segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Henry Miller e o sonho alheio
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Simone Weil
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Mais do mesmo
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
A literatura norte-americana
1- Ricardo Piglia costumava dizer em entrevistas que a literatura norte-americana era a literatura universal em um único idioma – talvez porque reúna vertentes estilísticas e pertencimentos culturais os mais diversos.
2- Paul Auster dedica Leviatã, seu melhor livro, a Don DeLillo.
3- Nicanor Parra diz que os EUA é o único país onde a liberdade é uma estátua.
4- Auster está próximo de Philip Roth em alguns momentos de idealização da natureza – leitores empenhados de Thoreau e Walt Whitman.
5- Roth foi mais longe: efetivamente se recolheu em uma propriedade isolada no interior.
6- Mas só para ver que a loucura comunitária também estava lá: a agência postal que explode na Pastoral americana, a vergonha que acompanha o retiro do professor em A marca humana.
7- Cultura pop, II Guerra, Guerra do Golfo: temas para Roth, DeLillo, Pynchon, mas Auster fica de fora.
8- Submundo é o grande livro sobre o baseball; O paraíso é bem bacana é o temos sobre o futebol.
9- O primeiro segue a bola, como uma relíquia que capitaliza o tempo e transforma a devoção em mercadoria; o segundo segue um maluco, um Messias de plástico de pouca serventia.
10- A tradição Argentina aglutina: transforma o corpo em relíquia (Evita embalsamada, a mão de Perón e o cadáver de Arlt sobre a cidade).
11- A especificidade norte-americana está na forma ou no estilo?
12- Lolita: um monomaníaco profundamente norte-americano em um estilo completamente estrangeiro.
13- Onde há mais Faulkner: Saer ou McCarthy?
14- Roth ouviu Thomas Mann falar na década de 50, quando estava na universidade em Chicago.
15- O que fica de Cosmópolis, O arco-íris da gravidade e O complexo de Portnoy é o estilo, reverberando no ouvido anos a fio; o que fica de Fogo pálido, Submundo e O avesso da vida é a forma, concatenação, estrutura e inventividade da montagem.
16- Forma e estilo: Enquanto agonizo, Palmeiras selvagens e Meridiano sangrento.
17- Roth casou com uma britânica, Auster com uma escandinava, a mulher de Safran Foer escreve muito melhor que ele, DeLillo trabalhou com publicidade e Gore Vidal é gay.
18- Portnoy tem um glossário de termos judaicos; Vineland tem um glossário de termos televisivos; Libra tem um glossário de termos de espionagem.
19- Lolita escrito por Faulkner: sempre o mesmo vestido, pés descalços, Lolita grávida e sem goma de mascar.
20- Lolita escrito por Don DeLillo: constante cobertura televisiva e fotos de Humbert Humbert nu vendidas a uma revista.
21- Libra escrito por Nabokov: em Moscou, Lee Harvey Oswald descobriria seu destino nas linhas de um poeta simbolista russo, lentamente traduzido no porão de um paiol abandonado.
22- J.M. Coetzee foi preso e expulso dos EUA por causa da Guerra do Vietnã; Giorgio Agamben recusou um cargo na Universidade de Nova Iorque por causa da guerra no Iraque.
23- Terrorista (Updike) é uma tentativa mal-sucedida de inserir a realidade na ficção; Leviatã (Auster) é uma tentativa bem-sucedida de inserir a ficção na realidade.
24- André Breton fez questão de somente falar francês, e de não aprender nenhuma palavra em inglês, na breve estada que desfrutou em Nova Iorque, século passado.
25- “América, 1944: lugar de alucinações febris, sobretudo para os refugiados de língua alemã, expostos ao primeiro e brutal contato com a sociedade industrial pura, muitas vezes com arrepios e recusas diante da ‘mecanização do espírito’. Naquele período, em grande quantidade, houve suicídios e desoladas solidões em apartamentos minúsculos de Nova York ou de Los Angeles. Muitos não resistiram, tornaram-se fantasmas patéticos da velha Europa, restos de uma cultura que ninguém mais tinha vontade de usar.” Roberto Calasso, Os 49 degraus, p. 125.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
A ética da referência
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Muitos autores e pensadores citam muitos outros autores e pensadores. Contudo, dentro desse cenário, é possível esboçar uma gradação de cuidado com a completude da referência. Trata-se, sobretudo, de uma questão de respeito com o leitor, de honestidade intelectual, de espírito de equipe, talvez. De nada me adianta escrever que Fulano disse tal coisa sem me dizer onde e em qual página. Seguir as pistas é uma das partes mais legal do trabalho crítico, e às vezes encontra um beco sem saída por conta dessas omissões. Harold Bloom, por exemplo, a despeito de ser um grande crítico – criativo, corajoso e profundamente comprometido com aquilo que lê – talvez seja o campeão de citar passagens sem dar qualquer indício de referência. E geralmente são coisas completamente obscuras e/ou suplementares, como cartas, prefácios de primeiras edições que ninguém mais tem acesso, coisas nessa linha. Maurice Blanchot também era bastante relapso nesse sentido. Michel Foucault, em alguns ensaios. O campeão da referência é Carlo Ginzburg: tudo escrupulosamente indicado, as páginas, as edições, os textos de apoio, tudo. Cada nota é uma pesquisa à parte.
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
O pé descalço
sábado, 23 de janeiro de 2010
Leituras de férias
As benevolentes, Jonathan Littell: Li “As benevolentes” entre meu aniversário e o Natal, mesmo período no qual li “2666”, um ano antes, em 2008. Os melhores livros nesse espaço de tempo, junto com “Summertime”, “Austerlitz” e “O ano do pensamento mágico”.
Um louco sonha a máquina universal, Janna Levin: Curiosa e criativa ficcionalização da história, feita por uma professora de astrofísica. Mistura Wittgenstein e Kurt Godel, II Guerra, teorias matemáticas – uma linha Literatura & Ciência, como em “A criança no tempo” e “Não me abandone jamais”.
Valfierno, Martín Caparrós: Excelente livro, fala da Monalisa em chave duchampiana: conta a história (“real”) do argentino que, em 1912, roubou a Gioconda do Louvre e vendeu seis cópias para ricaços otários nos EUA.
Contra o Brasil, Diogo Mainardi: Livro hilário de uma das figuras mais relevantes de nosso tempo. Nada mais é que uma compilação das melhores frases ditas sobre o Brasil por uma infinidade de pessoas que passaram por aqui, de estudiosos holandeses do Seiscentos até escritores modernos, tais como: Elizabeth Bishop, John dos Passos, Albert Camus, Giuseppe Ungaretti, Evelyn Waugh (!). Só faltou o Faulkner. Sério, esse livro é imperdível. Vença seus preconceitos! Não seja tão brasileiro!
A literatura vista de longe, Franco Moretti: Uma percepção bem diferente (da minha, por exemplo) da literatura. Interessante, claro, amplia a cabeça da gente. Bastante funcionalista e esquemático. Quantitativo, também. Usa gráficos e tabelas, dados brutos. Vale a pena conferir.
Las conversaciones, César Aira: Show de bola e gol de placa, para usar termos de um tio meu. Um sujeito com insônia narra a conversa que teve durante o dia com um amigo. Falaram de um filme que ambos haviam visto na noite anterior, cada um em sua casa. Só que cada um deles viu pedaços que o outro não viu, o que deflagra um jogo pitoresco de atribuições errôneas e teorias midiáticas. Tony Gilroy deveria ler este livro.
História, arte, cultura: de Aby Warburg a Carlo Ginzburg, José Emilio Burucúa: Esse é teórico. Bem bacana, faz um percurso que abarca as principais realizações críticas no campo da história da arte, partindo de Warburg, o alemão que passou um tempinho com os índios Hopi nos EUA em 1890 e poucos, juntou muitos livros ao longo da vida, passou uns anos no sanatório (1920, 21, por aí) e gerou o Instituto Warburg, agora em Londres, que já abrigou vários grandes nomes do pensamento contemporâneo, entre eles Agamben e Ginzburg (e Panofsky, Gombrich, etc).
