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quarta-feira, 19 de maio de 2010

O homem e sua imagem

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  1. Segundo a tradição talmúdica, os demônios são puros espíritos que, tendo sido criados por Deus na sexta-feira à tarde, na hora do crepúsculo, não puderam receber corpo, porque o sábado já havia começado.

  2. Desde então, os demônios tratam insistentemente de procurar um corpo e, com este objetivo, aproximam-se dos homens, tratando de induzí-los a práticas sexuais em que falta o par feminino, para que possam construir um corpo com o sêmen que cai no vazio.

  3. Quando o homem morre, todos os filhos que engendrou ilegitimamente com os demônios, a partir das práticas sexuais ilícitas ao longo da vida, comparecem depois de sua morte para participar do lamento fúnebre.

  4. Essas pequenas formas sem corpo gritam ao redor da tumba: “perdemos nosso pai, perdemos nosso pai!”

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Os demônios estão aí – avatares do mal. Alguns esforços na literatura contemporânea procuram dar conta das sobrevivências dessas imagens – imagens que organizam nosso mundo na medida que são representações de duas estruturas fundadoras, céu e inferno. Paraíso perdido, de Cees Nooteboom, e o anjo como performance, como cosplay e flash mob. Harold Bloom insiste na ligação do Juiz Holden, o maior e melhor personagem de Meridiano sangrento (Cormac McCarthy), com uma esfera super-humana, sobre-humana ou pré-humana – uma espécie de força atávica que irrompe em um momento de desespero. E não essa a mesma impressão que temos com Anton Chigurh, em Onde os velhos não têm vez? Mickey Sabbath, protagonista de O teatro de Sabbath (Philip Roth), além de toda ressonância sabática, religiosa e judaica (lembre o dia de formação dos demônios, lá em cima – e lembre a cena em que Sabbath chora a perda da amada com todos os fluidos de seu corpo em frente à tumba, de madrugada), é, para dizer o mínimo, um péssimo exemplo. Talvez seja possível ler a possessão em Nove noites, de Bernardo Carvalho, na mesma linha.


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  1. Na figura do anjo, origem e fim coincidem. Cada homem é criado segundo a imagem de um anjo que lhe é atrelado no nascimento – e quando morre o homem é levado à conciliação com aquilo que nunca foi.

  2. O anjo que vem ao encontro do homem no juízo final não é a imagem original, mas aquela que o próprio homem cristalizou com suas ações em vida.

  3. A ação final do anjo é como uma memória involuntária que traz imagens que nunca foram vistas, até serem recordadas.

  4. Essa utilização messiânica da memória está na leitura que Benjamin faz de Proust, na leitura que Piglia faz de Kafka através de Tardewski e na leitura que Cortázar faz de Keats, em pleno pampa argentino, em fins da década de 1940.

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quarta-feira, 10 de março de 2010

Livros de ensaios

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Como é difícil escrever um bom ensaio. Envolve um ritmo característico, uma cadência na emissão de julgamentos pessoais, citações, paráfrases. O bom dos ensaios são as informações biográficas e as descobertas editoriais: aquela tentativa de suicídio na juventude, aquele primeiro volume de contos publicado do próprio bolso, as alterações de uma edição para a outra. Um bom ensaio posiciona as próprias lacunas, porque sabe que não pode dizer tudo. Ao posicionar as próprias lacunas, o bom ensaio garante a própria continuidade, porque sabe que será lido, relido e expandido pelo leitor forte (ou desleitura do leitor forte, como quer Harold Bloom).
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Os melhores livros de ensaios lidos nos últimos tempos:

1) Profanações, Giorgio Agamben.
2) Questão de ênfase, Susan Sontag.
3) O fio e os rastros, Carlo Ginzburg.
4) O último leitor, Ricardo Piglia
5) Inner workings, J.M. Coetzee
6) Pequeno manual de procedimentos, César Aira
7) Sob a invocação de São Jerônimo, Valery Larbaud.
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A ética da referência

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Muitos autores e pensadores citam muitos outros autores e pensadores. Contudo, dentro desse cenário, é possível esboçar uma gradação de cuidado com a completude da referência. Trata-se, sobretudo, de uma questão de respeito com o leitor, de honestidade intelectual, de espírito de equipe, talvez. De nada me adianta escrever que Fulano disse tal coisa sem me dizer onde e em qual página. Seguir as pistas é uma das partes mais legal do trabalho crítico, e às vezes encontra um beco sem saída por conta dessas omissões. Harold Bloom, por exemplo, a despeito de ser um grande crítico – criativo, corajoso e profundamente comprometido com aquilo que lê – talvez seja o campeão de citar passagens sem dar qualquer indício de referência. E geralmente são coisas completamente obscuras e/ou suplementares, como cartas, prefácios de primeiras edições que ninguém mais tem acesso, coisas nessa linha. Maurice Blanchot também era bastante relapso nesse sentido. Michel Foucault, em alguns ensaios. O campeão da referência é Carlo Ginzburg: tudo escrupulosamente indicado, as páginas, as edições, os textos de apoio, tudo. Cada nota é uma pesquisa à parte.

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