quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Rudeza desfigurada

Goethe, Venetianische Epigramme


1) Ainda na esteira dos contatos entre Winckelmann e Goethe: já comentei a epígrafe que usa Warburg para seu Ritual da serpente, retirada (e modificada) de Goethe; nesse mesmo livro/palestra, Warburg, como não podia deixar de ser, retoma o Laocoonte: "A redenção do culto sanguinário do sacrifício animal permeia, como o mais intrínseco dos ideais da purificação, o movimento religioso do Oriente ao Ocidente. A serpente participa desse processo de sublimação na religião. (...) Na Grécia, também é a impiedosa devoradora do mundo inferior: (...) No mito e no grupo de Laocoonte, essa ideia da serpente como força destruidora do mundo inferior levou a esse poderosíssimo símbolo trágico" (Histórias de fantasma para gente grande, trad. Lenin Bicudo Bárbara, Cia das Letras, 2015, p. 238-239).

2) Sempre o jogo instigante das epígrafes, conexões intempestivas do presente com o passado, texto alheio que se inscreve no texto próprio antes mesmo de seu início; paradoxal ponto de partida que é, também, sustentação e condição de existência do discurso que se apresenta: Winckelmann que usa Plutarco (justamente porque é um grego que, vivendo sob Roma, evoca e alimenta o passado); Warburg que usa Goethe; Goethe que usa Marcial nos Venetianische Epigramme (ou Bulgákov que usa o Fausto de Goethe como epígrafe de O mestre e Margarida: "...quem és, afinal? - Sou parte da força que eternamente deseja o mal e eternamente faz o bem").

3) Warburg ainda escreve que na Grécia "estiveram em voga" cultos que excediam a "rudeza desfigurada" vista entre os Pueblos na América do Norte; o Laocoonte reflete a "incorporação ostensiva do máximo sofrimento humano", causado pela vingança dos deuses na forma de cobras estranguladoras; o sacerdote, que quis auxiliar seu povo, é assassinado "por demônios", "sem alguma justiça nem esperança de salvação"; é um "símbolo da paixão antiga", escreve ainda Warburg, mostra do "pessimismo trágico e desesperançado da Antiguidade".

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