ao passado. (p. 89)"

(Wittgenstein, Pensamentos diversos: sobre cultura, filosofia, religião e arte. Trad. Paulo César de Souza. Cia das Letras, 2025).

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