sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Paul-Michel, 4

Nos últimos anos da década de 1970, Paul-Michel não se questiona apenas sobre a matéria e o conteúdo dos livros que está escrevendo. Preocupa-se também com a forma e de modo mais genérico com os problemas da edição. Nesse momento, essa é até uma de suas preocupações essenciais. Paul-Michel acha que a difusão exagerada dos livros de pesquisa prejudica a recepção e gera uma série de incompreensões. Paul-Michel argumenta que quando uma obra ultrapassa o círculo de seus verdadeiros destinatários, ou seja, os pesquisadores que conhecem os problemas abordados e as tradições teóricas às quais se refere, esse livro não produz mais efeitos de saber e sim efeitos de opinião. A principal preocupação de Paul-Michel é evitar os efeitos de opinião. Paul-Michel quer que seus novos livros, publicados pela Gallimard, sejam o ponto de partida para uma coleção que restitua as pesquisas rigorosas, um pouco sufocadas pelas condições da edição e da circulação das ideias. Ele implica com o tratamento preguiçoso das notas de rodapé e da falta de rigor com as informações bibliográficas, entre outros elementos. Paul-Michel tinha em mente as reedições constantes de seu próprio trabalho. Em poucos meses, As palavras e as coisas já ultrapassava os 50 mil exemplares vendidos - e o mesmo aconteceria com Vigiar e punir, alguns anos mais tarde. Paul-Michel sempre recusou a publicação em livro de seus artigos de jornal, feitos, geralmente, no calor da hora de algum evento político muito específico - exemplo interessante dessa dinâmica que rege aquilo que um pensador pode expôr num jornal e aquilo que reserva para seus artigos, seus livros. Quantidade de leitores não traz qualidade de leitura, dizia Paul-Michel.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Paul-Michel, 3

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Paul-Michel, já professor, depois de um tempo dando aulas na Suécia, resolve experimentar a Polônia. Estamos no fim da década de 1950. Paul-Michel, nessa época, ocupou uma série de cargos burocráticos em recantos franceses ao redor do mundo. Dizia, também, que sua sina era vagar pelo mundo, sem estabelecer morada fixa, especialmente na França. Alguns anos depois, tudo mudaria, mas, em outubro de 1958, ele desembarca em Varsóvia. Ele estava lá na função de leitor de um centro de cultura francesa recém-criado no interior da universidade. As relações Leste/Oeste estavam tensas, e a ida de Paul-Michel era mais um elemento em uma campanha de harmonização. Paul-Michel precisa cuidar do tal centro, e começa a providenciar mesas, cadeiras, livros, revistas. Paul-Michel também dá aulas e pronuncia conferências na universidade, onde está ligado ao Instituto de Línguas Românicas da Faculdade de Filosofia Moderna. Oferece um curso sobre teatro francês contemporâneo. Imediatamente seduz os estudantes e seus colegas pela inteligência, pela seriedade, pela gentileza. Paul-Michel se envolve cada vez mais, cria laços. Pronuncia uma série de conferências sobre Apollinaire - uma homenagem ao quadragésimo aniversário de morte do poeta. Faz uma turnê pelo país, de Gdansk a Cracóvia. Nenhum dos muitos projetos que tinha em mente teve continuidade, pois Paul-Michel precisou deixar às pressas o território polonês. A história é muito confusa, mas parece comum nos países do Leste: Paul-Michel conhece um rapaz com o qual começa a viver dias felizes naquele país triste e sufocante. Mas o jovem trabalha para a polícia, que procura se infiltrar nos serviços diplomáticos ocidentais. Certa manhã, o superior de Paul-Michel o alerta: Você precisa sair da Polônia. Paul-Michel, surpreso, pergunta: Quando? A resposta: Nas próximas horas.
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sábado, 9 de outubro de 2010

Paul-Michel, 2

Paul-Michel, além de distribuir murros em seus colegas, gostava muito de ler. Todos lembram com nitidez de sua incrível capacidade de trabalho. Conseguia fazer muitas coisas ao mesmo tempo, levar adiante projetos simultâneos. Lia, escrevia, lecionava. Fazia fichas de forma meticulosa e as organizava em caixas, por assunto, autor e ano. Aos cinqüenta anos, Paul-Michel afirmava ter em casa, guardadas, as fichas que fizera aos vinte anos de idade, na Escola Normal Superior. Nessa época, Paul-Michel começa a aprender alemão para poder ler Heidegger no original. É curioso, também, que suas leituras de filosofia, nessa época, são acompanhadas por leituras de psicologia, intensas na mesma medida. Paul-Michel trabalhou como psicólogo (em um hospital e também em uma prisão), quase como um técnico de psicologia, dos 26 aos 29 anos: examinava internos, detectava traumatismos cranianos, epilepsias larvais, distúrbios neurológicos, aplicava testes de Rorschach, etc. Portanto, além de Marx, Hegel, Nietzsche e Heidegger, Paul-Michel também lê Freud, Binswanger, Marie Bonaparte e Margaret Mead. Mas também consome literatura, e de forma compulsiva. Kafka, que sua geração descobre com entusiasmo e que ele lê em alemão, para se familiarizar com a língua recente. Paul-Michel é um ardoroso divulgador de Faulkner, Gide (que nem precisava tanto assim), Genet, Sade. Paul-Michel começou a ler Bataille e Blanchot por causa de Sartre – que publicou, em 1948, Situações I. Cinco anos mais tarde, em Paris, Paul-Michel assiste a estréia de Esperando Godot. Paul-Michel, muitos anos depois, diria aos entrevistadores: Nessa época eu sonhava ser Blanchot.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Paul-Michel, 1

As coisas, no começo, não foram fáceis para Paul-Michel. Paul porque era o nome do pai (e do avó, e do bisavô). Michel porque a mãe teimou. Paul-Michel nasceu e cresceu em uma cidadezinha escrota no interior da França: Poitiers, que trocou por Paris quando foi se preparar para a Escola Normal Superior (por volta de seus dezoito anos). Paul-Michel era instável, solitário, arisco. Nutria um ódio intenso pelo pai – por isso que, quando finalmente pôde, livrou-se do primeiro nome. Em 1948, já interno da Escola, angustiado pela convivência forçada e pelo clima de competição e vigilância intelectual constantes, tenta o suicídio. Não teve sucesso, mas isso não o impediu de ensaiar o gesto muitas outras vezes ao longo da vida. Paul-Michel era um suicida frustrado e, por isso, Paul-Michel era obcecado pela idéia do suicídio. Depois da tentativa, e depois de uma longa série de conversas, o psiquiatra da Escola (uma das sumidades da psiquiatria francesa) se limita a dizer que os distúrbios provinham de uma homossexualidade muito mal vivida e muito mal assumida. E, de fato, ao voltar de suas expedições noturnas pelos pontos de encontro ou bares homossexuais, o jovem Paul-Michel fica prostrado durante horas, doente, aniquilado pela vergonha. Se não tivesse saído de Poitiers para se enfiar nesse ninho de cobras que é a Escola, nada disso estaria acontecendo. Mas, se nada disso estivesse acontecendo, ele não teria acesso ao quarto isolado da enfermaria, distante dos outros. E às vezes ele pensa: podia ter virado as costas no momento do exame e ter ido embora, não ter mais aparecido nesse lugar deprimente, ter virado as costas quando eles abriram a porta da sala da argüição e disseram Senhor Foucault, é sua vez.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Tabucchi, Lisboa

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1) Dizem que lá pela metade da década de 1990, talvez 1994, 1995, Antonio Tabucchi andava por Lisboa, andava pelos cafés da Baixa, andava pelos lugares que Fernando Pessoa costumava frequentar. Tabucchi usava um pequeno bigode e estava bem mais magro - fazia parte do esforço para caber em ternos retos e miúdos como os que usava Pessoa.
2) Tabucchi, dizem, estava outrando - buscava os restos de Pessoa, ao mesmo tempo em que procurava chamar Pessoa para si, como em uma possessão. Os que viram Tabucchi em Lisboa, por volta de 1994, 1995, afirmam que ele se movia com passos rápidos, olhos baixos, alheio.
3) Tabucchi estava escrevendo Os três últimos dias de Fernando Pessoa, e Lisboa lhe servia de laboratório. Neste livro, Fernando Pessoa recebe a visita de seus heterônimos antes de morrer. Depois de outrar fantasma - ser Fernando Pessoa -, Tabucchi, já do outro lado, retira mais uma camada e solicita os fantasmas de um fantasma. Que língua falam os mortos que retornam à força?, pergunta Tabucchi. Ou, como diria Roberto Bolaño: Que livro você teria coragem de dar a um condenado à morte?
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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Kafka: a convivência impossível

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Kafka desperta o que há de melhor nos críticos. Melhor porque estão na angústia, no desespero permanente de só poder dizer, continuar, repisar, de novo e de novo. Que escolha infeliz, essa, dizem eles. Escolho: Kafka; e não há nada além disso, para sempre. Coetzee, Sebald, Piglia, Bloom, Benjamin, Borges: estão todos lá, prefigurados, antecipados, condensados, perdidos no informe, na derrisão kafkiana. Há um Kafka para cada um que se aproxima - uma porta que leva o nome de cada um, uma extensa escadaria que leva a um lugar conhecido apenas por esse que sobe. Alguns lembram que ele ria quando lia seus textos; talvez isso os dê um pouco de paz. Sebald gostava de pensar nos últimos dias; Kafka na sacada do sanatório, tossindo sangue. Piglia prefere os arroubos de paixão - a paixão mediada (possibilitada) pela ficção - e esse é um dos caminhos escolhidos também por Canetti. Alguns dizem que não há divisão entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos; um dia, tudo fica transparente. A partir disso, vale o esforço de encontrar uma linguagem (Josefina) que dê conta dessa convivência impossível (o caçador Graco).
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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Quantas mortes mais

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1) Saer começou a escrever O grande em 1999. Quando morreu, em 2005, o livro ficou inacabado. O último capítulo ficou com apenas uma frase e o penúltimo, ainda que completo (com o mesmo tamanho dos anteriores, etc), não foi revisado e, por isso mesmo, apresenta alguns cortes bruscos, algumas lacunas (o que não fica nada mau; talvez seja o capítulo mais interessante do livro, justamente por seu caráter provisório - o disforme deixa o ficcional mais atraente).
2) Saer começou a escrever O grande depois de ler Os detetives selvagens - Bolaño havia recebido o Rómulo Gallegos poucos meses antes. Esse contato se faz sentir, fortemente (de resto, é impossível ficar indiferente diante de Os detetives selvagens ("sabia que estava diante de uma obra-prima", disse o editor Herralde); pode-se imaginar, diante disso, o misto de surpresa, deslumbramento, inveja e incredulidade que pode ter sentido Saer diante do livro, do autor e do prêmio - elementos que ofereciam uma oportunidade completamente indesejada de repensar seu próprio percurso, sua obra, seu estilo, os livros que ainda desejava escrever (e talvez esse desejo tenha sido a parte mais atingida no processo)).
3) No penúltimo capítulo de O grande (aquele, o mais interessante), aparece a transcrição do manuscrito que ilumina o contexto histórico e cultural do movimento precisionista - ou seja, a versão saeriana do real-visceralismo (o movimento literário de Os detetives). O precisionismo percorre todo o livro de Saer - é o instrumento narrativo que lhe permite voltar aos anos 1940, 50 e 60 na Argentina (bem como a possibilidade de pensar a sobrevivência desses anos na Argentina do início do século XXI).
4) Saer cria tudo, com calma, com a acumulação progressiva que lhe é tão característica: as revistas literárias, os nomes dos participantes e dos diferentes grupos, os fundadores, os desertores, os visionários, as intrigas, os títulos dos livros, os títulos dos poemas, as motivações, as justificativas políticas, as desculpas estéticas, os precursores, os manifestos, as palavras de ordem, enfim, tudo que arma o precisionismo e seu entorno.
5) Nunca antes na história de sua obra Saer foi tão detido e específico na radiografia de um movimento literário quanto em O grande - tão meticuloso na tarefa de conferir vida própria a figuras que, na página seguinte, já não existirão. O grande não leva o nome em vão: é o maior livro de Saer, levado adiante teimosamente, e seria ainda maior se a morte não o tivesse interrompido (lembre-se do capítulo final com uma única frase).
6) O grande trava uma luta feroz com Os detetives selvagens. O resultado é um produto estranho tanto para os leitores de Saer quanto aos leitores de Bolaño, uma interrupção, uma suspensão. O que mostra que só há choro e ranger de dentes na vida do leitor de um autor só - um leitor marcado por pertecimentos rijos (auto-impostos, ainda por cima). Os personagens-fetiche de Saer, presentes, evidentemente, em O grande, estão ali, mas não confortáveis como sempre estiveram. O lugar, agora, é dos fantasmas - desses homens menores que nunca mais aparecerão.
7) Saer acompanhou a morte de Bolaño durante a escrita de O grande - estava no ponto médio, aquele ponto que já abandonou o início há tempos, mas que ainda não vê sequer sinal do fim (o fim é a angústia rotineira, o pão de cada dia). E no fim, no verdadeiro fim, no inelutável fim, deitado na cama do hospital, Saer pode ter pensado: por deus, quantas mortes mais esse livro terá que ver?
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