quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O joalheiro de Leskov, 6

Chuang-Tsê, 369-286 a.C
1) O joalheiro que Leskov encontra em Praga, o velho Wenzel, é o responsável pelo misticismo do conto - cujo título completo é precisamente "Alexandrita (Um fato natural à luz do misticismo)". Para ele, as pedras profetizam, se comunicam com os homens. Mas o que interessa especialmente é o ritual do joalheiro, seus gestos com as pedras, todo o cerimonial necessário para a manipulação das pedras. Como os sábios chineses que povoavam a mente perturbada de Kien, no Auto-de-fé de Elias Canetti, o místico Wenzel de Leskov dá suas lições com muita concisão, sem alarde, seguindo o tempo plácido da natureza.
2) "Quantas vezes não fui procurá-lo", escreve Leskov, "e o meu piropo não só não estava pronto, como Wenzel nem mesmo se ocupara dele". E mais: "o meu 'prisco príncipe' ficava jogado no prato como um 'limpa-chaminés', na companhia mais baixa e mais indigna dele". Wenzel apenas esperava, como Chuang-Tsê, o sábio chinês citado por Italo Calvino em uma de suas "propostas para o próximo milênio": para desenhar um caranguejo, Chuang-Tsê pediu ao rei cinco anos e uma casa com doze empregados. Passados cinco anos, não havia sequer começado o desenho, e pediu mais cinco anos. O rei concordou. Ao fim do décimo ano, Chuang-Tsê pegou o pincel e, num único movimento, desenhou um caranguejo, "o mais perfeito caranguejo que jamais se viu", escreve Calvino (e Chuang-Tsê é uma referência também para Roberto Calasso, como ele mesmo afirma em entrevista recente).
3) Naquele que é talvez o seu ensaio mais longo, "Nueva refutación del tiempo", Borges também menciona Chuang-Tsê: fala do famoso sonho da borboleta, no qual Chuang Tzu (essa é a grafia utilizada por Borges) "sonhou que era uma borboleta e, ao acordar, não sabia se era um homem que havia sonhado ser uma borboleta ou se era, agora, uma borboleta sonhando que era um homem". Chuang-Tsê rondava Borges há tempos - desde o início da década de 1930, quando lera o volume de Herbert Allen Giles sobre o chinês, de 1889. O sonho da borboleta já havia aparecido na antologia de literatura fantástica que Borges publicou com Bioy Casares em 1940. Retorna comentado no ensaio (publicado em duas partes, 1944 e 1946), que aparece em livro (Otras inquisiciones) em 1952. Manejando a citação como uma pedra preciosa, Borges precisou de pouco mais de dez anos para lhe uma forma final.   

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O joalheiro de Leskov, 5

1) O velho Wenzel consegue ver na pedra uma série de conexões, de dados, fatos e histórias que ninguém mais é capaz de ver. Como o gaúcho rastreador de que fala Sarmiento no Facundo, Wenzel tem uma capacidade sobrenatural de ler o mundo, ler seus signos, seus traços, suas minúcias, e a partir delas contar uma história, construir um relato. Como o rastreador de Sarmiento, também o velho Wenzel passou o ofício aos filhos - e também ele persegue as pistas que levam a um crime esquecido pela história (até chegar, finalmente, ao assassinato do imperador).
2) "Em nossa época", escreve Leskov, "Wenzel é uma ave perdida no tempo, uma carta fora do baralho". O velho Wenzel está em descompasso com o tempo que lhe coube, ele vive o tempo das pedras, o ciclo lento e arcaico das vibrações místicas das montanhas. Para ele o tempo estará sempre out of joint, como grita o Hamlet de Shakespeare. Como se o joalheiro vivesse cindido no tempo - simultaneamente na vida dos homens e na vida das pedras.     
3) O velho Wenzel, escreve Leskov, levou sua pedra para passear - a pedra preciosa que muitos dias antes Leskov lhe havia confiado para a correção da lapidação. Foram para "além da escadaria de Nusle", em Praga, "em frente da muralha de Carlos". A pedra revelou ao velho Wenzel toda sua história, desde "os priscos dias, quando não havia nascido nem Sócrates, nem Platão, nem Aristóteles, e também não tinha acontecido nem o pecado de Sodoma nem o incêndio de Sodoma". Uma característica de Leskov, notada por Benjamin em seu ensaio sobre o narrador, aqui se encontra exacerbada: a arte de narrar retira seu vigor das profundezas da natureza inanimada - que, dialeticamente, passa à vida no encontro do leitor com a escritura.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O joalheiro de Leskov, 4

1) Eis aqui, finalmente, o joalheiro de Leskov: o velho Wenzel, visionário, aquele que tem acesso à natureza através das pedras, que sente a vibração imemorial das profundezas da terra na superfície e no brilho das pedras preciosas (como Heidegger escrevendo Ser e tempo em uma cabana perdida na Floresta Negra, sentindo as mesmas reverberações arcaicas no posicionamento do ser como ser-com, na ligação com o insondável). O velho Wenzel vê na pedra a imagem portátil do "fogo denso e inextinguível da montanha tcheca"; ela está viva, escreve Leskov.
2) A pedra se escondia, "um rei tcheco que sabia como fugir de ignorantes", fala o joalheiro, "diante dos olhos deles, transvestiu-se de limpa-chaminés. Sim, sim, eu o vi; eu vi o mascate judeu levando-o no bolso, e era por ele que o mascate escolhia outras pedras". Nesse ponto, Leskov acrescenta uma nota de rodapé ao seu relato: "Quando examinamos longamente pedras de uma única cor", escreve Leskov, "o olho 'emburrece' e perde a capacidade de distinguir as melhores cores das piores. Para restabelecer essa capacidade", continua Leskov, "os compradores de pedras levam consigo um regulador, ou seja, uma pedra cuja cor já lhes é conhecida pela qualidade. Ao compará-la com outra, ele logo vê a diferença de brilho e pode avaliar com correção o seu valor".
3) Na intervenção de Leskov, a pedra aparece como instrumento crítico: é ela, com sua natureza superior, que dá a possibilidade de se estabelecer uma escala, uma perspectiva, uma linha de fuga para a avaliação. O piropo tcheco era usado pelo "mascate judeu" (que o velho Wenzel consegue enxergar não se sabe onde, não se sabe como) como um modelo, um gabarito, uma matriz - a obra-prima que lhe permitia colocar todo o resto, tudo o que encontrava pelo caminho, em perspectiva (como Jesus Cristo na cruz). 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O joalheiro de Leskov, 3

1) "No verão de 1884", escreve Leskov no início da quarta seção do conto "Alexandrita", "tive ocasião de visitar as terras tchecas". As linhas restantes são ocupadas na exaltação das pedras preciosas da região. Antes da viagem, continua Leskov na seção seguinte, "recebi de um amigo a incumbência de trazer-lhe da Boêmia as duas melhores granadas que fosse possível encontrar". Uma delas, a mais valiosa, havia sido danificada por uma manipulação grosseira. "O tcheco que me orientava no negócio", escreve Leskov, "aconselhara-me a submetê-la a uma segunda lapidação por um famoso lapidador local, de nome Wenzel".
2) Wenzel é um artista, não um artesão - um místico, um cabalista, um poeta inspirado e um "grande supersticioso"; "homem originalíssimo", que sente nas pedras "o reflexo da vida misteriosa dos espíritos das montanhas", um homem inspirado. O velho Wenzel é judeu e mora em Praga, na Cidade Velha, em um beco próximo da sinagoga Staronová (construída no século XIII). "De coluna curvada, mantinha a cabeça erguida e olhava como um rei", escreve Leskov, "um ator que observasse Wenzel poderia usá-lo para se caracterizar magnificamente de rei Lear" (relembrando a intensa releitura que Leskov faz de Shakespeare, pelo menos desde a novela Lady Macbeth do distrito de Mtzensk, de 1865).   
3) Já não se trata mais do anel com a alexandrita, que foi esquecido - o que importa agora é o velho Wenzel e sua capacidade de reconhecer a qualidade da nova pedra (a granada tcheca que Leskov comprou para seu amigo). "Já nos conhecemos há muito tempo", fala o velho quando Leskov mostra a pedra, "eu o vi ainda em sua terra natal, nos campos secos de Merunice". De repente, a trajetória da pedra se transforma em uma analogia para a resistência dos tchecos diante dos alemães (e todos os bárbaros ao longo da história): "ele não se deixa triturar no pilão do suábio! Os piropos têm sangue de guerreiro... Fingiu, como o tcheco sob os suábios, entregou a própria cabeça, mas escondeu o seu fogo no coração: eis aqui o fogo denso e inextinguível da montanha tcheca...".

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O joalheiro de Leskov, 2

O bom ladrão crucificado, Lovis Corinth, 1883
1) Sobre a alexandrita, e mais especificamente sobre o fetiche da alexandrita transformada em anel, Leskov escreve que o anel que ele havia finalmente adquirido - propriedade de "uma das pessoas memoráveis" do reinado do imperador - era composto por três pedras: a alexandrita ao centro, "cercada de dois brilhantes puríssimos". Havia um "simbolismo", como aponta Leskov: a pedra central era o imperador e os dois brilhantes suas principais obras - "a libertação dos servos e o estabelecimento de um sistema judicial melhorado".
2) Leskov escreve que a alexandrita "tinha pouco menos de um quilate", enquanto "cada brilhante tinha apenas meio quilate". A intenção, segundo Leskov, "era fazer com que os brilhantes, representantes dos feitos, não ocultassem a modesta pedra principal, que devia lembrar a própria pessoa do nobre autor dos feitos". 
3) A descrição do anel ocupa os três breves parágrafos da terceira seção do conto - e o simbolismo da trindade imperial ecoa na forma e segue reverberando quando, abruptamente, Leskov parte para a seção seguinte. Uma alegoria messiânica: o imperador como o Cristo Russo, libertador dos servos humildes (lembrando como Leskov era obcecado também com a pintura religiosa russa, "pintura de ícones"), os brilhantes ao redor como os dois ladrões crucificados no Gólgota com Jesus (Lucas, 23, 39-43). Jesús es la obra maestra. Los ladrones son las obras menores. Por qué están allí? No para realzar la crucifixión, como algunas almas cándidas creen, sino para ocultarla (Bolaño, 2666, p. 989).

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O joalheiro de Leskov, 1

1) Num movimento que é bastante típico em sua obra, Leskov começa o conto com o motivo central (a pedra, a alexandrita, Chrisoberil Cymophone), abandona o tema, acrescenta algumas digressões e, quando o leitor já esqueceu o mote inicial, ele o resgata e finaliza a história abruptamente. Leskov (é ele que narra, é ele o amador das pedras preciosas) compra um anel com uma alexandrita - pedra raríssima, que muitos joalheiros conhecem "só de ouvir falar" - depois da morte do antigo dono, "uma das pessoas memoráveis do reinado de Aleksandr II".
2) O conto de Leskov é o resultado de uma febre, de uma mania, de uma implicância: "sempre tive a fraqueza, não sei se feliz ou infeliz", escreve Leskov em uma carta a um amigo, autor de um livro sobre pedra preciosas, "de me deixar arrebatar por algum tipo de arte. Foi assim que me apaixonei pela pintura de ícones, pelas canções populares, pela medicina, pela restauração etc. Pensei que isso tivesse passado, mas me enganei: as nossas conversas sobre o seu livro Pedras preciosas arrastaram-me para uma nova paixão, e, como de cada uma das minhas paixões sempre busquei criar algo 'de volta', agora isso está se repetindo. Sinto uma vontade irresistível de escrever um conto fantástico-supersticioso, capaz de despertar a paixão pelas pedras preciosas e, junto com ela, também a fé em sua influência misteriosa".  
3) O que há inicialmente de supersticioso no conto é a devoção ao imperador: depois da morte violenta, escreve Leskov, "diversos veneradores do falecido soberano elegeram as coisas mais variadas" para torná-lo presente na vida cotidiana. Fetiches que representem o corpo do soberano, fotos em miniatura, medalhões e, a versão mais rara, um anel com uma alexandrita engastada - uma "lembrancinha para nunca mais tirar da mão", escreve Leskov. O culto da personalidade do soberano, de seu corpo, sua mitologia e sua sobrevida simbólica - atalhos que levam diretamente à opressão, à ditadura, ao totalitarismo (Canetti, Massa e poder; Todorov, Memória do mal, tentação do bem).  

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O joalheiro de Leskov

Aleksandr II e seu cão, Milord, 1870
1) Nikolai Leskov publica, em 1884, um conto intitulado "Alexandrita (Um fato natural à luz do misticismo)". É uma abordagem da "metáfora do joalheiro" completamente diversa daquela de Sándor Márai. O conto é dividido em onze breves seções - Leskov chama o relato de "pequena comunicação", e mistura um pouco de distanciamento pseudo-científico (ao falar das pedras preciosas) com o tal misticismo prometido no subtítulo e, mais importante, com um tom alegórico, como se estivesse dizendo algo além daquilo que está, de fato, dizendo: as minas de onde se retiraram os melhores exemplares da pedra de Aleksandr II foram inundadas pelas águas de um rio transbordado.
2) A "alexandrita", conta Leskov, foi descoberta no dia em que o imperador Alexandre II atingia a maioridade ("17 de abril de 1834") - por isso a homenagem. O imperador (seu pai foi Alexandre I, que derrotou Napoleão) sofreu vários atentados ao longo de sua vida: em 1879, caminhando pelos jardins de uma guarnição militar, ele vê um jovem vindo em sua direção com um revólver - corre em zigue-zague, escapa de cinco disparos e domina o assassino; no ano seguinte, o imperador chegou atrasado a um jantar no qual onze pessoas morreram e trinta ficaram feridas por conta da explosão de uma bomba. Em março de 1881, contudo, Alexandre II não conseguiu escapar da explosão - morreu sem as pernas e com os intestinos expostos.
3) A pedra que leva o nome do imperador, escreve Leskov, é impossível de ser falsificada: com a luz do dia, a alexandrita é verde; sob luz artificial, torna-se vermelha. O joalheiro místico que Leskov encontra no Bairro Judaico de Praga, na Cidade Velha de Kafka e do golem, se surpreende ao ver a alexandrita que ele porta: Veja só que pedra! Nela a manhã é verde e a noite sangrenta... É o destino, é o destino do nobre tsar Aleksandr! (Leskov, A fraude, tradução de Denise Sales, ed. 34, p. 165).