quarta-feira, 15 de abril de 2026

Não gosto



"Não creio que se possa pôr Shakespeare juntamente com outro poeta. Talvez ele fosse antes um criador de linguagem do que um poeta?

Eu só pude olhar assombrado para Shakespeare; jamais fazer algo com ele.

Tenho uma desconfiança profunda da maioria dos admiradores de Shakespeare. O infortúnio, creio, é que, pelo menos na cultura ocidental, ele se acha sozinho, e por isso, para classificá-lo, as pessoas têm de classificá-lo erradamente" (p. 263).

"'O grande coração de Beethoven' - ninguém poderia dizer 'o grande coração de Shakespeare'. 'A mão flexível, que criou novas formas naturais da linguagem' me pareceria mais correto" (p. 265).

"Não posso compreender Shakespeare porque em toda aquela assimetria quero achar a simetria.

Para mim, suas peças são como enormes esboços, não pinturas; foram lançadas no papel, por alguém que, por assim dizer, tudo se permitia. E compreendo que se possa admirar essa obra e considerá-la arte suprema, mas não gosto dela. - Portanto, se alguém fica perplexo diante dessas peças, posso compreender essa pessoa; mas quem as admira como quem admira Beethoven, digamos, esse me parece compreender mal Shakespeare" (p. 269).

(Wittgenstein, Pensamentos diversos: sobre cultura, filosofia, religião e arte. Trad. Paulo César de Souza. Cia das Letras, 2025).

2 comentários:

  1. A busca por simetria na assimetria faz lembrar do "Hamlet and his problems", do Eliot, né? A antipatia dele pela peça , até onde me lembro, teria a ver tb com certa noção de assimetria - no caso, as assimetrias do próprio Hamlet, cujo desarranjo psíquico e emocional não seria diegeticamente justificáveis, por falta de termo melhor, rs.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim! Esse ensaio do Eliot é bem pertinente nessa linha - e mais ou menos contemporâneo das reflexões do Wittgenstein. No livro sobre Shakespeare o Greenblatt também fala bastante dessa "bagunça" que é Hamlet (tormento formal = tormento existencial).

      Excluir