2) Na Ilíada (XVIII, 117-119), encontramos um comentário sobre Héracles que ecoa na peça de Sófocles: Homero registra que nem mesmo Héracles escapou da morte, mesmo sendo filho de Zeus, mesmo sendo querido por seu pai e possuidor de consideráveis dons e capacidades; foi subjugado pela ira de Hera e pelo destino. É pela via do exemplo de Héracles que Aquiles, na Ilíada, aceita seu destino: se até mesmo o maior dos homens teve de morrer, por que eu escaparia? A morte de Héracles é um dos pontos centrais da peça de Sófocles, As Traquíneas: envenenado pelo “fármaco” que Dejanira coloca em uma túnica (um presente de grego!), ele suplica ao filho (Hilo) que o queime vivo no alto do monte Eta, para libertá-lo da agonia.
3) Nós não vemos a morte de Héracles, assim como não vemos a morte de Dejanira: ela se suicida depois de saber que foi a causadora da morte do marido (o “fármaco” deveria ser um filtro do amor, não um veneno), mas ficamos sabendo disso pelo relato de uma terceira (a nutriz que descreve como Dejanira se matou usando seu broche, cravando-o na carne repetidas vezes); assim como não vemos a pira queimar, pois a peça termina antes mesmo da subida em direção ao alto do monte (Héracles dá instruções específicas ao filho sobre o tipo de madeira e como a pira deve ser montada – resquícios de instruções rituais provavelmente reconhecíveis pela plateia contemporânea em Atenas).

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