segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Henry Miller e o sonho alheio

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Uma passagem muito interessante no meio da confusão que é Sexus, de Henry Miller: Mona, a nova mulher do narrador-protagonista (que larga mulher e filha para viver este novo grande amor), questionada por este acerca de seus sonhos, demora em responder; em realidade demora dias para responder com algum relato específico de sonho. Ela diz, primeiro, que simplesmente não sonha. Dias depois, Henry nos diz que ela apareceu com relatos curiosos de seus sonhos, histórias sem pé nem cabeça, o que lhe dá certa alegria, já que agora podem conversar sobre esse tópico tão importante para um escritor que são os sonhos.
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Miller guarda esse frescor que não encontramos mais do escritor que acredita no processo inconsciente da escritura, das coisas que afloram quando menos se espera e do dia que se desenrola tendo como único propósito a descoberta desse momento - a partir disso o sujeito, então, fica a vagar e a pedir dinheiro emprestado aos outros, fazendo pouco caso do que dizem ou fazem.
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Folheando os livros da biblioteca da casa onde estão hospedados (Mona e Miller), Henry encontra livros médicos, livros de psicologia, livros com relatos de casos clínicos e coisas diversas nessa linha, com papéis marcando páginas específicas, papéis marcando justamente os relatos de sonhos que fazem parte das análises dos casos clínicos. Henry reconhece os sonhos de Mona - melhor ainda: reconhece partes dos sonhos, muitos trechos de muitos relatos formando um único sonho de Mona. Mona montou seu próprios sonhos a partir dos textos que leu, Mona ficcionalizou o próprio inconsciente a partir dos textos que leu.
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Simone Weil

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Simone Weil foi tema da tese de Giorgio Agamben, está presente em vários escritos de Roberto Calasso e em algumas notas de Ricardo Piglia - e espanta a pouquíssima quantidade de menções a seu trabalho na produção crítica contemporânea. Um dia, muitos anos atrás, encontrei um livro sobre Weil em um sebo no Rio - Al Farabi, se não me engano com o nome, que era a reedição no centro da cidade do finado Boca de Sapo, que era em Ipanema, onde comprei meu primeiro Jogo da Amarelinha. Infelizmente não comprei, e hoje me faz falta.
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Simone Weil trabalhou na fábrica da Renault, para observar de dentro o sistema que criticava. Nossas mulheres de hoje se infiltram em estações de telemarketing para escrever matérias humorísticas para um revista que dezessete pessoas leem em São Paulo.
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Mais do mesmo

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Turim, 3 de janeiro de 1888: Em plena rua, Nietzsche abraça o pescoço de um cavalo caído no chão, brutalmente espancado por um cocheiro. O filósofo beija o animal e começa sua loucura. Dizem que Nietzsche repete uma cena lida: no capítulo 5 da primeira parte de Crime e castigo, Raskolnikov sonha com camponeses bêbados que batem em um cavalo até matá-lo. Dominado pela compaixão, Raskolnikov se abraça ao pescoço do animal caído e o beija.
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Kafka não só transforma um homem em inseto como também conta a história de Bucéfalo, o cavalo de Alexandre; a história da rata Josefina; a história de como Joseph K. morre como um cão; a história do macaco que fala para a Academia; a história do abutre que se afoga no sangue do homem que lhe deixou roer os pés; a história da toupeira gigante que atravessa a vida do mestre-escola da aldeia; a história de um animal singular, um cruzamento, metade gatinho, metade cordeiro.
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Coetzee usa o macaco na Academia, de Kafka, em Elizabeth Costello - usa também a analogia dos campos de concentração nazistas como matadouros de gado. Desonra termina com o abandono do cão que o protagonista tão devotamente havia cuidado - o cão levado à morte marca o ponto que a narrativa abandona a si própria.
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A literatura norte-americana

1- Ricardo Piglia costumava dizer em entrevistas que a literatura norte-americana era a literatura universal em um único idioma – talvez porque reúna vertentes estilísticas e pertencimentos culturais os mais diversos.

2- Paul Auster dedica Leviatã, seu melhor livro, a Don DeLillo.

3- Nicanor Parra diz que os EUA é o único país onde a liberdade é uma estátua.

4- Auster está próximo de Philip Roth em alguns momentos de idealização da natureza – leitores empenhados de Thoreau e Walt Whitman.

5- Roth foi mais longe: efetivamente se recolheu em uma propriedade isolada no interior.

6- Mas só para ver que a loucura comunitária também estava lá: a agência postal que explode na Pastoral americana, a vergonha que acompanha o retiro do professor em A marca humana.

7- Cultura pop, II Guerra, Guerra do Golfo: temas para Roth, DeLillo, Pynchon, mas Auster fica de fora.

8- Submundo é o grande livro sobre o baseball; O paraíso é bem bacana é o temos sobre o futebol.

9- O primeiro segue a bola, como uma relíquia que capitaliza o tempo e transforma a devoção em mercadoria; o segundo segue um maluco, um Messias de plástico de pouca serventia.

10- A tradição Argentina aglutina: transforma o corpo em relíquia (Evita embalsamada, a mão de Perón e o cadáver de Arlt sobre a cidade).

11- A especificidade norte-americana está na forma ou no estilo?

12- Lolita: um monomaníaco profundamente norte-americano em um estilo completamente estrangeiro.

13- Onde há mais Faulkner: Saer ou McCarthy?

14- Roth ouviu Thomas Mann falar na década de 50, quando estava na universidade em Chicago.

15- O que fica de Cosmópolis, O arco-íris da gravidade e O complexo de Portnoy é o estilo, reverberando no ouvido anos a fio; o que fica de Fogo pálido, Submundo e O avesso da vida é a forma, concatenação, estrutura e inventividade da montagem.

16- Forma e estilo: Enquanto agonizo, Palmeiras selvagens e Meridiano sangrento.

17- Roth casou com uma britânica, Auster com uma escandinava, a mulher de Safran Foer escreve muito melhor que ele, DeLillo trabalhou com publicidade e Gore Vidal é gay.

18- Portnoy tem um glossário de termos judaicos; Vineland tem um glossário de termos televisivos; Libra tem um glossário de termos de espionagem.

19- Lolita escrito por Faulkner: sempre o mesmo vestido, pés descalços, Lolita grávida e sem goma de mascar.

20- Lolita escrito por Don DeLillo: constante cobertura televisiva e fotos de Humbert Humbert nu vendidas a uma revista.

21- Libra escrito por Nabokov: em Moscou, Lee Harvey Oswald descobriria seu destino nas linhas de um poeta simbolista russo, lentamente traduzido no porão de um paiol abandonado.

22- J.M. Coetzee foi preso e expulso dos EUA por causa da Guerra do Vietnã; Giorgio Agamben recusou um cargo na Universidade de Nova Iorque por causa da guerra no Iraque.

23- Terrorista (Updike) é uma tentativa mal-sucedida de inserir a realidade na ficção; Leviatã (Auster) é uma tentativa bem-sucedida de inserir a ficção na realidade.

24- André Breton fez questão de somente falar francês, e de não aprender nenhuma palavra em inglês, na breve estada que desfrutou em Nova Iorque, século passado.

25- “América, 1944: lugar de alucinações febris, sobretudo para os refugiados de língua alemã, expostos ao primeiro e brutal contato com a sociedade industrial pura, muitas vezes com arrepios e recusas diante da ‘mecanização do espírito’. Naquele período, em grande quantidade, houve suicídios e desoladas solidões em apartamentos minúsculos de Nova York ou de Los Angeles. Muitos não resistiram, tornaram-se fantasmas patéticos da velha Europa, restos de uma cultura que ninguém mais tinha vontade de usar.” Roberto Calasso, Os 49 degraus, p. 125.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A ética da referência

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Muitos autores e pensadores citam muitos outros autores e pensadores. Contudo, dentro desse cenário, é possível esboçar uma gradação de cuidado com a completude da referência. Trata-se, sobretudo, de uma questão de respeito com o leitor, de honestidade intelectual, de espírito de equipe, talvez. De nada me adianta escrever que Fulano disse tal coisa sem me dizer onde e em qual página. Seguir as pistas é uma das partes mais legal do trabalho crítico, e às vezes encontra um beco sem saída por conta dessas omissões. Harold Bloom, por exemplo, a despeito de ser um grande crítico – criativo, corajoso e profundamente comprometido com aquilo que lê – talvez seja o campeão de citar passagens sem dar qualquer indício de referência. E geralmente são coisas completamente obscuras e/ou suplementares, como cartas, prefácios de primeiras edições que ninguém mais tem acesso, coisas nessa linha. Maurice Blanchot também era bastante relapso nesse sentido. Michel Foucault, em alguns ensaios. O campeão da referência é Carlo Ginzburg: tudo escrupulosamente indicado, as páginas, as edições, os textos de apoio, tudo. Cada nota é uma pesquisa à parte.

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O pé descalço

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Em seu livro “História noturna”, Carlo Ginzburg revela uma série iconográfica que percorre épocas e culturas as mais diversas tendo como ponto recorrente o pé descalço, ou ainda, um único pé descalço. A perda do sapato (da sandália, da meia) indica não só uma caminhada extensa como uma permuta com o mundo dos mortos – ou, pelo menos, uma viagem ao desconhecido que deixa como marca esse vazio. O pé descalço também se desdobra, simbolicamente, no manquejar, no coxear, na perda de um dos membros, nas deformações e nos ferimentos. Exemplos são inúmeros, que são interligados por uma argumentação e uma documentação absurdamente complexas: do calcanhar de Aquiles passando pela luta que Jacó, no Gênesis, teve com o anjo na beira do rio (da qual saiu coxo e com novo nome: Israel); Édipo e seus “pés inchados”, perfurados quando bebê para que não fugisse – Édipo que andava com bengala quando velho, manco exatamente como Tirésias, o adivinho (contato com o mundo dos mortos...); os guerreiros citas que calçavam um único pé (aquele que correspondia ao braço sem o escudo) na preparação para a batalha; a escapulomancia, adivinhação baseada na espádua do animal sacrificado, que, depois de ressuscitar, passa a coxear; Perseu, antes de combater a Górgona, recebe uma das sandálias de Hermes – e o mesmo acontece com Jasão; e, por último, Cinderela, que perde um sapato ao retornar do mundo superior do príncipe.
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Minha contribuição à série é a personagem Boo, do desenho “Monstros S.A”, que, ao entrar no mundo dos monstros, perde uma das meias.
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sábado, 23 de janeiro de 2010

Leituras de férias

  1. As benevolentes, Jonathan Littell: Li “As benevolentes” entre meu aniversário e o Natal, mesmo período no qual li “2666”, um ano antes, em 2008. Os melhores livros nesse espaço de tempo, junto com “Summertime”, “Austerlitz” e “O ano do pensamento mágico”.

  2. Um louco sonha a máquina universal, Janna Levin: Curiosa e criativa ficcionalização da história, feita por uma professora de astrofísica. Mistura Wittgenstein e Kurt Godel, II Guerra, teorias matemáticas – uma linha Literatura & Ciência, como em “A criança no tempo” e “Não me abandone jamais”.

  3. Valfierno, Martín Caparrós: Excelente livro, fala da Monalisa em chave duchampiana: conta a história (“real”) do argentino que, em 1912, roubou a Gioconda do Louvre e vendeu seis cópias para ricaços otários nos EUA.

  4. Contra o Brasil, Diogo Mainardi: Livro hilário de uma das figuras mais relevantes de nosso tempo. Nada mais é que uma compilação das melhores frases ditas sobre o Brasil por uma infinidade de pessoas que passaram por aqui, de estudiosos holandeses do Seiscentos até escritores modernos, tais como: Elizabeth Bishop, John dos Passos, Albert Camus, Giuseppe Ungaretti, Evelyn Waugh (!). Só faltou o Faulkner. Sério, esse livro é imperdível. Vença seus preconceitos! Não seja tão brasileiro!

  5. A literatura vista de longe, Franco Moretti: Uma percepção bem diferente (da minha, por exemplo) da literatura. Interessante, claro, amplia a cabeça da gente. Bastante funcionalista e esquemático. Quantitativo, também. Usa gráficos e tabelas, dados brutos. Vale a pena conferir.

  6. Las conversaciones, César Aira: Show de bola e gol de placa, para usar termos de um tio meu. Um sujeito com insônia narra a conversa que teve durante o dia com um amigo. Falaram de um filme que ambos haviam visto na noite anterior, cada um em sua casa. Só que cada um deles viu pedaços que o outro não viu, o que deflagra um jogo pitoresco de atribuições errôneas e teorias midiáticas. Tony Gilroy deveria ler este livro.

  7. História, arte, cultura: de Aby Warburg a Carlo Ginzburg, José Emilio Burucúa: Esse é teórico. Bem bacana, faz um percurso que abarca as principais realizações críticas no campo da história da arte, partindo de Warburg, o alemão que passou um tempinho com os índios Hopi nos EUA em 1890 e poucos, juntou muitos livros ao longo da vida, passou uns anos no sanatório (1920, 21, por aí) e gerou o Instituto Warburg, agora em Londres, que já abrigou vários grandes nomes do pensamento contemporâneo, entre eles Agamben e Ginzburg (e Panofsky, Gombrich, etc).