segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Histórias de início de livro

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1) São ótimas as histórias de início de livro.
2) Na Serrote 4, logo no início, na carta dos editores, temos a história do ilustrador português Jorge Colombo - a primeira vez que ele ouviu falar da The New Yorker foi em um livro do Erico Verissimo, Gato preto em campo de neve. Colombro diz que leu e releu o livro tantas vezes que até perdeu o exemplar de vista. Muitos anos depois, passa a colaborar com a The New Yorker.
3) Essa ideia do exemplar muitas vezes manuseado, muitas vezes lido, posto embaixo do travesseiro, a leitura como uma labuta que atravessa o tempo, a leitura como um eterno retorno - como naquela história sobre Cazuza e Água Viva, de Clarice Lispector: o cantor riscava um pauzinho no fim do livro, naquelas páginas em branco, a cada releitura que fazia (quem viu o livro afirma que são dezenas de riscos).
4) Ou como naquela história que Foot Hardman conta no posfácio dessa edição recente do Facundo, que saiu pela Cosac Naify: furtaram sua mochila na rodoviária e levaram suas notas sobre e seu exemplar do Facundo. Dias depois, graças à identidade que foi ao lixo junto com o livro, tudo que não havia interessado ao ladrão estava em uma estação qualquer do metrô, nos achados e perdidos.
5) Conta Danilo Kis que, na década de 1950, quando estudava em Belgrado, levava sempre consigo uma edição surrada dos contos de Bruno Schulz. Uma edição grossa, que ele levava sempre do lado de dentro da jaqueta. Não se sabe bem como começou a confusão, mas o fato é que Kis estava no meio e levou uma estocada de algum desconhecido, que fugiu. O canivete furou Bruno Schulz, mas deixou a carne de Danilo Kis intacta.
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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O que continuar dizendo de Hrabal?

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1) Se pensarmos em Uma solidão ruidosa, na história de um homem que prensa livros e papéis imundos das mais diversas procedências (há inclusive um açougue que abastece seu porão regularmente), veremos um homem diante de uma máquina. A máquina responde com eficácia e precisão. O homem com relutância e com desejo.
2) O homem, protagonista e narrador, vive enfiado num buraco, um porão gigantesco onde as pilhas de papel imundo se acumulam. Há colônias de ratos em todos os cantos - não são ratos violentos, demoníacos, assustadores, muito pelo contrário: são pequenos ratos cegos, acostumados com a penumbra do porão, ratos leitores, sobreviventes. A Josefina de Kafka aprendeu o que sabe no porão de Hrabal.
3) Hant'a, esse é o nome do homem que opera a prensa. Ele é um tonto, um idiota, um idiota da família, como o Flaubert de Sartre. Quando a máquina (e o patrão, que grita ameaças do alto, da abertura do porão, lá de onde chove mais e mais refugo e imundície) solicita ação, coordenação, participação (alinhamento, postura condizente, padrão), o idiota responde com o desejo. Um desejo de prefiro não fazer, um desejo de construir uma nova cidade a partir da excrescência, um desejo de literatura menor, um desejo de fazer pela metade, fazer de forma capenga, botar a máquina para girar em falso.
4) Hant'a guarda alguns dos livros que aparecem e os leva para seu apartamento - que está abarrotado por conta dos trinta e cinco anos de coleta. Diante do caos do arquivo, da doença galopante do arquivo que tem um cu aberto que só recebe o podre e o vergonhoso, Hant'a faz seu inventário - ele monta e desmonta, ele delira. Sou um cântaro cheio de água mágica e pura, basta me curvar e um jorro de lindos pensamentos flui, ele diz.
5) O imbecil forma uma conjura, funda uma cidade impossível. O tonto de Hrabal celebra o fracasso, mas celebra o vazio da existência humana com um copo cheio de cerveja (a capacidade da caneca de Hant'a é de 5 litros), exatamente como os idiotas de Flann O'Brien e não como os perdedores de Walser ou Kafka. Eles se encontram na entrada, mas se separam.
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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O que dizer de Bohumil Hrabal?

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1) Eu não sei. Há tantos pontos possíveis de entrada, ao mesmo tempo em que ele está tão distante, no tempo e na geografia. Hrabal nasceu em 1914 e morreu em 1997, ao cair da janela do hospital. Dizem que estava tentando alimentar os pombos, dizem que foi suicídio, já que estava no quinto andar do hospital e, como ele sempre morou no quinto andar e como há muito suicídio em seus livros utilizando o método do mergulho, dizem que foi suicídio.
2) Na década de 1980, Josef Skvorecky disse que Hrabal era um herói na República Checa - intensamente admirado por ter resistido, literariamente, a um regime de homogeneização, investindo em uma escrita escatológica, humorística e profundamente ambígua. Essa resistência estética é duradoura e permite que, trinta anos depois, Hrabal seja um herói também para mim, tão distante, no tempo e na geografia.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Estabilizar a ficção

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Lacan fala que, em determinado momento, a ficção se estabiliza - a ficção, aqui, é a patologia, o delírio de mundo que cada um cria para si, os mecanismos pessoais de organização da neurose, do desconforto. A ficção não pode não se estabilizar - ela é uma palavra depois da outra. Mas é evidente que há uma angústia inerente ao posicionamento fixo, uma coceira. A ficção sempre é situada historicamente, mas a leitura a faz deslizar: Pierre Menard lendo o Quixote, Borges lendo Pierre Menard, Pauls lendo Borges lendo Pierre Menard lendo o Quixote. Há certas ficções que sabem desse imperativo da estabilização e fazem dessa ordem (desse nome do Pai) uma ferramenta, um procedimento de potencialização estética. Um túmulo para Boris Davidovitch - a cartografia múltipla, os pontos de fixação sempre em movimento dão conta da violência do período histórico e do imperativo ficcional. La literatura nazi en América - a agonia da ficção (da movimentação literária, da legibilidade literária): entre a necessidade de estabelecer um sentido e continuar circulando. Há dissonância onde o manual afirma ter coesão. Historia abreviada da literatura portátil. Vodu urbano. São ficções do inventário.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Pais e filhos

Para descansar um pouco da palavra e lembrar como é bom ter um pedaço da gente em casa, que dá risada, atira as coisas no chão antes de comer, dança a vinheta do Jornal Nacional, aprende a dar tchau e dizer lua, bate palmas quando acerta o bloco de plástico dentro da caixa, risca os livros com giz de cera, algumas imagens para celebrar tudo isso.

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