segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Nazif Topçuoglu, dança cossaca

As fotos muito perturbadoras de Nazif Topçuoglu:


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Imagens que podem ser tão estranhas quanto um conto de Virgilio Piñera, especialmente um conto de 1957, chamado A montanha:
A montanha tem mil metros de altura. Decidi comê-la pouco a pouco. É uma montanha como todas as montanhas: vegetação, pedras, terra, animais e até seres humanos que sobem e descem por suas encostas.
Todas as manhãs me atiro de boca sobre ela e começo a mastigar o que parecer primeiro. Assim fico várias horas. Volto para casa com o corpo moído e as mandíbulas em brasa. Depois de um breve descanso sento-me no vestíbulo para olhá-la em sua azulada lonjura.
Se eu dissesse estas coisas ao vizinho, decerto se escangalharia de rir ou me tomaria por louco. Mas eu, que sei o que tenho nas mãos, vejo muito bem que ela perde redondez e altura. Então falarão de transtornos geológicos.
Aí está minha tragédia: ninguém vai querer admitir que fui eu o devorador da montanha de mil metros de altura.
Esse tipo de transtorno geológico que encontramos também em Kafka, em seu desejo rigoroso de reduzir tudo aos elementos primordiais. Uma anotação em um caderno de 1922, que Roberto Calasso encontra nos arquivos da Bodleian Library de Oxford, onde estão os manuscritos de Kafka. O visionário de Praga escreve assim:
Como alguém que tem uma casa insegura e quer construir uma outra, segura, ao lado, se possível com o material da antiga. Mas a coisa fica séria se, durante a construção, suas forças o abandonarem e então, em vez de uma casa insegura mas completa, ele ficar com uma casa semidestruída e outra pela metade, ou seja, com nada. O resultado só pode ser a loucura, uma espécie de dança cossaca entre as duas casas, durante a qual o cossaco raspa e revolve a terra com os tacões das botas, até que uma fossa se forme sob seus pés.

Kafka fala do único resultado possível: a loucura. O impossível do desejo: construir uma casa com o material daquilo que se destrói. Kafka fala de uma dança cossaca, uma dança da loucura, na qual se raspa tanto os pés no chão que uma fossa se forma, uma cova, onde finalmente se cai, morto de loucura. Uma dança cossaca que lembra a tarantela, a teatralização da picada mortal, do breve momento que o sujeito não é nem vivo, nem morto, refém do veneno da aranha, da tarântula, em uma oscilação terrível do homem ao animal, e vice-versa - e Deleuze comenta o devir-animal na tarantela em Mil platôs, vol. 4.
Ou seja, com nada.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Flerte fatal

Com dezesseis anos de idade, André Kertész ficou obcecado por uma moça que morava do outro lado da rua, diante da casa de seus pais em Budapeste. Passava horas olhando de sua janela para a janela dela, registrando em seu diário cada ocasião em que a entrevia. A primeira foto que fez ao chegar a Paris em 1925 foi uma vista oblíqua das janelas de um velho prédio do outro lado da rua, feita da janela de seu hotel na rue Vavin. Tendo se interessado pela tomada fotográfica do alto em Paris, Kertész procurou vistas semelhantes quando foi morar em Nova York. Em 1952, quando ele e sua mulher se mudaram para a Quinta Avenida, número 2, indo morar num apartamento no 12º andar com vista o Washington Square Garden, ele já achava que este era seu destino: olhar de sua janela para baixo, como tinha feito na casa dos pais em Budapeste, em 1911-12, e como tinha feito em Paris. A diferença, à medida que envelhecia, era que a neve chegava cada vez mais cedo.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Os dentes

1) Milan Kundera é um grande ensaísta. Muito provavelmente sua reflexão sobre o literário supera seu exercício literário como ficcionista. A arte do romance foi lançado pela Companhia das Letras, assim como A cortina, que é mais recente. Não é possível dizer que Os testamentos traídos seja melhor que esses dois - todos eles são construídos da mesma forma, a partir de fragmentos que vão ecoando temas comuns a partir de exemplos distintos. Os testamentos traídos saiu pela Nova Fronteira em 1994 e está esquecido há bastante tempo. Em 2009, Kundera lançou Une rencontre, novo volume de ensaios - 4 anos depois de A cortina. Une rencontre já está circulando em traduções para o inglês e para o espanhol, e espero que a Companhia das Letras faça o mesmo por aqui. Os temas de Kundera (em todos os livros de ensaios) são os seguintes: muito Kafka, muito Hermann Broch, muito Flaubert, uma proximidade muito salutar com Gombrowicz, uma retomada muito pessoal e instigante de Henry Fielding, contemporâneos em boa quantidade (Roth, Fuentes, G.G. Márquez, Kenzaburo Oe), um pouco de cinema, muito de Rabelais, muito de música (Bartók, Stravinski, Wagner, Schoenberg), muitos nomes obscuros da Europa Central, um pouco de Alejo Carpentier, o suficiente de Hegel e de totalitarismo. E mais, muito mais.
2) Em A cortina, Kundera se demora bastante na questão do prosaico na ficção - o caráter concreto, cotidiano, corporal da vida. Essa é uma conquista do romance, do olhar reiterado sobre o detalhe banal. Não ocorre a Homero perguntar-se se depois de suas inumeráveis lutas Aquiles ou Ájax conservaram todos os dentes, escreve Kundera. O romance fornece os pormenores, permite que os significados aflorem por si mesmos. O paradoxo da forma romanesca: quanto mais próximo dos fatos da vida, maior a evidência do artifício.
3) Duas passagens de Coetzee: primeiro aquela de O mestre de Petersburgo na qual Dostoiévski, sozinho e oprimido pela dor da perda do filho, arrasado pela necessidade que sente de ir atrás do anarquista que provocou a morte de Pável, senta-se na cama e, antes de dormir, retira sua dentadura e a coloca num copo com água, em cima de uma bancada. A segunda, aquela que encontramos em Elizabeth Costello, a passagem que faz referência a Robinson Crusoe e sua descoberta da função do detalhe realista na narrativa: Robinson Crusoe, naufragado na praia, procura em torno os companheiros de navio. Não há nenhum. "Nunca mais os vi", diz, "a não ser três chapéus, um boné, e dois sapatos esquerdos". Dois sapatos, não parceiros: não sendo parceiros, os sapatos deixaram de ser calçados, passaram a ser prova da morte, arrancados dos pés dos afogados pelos mares espumosos, e atirados à praia.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Los sinsabores del verdadero policía

NOTAS DE UMA AULA DE LITERATURA CONTEMPORÂNEA: O PAPEL DO POETA

O mais feliz: García Lorca.
O mais atormentado: Celan e, segundo outros, Trakl, mas havia quem sustentava que os mais atormentados foram os poetas latino-americanos mortos na luta dos anos sessenta e setenta. Alguns disseram: Hart Crane.
O mais bonito: Crevel e Félix de Azúa.
O mais gordo: Neruda e Lezama Lima (ainda que eu tenha lembrado, sem dizer nada, do corpo de baleia de um poeta panamenho chamado Roberto Fernández, fino leitor e amigo muito simpático).
O banqueiro do Espírito: T. S. Eliot.
O mais branco, o banqueiro da alvura: Wallace Stevens.
O fresco no Inferno: Cernuda e Gilberto Owen.
O de rugas mais estranhas: Auden.
O de pior gênio: Salvador Díaz Mirón, segundo outros Gabriela Mistral.
O do pênis mais poderoso: Frank O'Hara.
O secretário do banqueiro da alvura: Francis Ponge.
O que hospedarias em tua casa durante um mês: Amado Nervo.
O que não levarias jamais a tua casa: Opiniões diversas: Allen Ginsberg, Octavio Paz, e. e. cummings, Adrian Henri, Seamus Heaney, Gregory Corso, Michel Bulteau, os irmãozinhos Campos, Alejandra Pizarnik, Leopoldo María Panero e seu irmão mais velho, Jaime Sabines, Roberto Fernández Retamar, Mario Benedetti.
O que levarias ao teu leito de morte: Ernesto Cardenal.
Aquele com quem gostarias de ir ao cinema: Elizabeth Bishop, Berrigan, Ted Hughes, José Emilio Pacheco.
O melhor na cozinha: Coronel Urtecho (mas Amalfitano lembrou e leu para eles Pablo de Rokha e não houve discussão).
O mais ameno: Borges e Nicanor Parra. Outros: Richard Brautigan, Gary Snyder.
O mais lúcido: Martín Adán.
Aquele que não queres ter como professor de literatura: Charles Olson.
Aquele que querias ter como professor de literatura, mas não por muito tempo: Ezra Pound.
Aquele que querias ter como professor de literatura para sempre: Borges.
O mais doente: Vallejo, Pavese.
O que levarias ao teu leito de morte depois de Ernesto Cardenal ter ido embora: William Carlos Williams.
O mais vital: Violeta Parra, Alfonsina Storni (ainda que Amalfitano tenha chamado a atenção para o fato de ambas terem se suicidado), Dario Bellezza.
O mais razoavelmente vivo: Emily Dickinson e Cavafis (ainda que Amalfitano tenha observado que, segundo os cânones vigentes, ambos foram uns fracassados).
O mais elegante: Tablada.
O que melhor posaria de gângster em Hollywood: Antonin Artaud.
O que melhor posaria de gângster em Nova York: Kenneth Patchen.
O que melhor posaria de gângster em Medelin: Álvaro Mutis.
O que melhor posaria de gângster em Hong Kong: Robert Lowell (aplausos), Pere Gimferrer.
O que melhor posaria de gângster em Miami: Vicente Huidobro.
O que melhor posaria de gângster em México D.F.: Renato Leduc.
O mais apático: Daniel Biga, segundo outros Oquendo de Amat.
O melhor mascarado: Salvador Novo.
O mais atacado dos nervos: Roque Dalton. Também: Diane Di Prima, Pasolini, Enrique Lihn.
O melhor companheiro de bebedeira: Citaram uns quarenta nomes, entre eles os de Cintio Vitier, Oliverio Girondo, Nicolas Born, Jacques Prévert e Mark Strand, que segundo afirmaram era um especialista em artes marciais.
O pior companheiro de bebedeira: Maiakovski e Orlando Guillén.
Aquele que dança sem se abalar com a morte americana: Macedonio Fernández.
O mais nosso, o mais mexicano: Ramón López Velarde e Efraín Huerta. Outras opiniões: Maples Arce, Enrique González Martínez, Alfonso Reyes, Carlos Pellicer, o queridinho Villaurrutia, Octavio Paz certamente, e a autora de Rincones románticos (1992), cujo nome ninguém conseguiu lembrar.

Roberto Bolaño, Los sinsabores del verdadero policía, p. 131-133.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

1925

1) Paris, 1925: O jazz encanta a burguesia de vanguarda, que toma de assalto os bares dos negros. Buscam algo exótico, selvagem. Algo que não cheire a história, mas a renovação, modernidade. A Paris da moda é levada pelo som pulsante dos banjos e por Josephine Baker, que, na estréia da "Revue Nègre" em 2 de outubro, contava 19 anos de idade. Um ídolo de aço escuro e bronze, ironia e ouro, disse Jean Cocteau. Seus cabelos curtos, grudados na cabeça com brilhantina, tornaram-se moda para toda uma geração. Josephine mandou estofar os assentos do seu carro com couro de cobra. Seu animal doméstico era um leopardo.
2) Primeiro Manifesto Surrealista. A França está em guerra com rebeldes anticoloniais no Marrocos. Breton e seu grupo ficam ao lado dos insurgentes. Num banquete em homenagem ao poeta Saint-Pol-Roux, um tumulto nasce do atrito entre surrealistas e patriotas conservadores. Gritos, sopapos. Philippe Soupalt, qual Tarzan, se balança no lustre, distribuindo pontapés, derrubando copos e garrafas. Michel Leiris está na janela, xingando a França em direção à massa nas ruas. Leiris, quase linchado, é preso e levado algemado pela polícia.
3) 1925 foi o ano em que Walter Benjamin recebeu o "não" da universidade: Origem do drama barroco alemão foi pesado e considerado insuficiente, estranho, incompleto. Em Paris, nesse ano, Benjamin circulava com Ernst Bloch - uma espécie de Gógol alemão e tardio. Benjamin, em 1925, foi convidado para elaborar o verbete "Goethe" para a Enciclopédia soviética. O pai de Benjamin morre em julho de 1925. Em novembro, depois de tomar algumas surras do serviço secreto soviético, sua amada Asja Lacis sofre um colapso nervoso. Benjamin corre para Moscou e fica lá até 1927. Um pouco antes, em setembro, Benjamin viaja pelo sul da França e lê, pela primeira vez, Tristram Shandy, de Sterne.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Love and Obstacles

MINHA VIDA

1. Nasci.
2. Ando.
3. Cuido de vacas.
4. Deixo minha casa para ir à escola.
5. Volto para casa. Todo mundo feliz.
6. Deixo minha casa para ir à universidade.
7. Estou na aula. Estudo à noite.
8. Vou dar uma volta. Vejo uma guria linda.
9. Meus pais conhecem a guria linda.
10. Caso com a guria linda.
11. Trabalho.
12. Tenho um filho.
13. Estou feliz.
14. Crio abelhas.
15. Tenho uma filha.
16. Estou feliz.
17. Trabalho.
18. Vamos para a praia, depois para as montanhas.
19. Estamos felizes.
20. Meus filhos me beijam.
21. Beijo meus filhos.
22. Minha mulher me beija.
23. Beijo minha mulher.
24. Trabalho.
25. Fim.

Aleksandar Hemon. Love and Obstacles, p. 123-124.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Tartarugas

O pedestre sabia ostentar em certas condições sua ociosidade provocativamente. Por algum tempo, em torno de 1840, foi de bom-tom levar tartarugas a passear pelas galerias. De bom grado, o flâneur deixava que elas lhe prescrevessem o ritmo de caminhar. Se o tivessem seguido, o progresso deveria ter aprendido esse passo.

Walter Benjamin. "Sobre alguns temas em Baudelaire". p. 122.
Mas o tema da tartaruga é bem antigo. Acima, Jovem pescador napolitano brincando com tartagura, de François Rude, apresentado no Salão de 1831. O menino tem um escapulário em volta do pescoço. Rude, o escultor, nunca foi à Itália, mas sua representação não-idealizada da natureza e a ingenuidade de seu objeto causaram furor.
Esta outra peça, Criança brincando com tartaruga, foi feita por Pierre Hébert em 1849 e exposta em 1858. Com uma corda improvisada, feita de cipós e outras fibras, a criança faz da tartaruga um brinquedo. Ao contrário de Rude, não há qualquer indicação histórica na figura - não há chapéu, não há escupulário, não há ofício determinado para o jovem. Da mesma forma, sua tartaruga é ancestral, perdida no caldo amorfo da Antiguidade.