quarta-feira, 16 de março de 2011

Boato, 1

1) O boato tem íntima relação com a paranoia. Ao mesmo tempo em que nega sua origem, postulando um nascimento anônimo, o boato precisa guardar algumas marcas de legitimidade durante seu percurso. O boato circula com densidades muito diversas. Os alemães atacarão pela manhã. Ela tem um amante. O boato está dentro e fora, simultaneamente. Ele leva consigo elementos do "possível" para melhor desvirtuá-lo, podendo negar sua tangibilidade ao menor sinal de confronto. Hamlet não seria possível sem o boato. Não é à toa que Lacan tenha ido aos registros de seu seminário para apagar a fala e colocar "(...)" no lugar: é no arquivo que o boato ganha feições definidas e, portanto, morre.
2) Severino Di Giovanni (1901-1931), militante anarquista italiano perseguido pelo fascismo, chegou a Buenos Aires em 1923 a bordo do vapor Sofia, na última grande leva de imigrantes italianos aportados na Argentina antes da Segunda Guerra Mundial. Foi florista, professor autodidata, tipógrafo, linotipista, operário e, sobretudo, agitador, tendo vivido na clandestinidade a maior parte de sua curta existência. Partidário da ação violenta, foi preso, torturado pela polícia do ditador Uriburu e condenado à morte. Entre os jornalistas presentes à sua execução estava Roberto Arlt, que retratou a cena na crônica "He visto morir...", publicada em El mundo e incluída em Aguasfuertes porteñas. Enterrado na calada da noite por ordem das autoridades, seu túmulo no cemitério de Chacarita amanheceu coberto de rosas vermelhas.

terça-feira, 15 de março de 2011

Boato

1) Jacques Derrida publicou inúmeros livros híbridos - mesclados, atravessados, esquisitos. Como em Joyce: a leitura de um livro deve levar quase tanto tempo quanto sua escritura. Não li todos - desista -, mas gosto bastante de O cartão-postal. A primeira metade é ficcional, biográfica. Um diário de Derrida, de 1977 a 1979. Funciona um pouco como O mal de Montano, um pouco como aquele trecho do diário de Calvino publicado em Eremita em Paris. Na entrada do dia 8 de julho de 1979, Derrida conta uma história curiosa: um amigo canadense lhe diz que Serge Doubrovsky, no meio de uma conferência que dava em Montreal, disse à plateia: Jacques Derrida está fazendo análise. Derrida acha graça, porque é mentira, e lembra outro caso, ocorrido em 1977: Jacques Lacan está em seu seminário - o seminário de número 24, L'insu que sait de l'une-bévue s'aile à mourre (se você quiser traduzir isso, boa sorte) - e de repente fala para a plateia: esse rapaz, Jacques Derrida, está em análise.
2) Derrida gosta de deixar claro, e o faz também nesse dia, 8 de julho de 1979: nunca passou pela situação analítica. Sua análise se dá, talvez, no trabalho da escrita, na escuta dos seminários. Quando René Girard pergunta a Lacan o que acha de Derrida, Lacan responde: tudo muito bem, tudo muito bom, mas a diferença entre nós é que ele não lida com pessoas em sofrimento. E agora? Derrida encontra falogocentrismo e metafísica da presença também na cena analítica - nessa cena do véu que separa o Santo do Santíssimo no Tabernáculo do Senhor, aquele construído pelos levitas quando o nomadismo era ainda uma lembrança recente. E Derrida vê essa cena da separação se repetindo em todos os cantos - e os sacerdotes da separação como acompanhantes.
3) Derrida não fala, mas Doubrovsky é o sujeito que primeiro mencionou a expressão "autoficção" - utilizada também por Vila-Matas justamente em O mal de Montano. Derrida também não fala, mas o chiste do rapaz muito provavelmente veio de Lacan, a fonte do boato. Derrida se pergunta: o que fiz para que a verdade de seus desejos esteja na indecidibilidade de minha situação analítica, sempre postergada, sempre suspensa? A verdade do desejo: o que quer que seja, está sempre por trás do véu.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Não-lidos

Eu olho para a pilha de não-lidos e tomo até um susto: dois livros de Bruce Chatwin que mal passei os olhos - e desde que li Utz, algumas semanas atrás, não há dia que não lembre da figura daquele colecionador pacífico e retraído, parente dos tios bósnios de Aleksandar Hemon, por exemplo (que são parentes daqueles arquivistas dos resíduos que encontramos em Bohumil Hrabal). Os livros de Chatwin convivem pacificamente com Perder teorías, um livrinho fino de Vila-Matas que saiu ano passado. Perder teorías, reza o prefácio, serve de suplemento a Dublinesca - e como não gostei muito desse último, seu suplemento continua ali, na pilha. Às vezes me perco na anedota, na busca por uma história pitoresca, algo que possa contar por aí, algo que dê a medida exata do esforço de vasculhar as páginas: é o que acontece com aquela história mínima que Dashiell Hammett conta em O falcão maltês, do homem que foge depois de quase ser esmagado por uma viga; ou aquele mendigo absurdo que cruza uma história de Saul Bellow. Às vezes me perco na palavra exata, persigo um significante, fico caçando uma modulação, um ritmo singular, uma deriva turva que acaba não levando a nada: como aquele dia em que fui atrás das lagostas, ou quando fui atrás dos usos da palavra comadreja nos contos de Roberto Bolaño. Alguns deles me olham da pilha e parecem dizer: desista.

terça-feira, 8 de março de 2011

Três textos para três acadêmicos tristes

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Como diria a sábia Monique Evans: porque é que eu vou pagar alguém pra falar de mim se eu mesma posso fazer isso?
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1) O primeiro deles é sobre Carlo Ginzburg, historiador italiano que gosto muito. O texto pretende emular inclusive a forma dos ensaios de Ginzburg: seções curtas, encadeamentos aparentemente frouxos que se unem vigorosamente no final. A ideia era um pouco psicanalítica: ler algumas escolhas intelectuais de Ginzburg a partir de certas balizas biográficas. Nada inventado; o mote vem de um ensaio autobiográfico do próprio.
2) O segundo, chamado O testemunho e a literatura, fala bastante de Giorgio Agamben - com pinceladas de Sebald e outros. É uma breve reflexão sobre o estatuto da linguagem no testemunho e na literatura, digamos, de invenção.
3) O terceiro tem um título pomposo: Palimpsestos e sobrevivências: o ser e o sentido na filosofia e na literatura. Fala basicamente de Jacques Derrida, atravessando casos literários bem pontuais, como Kafka ou Sérgio Sant'Anna. Foi escrito há muito tempo e só agora saiu. O fantasma sobre esse texto é Bataille, que não é mencionado. Especialmente aqueles textos que dedicou às moedas que encontrou na Biblioteca Nacional, em Paris.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Gerenciando dejetos

Na caixa de comentários do dia 28 de fevereiro, foi levantada a possibilidade de ler Kafka a partir do gerenciamento de dejetos - uma leitura sistemática de Kafka que levasse em conta toda essa dimensão do resto, do trapo, do excremento e de tudo aquilo que sobre, que excede. Como na história do homem que transporta as ruínas de uma casa de um lado para o outro, terminando ao relento; como na história do café da manhã formado das sobras de outros cafés da manhã. Há sempre um animal que administra os restos de uma presa, os escombros de uma toca, o entulho de algum túnel. Há sempre um viajante que afirma não precisar de qualquer provisão, há sempre um objeto escondido. Uma nota de O mal-estar na civilização, de Freud, apresenta a questão de forma bastante ilustrativa:

A retração dos estímulos olfativos parece consequência do afastamento do ser humano da terra, da decisão de andar ereto, que fez os genitais até então escondidos ficarem visíveis e necessitados de proteção, despertando assim o pudor. No começo do decisivo processo de civilização estaria, portanto, a adoção da postura ereta pelo homem. O encadeamento parte daí, através da depreciação dos estímulos olfativos e do isolamento da menstruação, até a preponderância dos estímulos visuais, a visibilidade que obtêm os órgãos genitais, chegando à continuidade da excitação sexual, à fundação da família, e com isso ao limiar da cultura humana.
Também é inequívoca a presença de um fator social no esforço cultural pela limpeza, que acha uma justificação posterior em considerações higiênicas, mas já se manifestava antes delas. O impulso à limpeza vem do afã para eliminar os excrementos, que se tornaram desagradáveis à percepção sensorial. Sabemos que é diferente com os bebês. Os excrementos não despertam neles aversão; parecem-lhes valiosos, uma parte que se desprendeu do seu próprio corpo. Nisso a educação intervém com particular energia, apressando o estágio seguinte do desenvolvimento, que deve tornar os excrementos sem valor, repugnantes, nojentos e condenáveis. Tal inversão de valor não seria posível, caso essas substâncias expelidas do corpo não fossem condenadas, por seus fortes odores, a partilhar o destino reservado aos estímulos olfativos depois que o ser humano adotou a postura ereta. Portanto, o erotismo anal sucumbe primeiramente à "repressão orgânica", que abriu o caminho para a cultura. O fator social, que cuida da posterior transformação do erotismo anal, mostra-se no fato de que, não obstante todos os progressos evolutivos do ser humano, dificilmente ele acha repulsivo o cheiro de suas próprias fezes, apenas o daquelas de outras pessoas. Quem é sujo, isto é, quem não esconde os próprios excrementos, ofende o outro, não demonstra respeito por ele, o que também é confirmado pelos mais fortes e mais usuais xingamentos. Pois seria incompreensível o fato de o homem utilizar o nome do seu mais fiel amigo no reino animal como termo de insulto, se o cachorro não provocasse o desprezo por duas características: ser um animal de olfato, que não tem horror aos excrementos, e não se envergonhar de suas funções sexuais.


Sigmund Freud. Obras completas, volume 18. Tradução de Paulo César de Souza (Companhia das Letras). 2010. p. 62-63.

domingo, 6 de março de 2011

Ruth Orkin

A mãe foi atriz do cinema mudo. O pai fabricava barcos de brinquedo. Com 10 anos, Ruth ganhou sua primeira máquina fotográfica - custava 39 centavos. Isso foi em 1931, lá pelas voltas de Los Angeles. Em 1938, Ruth pegou sua bicicleta e foi até Nova York, fotografando pelo caminho. Ruth queria ver a Feira Mundial (o nylon era então anunciado ao mundo como uma nova seda sintética). Quatro anos depois ela já estava morando na cidade, tirando fotos de bebês, trabalhando à noite e economizando para comprar sua primeira câmera profissional. As fotos ficaram melhores e ela arranjou trabalho nas principais revistas da época. Em 1951, às custas da revista LIFE, vai para Israel, depois Itália, França, Inglaterra, fotografando lagos, praias, aglomerações, cadeiras de praia vazias. Quando voltou a Nova York, casou com um sujeito que também fotografava e fazia filmes. Eles foram morar perto do Central Park, Ruth afastou-se do fotojornalismo e dedicou grande parte de sua vida profissional, a partir de 1955, a registrar o que via de seu apartamento no 15º andar do Central Park West, 65. Reunidos no livro A world through my window, lançado em 1978, os resultados transmitem a satisfação de Ruth com o que ela considerava uma maneira ideal e duradoura de conciliar os desejos da fotógrafa com os desejos da dona de casa e mãe. Toda dia ela abria a janela da sala e fotografava o que via:

sexta-feira, 4 de março de 2011

Humanismo e massacre

1) Para Peter Sloterdijk, o filme O massacre da serra elétrica marca um ponto de contato entre o arcaico e o moderno. O curioso é que a história do filme se passa no ano de 1973, que, conforme vimos por aqui, é um marco de encerramento do modernismo. Mas não importa - o ponto de Slotedijk é que com O massacre da serra elétrica passamos a experimentar o horror e a violência em níveis semelhantes àqueles encontrados nos espetáculos romanos de morte e carnificina. Não é à toa que a ação de Massacre se dê nas voltas de um matadouro. Mas esse também não é o ponto de Sloterdijk - a reflexão sobre os espetáculos romanos ocupa duas páginas, e a menção ao filme está em uma nota de rodapé. Mas é pra isso que servem as notas de rodapé: para despertar a curiosidade.
2) Está em jogo um controle do humano, que oscila entre os estímulos bestializadores e uma auto-dominação pela via da negação. Há uma correlação entre o controle das massas pelo espetáculo romano e o controle atual pela cultura de massas. Sloterdijk afirma que o que animou o humanismo em seus primórdios foi esse embate entre a contenção (leitura filosófica, disciplina) e a festa (as influências bestializadoras do espetáculo). O controle sobre o sujeito não ocorre quando ele finalmente abandona o espetáculo, pelo contrário: o controle opera na oscilação, na impossibilidade de escolha que gera a domesticação.
3) Algo da ordem do que vemos também hoje: aproveite o crédito, mas aprenda a economizar; aproveite as promoções do Burger King, mas não perca as dicas de saúde do Globo Repórter; compre o último do Sloterdijk, mas não deixe de conferir o filme da Bruna Surfistinha, etc. Não se trata de conferir valor a qualquer um dos lados do binômio (embora percamos tempo com isso também); mas de perder a vida no interminável imperativo de escolher.