quinta-feira, 19 de março de 2015

Balões, 6

O Gigante em construção
Existe outro lado da experiência dos balões, o lado que investe não no distanciamento da "realidade terrena", mas em sua reprodução paródica - ou seja, a reconstrução do ambiente burguês em meio às nuvens. Isso fica bastante evidente na descrição que Julian Barnes faz do balão projetado por Nadar:
Tournachon viajou com oito companheiros num aeróstato projetado por ele: "Eu vou construir um balão - o Balão Perfeito - de proporções extraordinariamente gigantescas, vinte vezes maior do que o maior". Chamou-o de O Gigante. Ele realizou cinco voos entre 1863 e 1867. Entre os passageiros deste segundo voo estavam a esposa de Tournachon, Ernestine, os irmãos aeronautas Louis e Jules Godard, e um descendente da família pioneira em balonismo, Montgolfier. Não foi registrado o tipo de comida que eles levaram. (...) Duzentos mil espectadores assistiram a sua primeira subida em que treze passageiros pagaram, cada um, mil francos; o cesto do aeróstato, que parecia um chalé de vime de dois andares, continha uma sala de refeições, camas, um banheiro, um departamento fotográfico e até mesmo uma sala de impressão para produzir folhetos comemorativos instantâneos. 
(Julian Barnes. Altos voos e quedas livres. Trad. Léa Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Rocco, 2014, p. 12-13).
A questão do interior burguês e sua fenomenologia é fundamental para a poética de Huysman, como se vê, por exemplo, em sua evocação de Odilon Redon. A mesma questão é fundamental para Baudelaire e comentada por Benjamin em Um lírico no auge do capitalismo. Poe, que se ocupou intensamente dos balões, também o fez com relação ao interior burguês e sua composição, chegando ao ponto de desenvolver uma "Filosofia da mobília" (No primeiro capítulo de La literatura nazi en América, Bolaño apresenta “Edelmira Thompson de Mendiluce”, autora do romance La habitación de Poe, de 1944, que “prefigurará o nouveau roman e muitas das vanguardas posteriores”, romance baseado precisamente nesse ensaio de Poe sobre a mobília).

quarta-feira, 11 de março de 2015

Balões, 5

A fascinação pelo voo e pelos balões entra pelo século XX e atinge, entre outros, Kafka ("Os aeroplanos em Brescia", conto publicado em 1909) e Robert Walser - Walser publica em 1913 o conto Ballonfahrt, "Viagem de balão". Num primeiro momento, a viagem de balão e o deslocamento aéreo não combinam com aquilo que Walser mostrava em sua vida e em sua poética - se há movimentação em Walser, ela é quase que exclusivamente pedestre, no rastro de Rousseau e dos andarilhos medievais. Em um dos ensaios de seu livro Logis in einem Landhaus, Sebald ressalta justamente esse aparente paradoxo, argumentando que é nesse momento de exceção que Walser mais se revela: "o único momento em que vejo o viajante Robert Walser livre do peso de sua consciência é nessa viagem de balão".
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1) Na história de Walser, três pessoas estão no balão: "o capitão, um cavalheiro e uma jovem moça". O balão é uma "estranha casa", abaixo deles está "o abismo arredondado, pálido, escuro", as casas parecem "brinquedos inocentes", e as florestas "parecem cantar canções obscuras e antiquíssimas". O cavalheiro, que talvez seja uma versão de Walser, usa, "por um capricho", "um chapéu de plumas dos tempos da cavalaria medieval". 
2) A viagem dura a noite inteira e mesmo assim não termina. Começa no entardecer, atravessa a noite, encontra o nascer do sol e segue. Certas passagens dão um tom quase ritualístico, como o de um pacto com a morte e com o vazio: "o rio noturno arranca da moça um leve grito de saudade. No que estará pensando? De um buquê que trouxe consigo, ela retira uma rosa escura, esplêndida, e a arremessa nas águas cintilantes. Belo, atraente abismo! Inúmeras porções de florestas e campos já ficaram para trás; é meia-noite".
3) "Como a terra é grande e desconhecida, pensa o cavalheiro com o chapéu de plumas", o que parece indicar que, para Walser, a viagem de balão é uma espécie de estímulo e confirmação de sua tendência deambulatória anterior e primordial - ainda há muito terreno a ser percorrido. E o final aberto: "o voo segue sempre adiante, o sol magnífico enfim surge, e, atraído por esse astro orgulhoso, o balão dispara rumo a alturas mágicas e atordoantes. A moça solta um grito de medo. Os homens riem".

Robert Walser. "Viagem de balão". Absolutamente nada e outras histórias. Tradução de Sergio Tellaroli. São Paulo: Editora 34, 2014, p. 22-24.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Balões, 4

"...des Esseintes detinha-se mais amiúde diante de outros quadros que ornavam o aposento. Estes estavam assinados: Odilon Redon.

Encerravam, em suas molduras de pereira bruta debruada de ouro, inconcebíveis aparições: uma cabeça de estilo merovíngio pousada sobre uma taça; um homem barbudo, com ares a um só tempo de bonzo e de orador de comício, tocando com o dedo uma colossal bala de canhão; uma aranha assustadora que alojava no meio do corpo uma face humana. Esses desenhos excediam a tudo quanto se possa imaginar; em sua maior parte, ultrapassavam as fronteiras da pintura e inovavam um fantástico muito especial, o fantástico da doença e do delírio.

Tomado de um indefinível mal-estar diante desses desenhos, tanto quanto como diante de certos Provérbios de Goya, que eles faziam lembrar; ou como ao sair de uma leitura de Edgar Poe, cujas miragens de alucinação e cujos efeitos terroríficos Odilon Redon parecia ter transposto numa arte diferente, des Esseintes esfregava os olhos e contemplava um figura radiante que, em meio a essas lâminas agitadas, erguia-se serena e calma, uma figura da Melancolia sentada ante o disco do sol, sobre os rochedos, numa atitude acabrunhada e sombria." (J.-K. Huysmans. Às avessas. Trad. José Paulo Paes. Cia das Letras, 1987, p. 93-95).

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Sociologia e psicanálise

Não existe medida melhor do descrédito estrutural de que goza a sociologia no mundo intelectual, o que se estende a tudo o que a rodeia, do que a comparação do destino que se lhe concede (o mais obscuro dos escritores ou filósofos com veleidades crescerá objetiva e subjetivamente ao exprimir todo o desprezo bem torneado que lhe atribui) ao tratamento concedido à psicanálise, com a qual, não obstante, a sociologia partilha alguns traços importantes, como a ambição de dar conta cientificamente das condutas humanas. Conforme demonstrou Sarah Winter [Freud and the institution of psychoanalytic knowledge], a psicanálise paramentou-se com a universalidade e a grandeza trans-históricas atribuídas pela tradição aos trágicos gregos, sabiamente desistoricizados e universalizados pela tradição escolar. Ao inscrever a nova ciência na filiação da tragédia de Sófocles, um dos florões da Bildung clássica, Freud conferiu-lhe suas credenciais de nobreza acadêmica [e, do lado latino, também com Virgílio, como fica claro na epígrafe da Interpretação dos sonhos]. E Lacan, ao retomar as fontes gregas e propor novas interpretações da tragédia de Sófocles, reativou tal filiação, certificada ainda por uma escrita que acumula as obscuridades e as audácias de um Mallarmé e de um Heidegger.

Pierre Bourdieu. Esboço de auto-análise. Trad. Sergio Miceli. Cia das Letras, 2005, p. 50-51.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Balões, 3

O próprio Odilon Redon, o autor do desenho que mistura o olho ao balão, era também um leitor de Poe, tão dedicado quanto Baudelaire e Valéry. Em 1882, Redon lança um pequeno volume pela editora G. Fischbecher, de Paris, contendo 6 gravuras e intitulado A Edgar Poe. O volume se abre justamente com a imagem do balão-olho, L'oeil, comme un ballon bizarre se dirige vers l'infini. É claro que Redon não ilustra as histórias de Poe; o que parece estar em questão é uma espécie de transposição, ou ainda, um tipo de convivência subjetiva que extrapola a lógica convencional do tempo e do espaço. A prática artística de Redon é articulada em contato direto com a literatura, não apenas Poe e Baudelaire, mas sobretudo o Flaubert de La Tentation de saint Antoine (que é de 1874 - e, numa nota relacionada, é possível relembrar Julian Barnes, que foi quem primeiro falou de Redon, outro leitor de Flaubert que não procura a ilustração, e sim a construção criativa de um espaço de convivência com aquilo que não existe mais). Dario Gamboni, professor de história da arte na Universidade de Genebra, dedicou um livro inteiro à relação de Redon com a literatura, La Plume et le pinceau, de 1989 (mais uma vez, a ênfase de Gamboni não está na possibilidade de ilustração ou adaptação entre texto e imagem, e sim no espaço de convivência possível em fins do século XIX e início do XX no que diz respeito às várias formas artísticas).

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Balões, 2

1) Aquela ideia de Pound de que os artistas são a antena da raça cabe perfeitamente no caso de Edgar Allan Poe - mas com um desdobramento essencial, que não está na exposição de Pound: Poe não só recebe as ondas artísticas, os estímulos estéticos, metodológicos e procedimentais que chegam de todos os cantos (e mesmo do futuro), ele não só recebe, ele também transmite, ou seja, capta, processa, transforma e retransmite (para o outro lado do oceano, para Baudelaire e mais tarde Paul Valéry, o que não deixa de ressoar na própria trajetória de Pound - e também de Eliot).
2) Poe também captou o frenesi dos balões - a inovação tecnológica, a liberdade, a possibilidade de transmissão, deslocamento e travessia (como Julian Barnes com relação ao canal). Em 13 de abril de 1844, Poe publica uma história/notícia/relato no jornal The Sun, de Nova York. Tratava da travessia oceânica feita por Monck Mason em um balão de gás em 75 horas - uma ficção tomada por verdade, que mais tarde levou o título de "The Balloon-Hoax". A notícia da travessia se espalhou e logo uma multidão cercava a sede do jornal procurando por exemplares. Uma retratação foi publicada no dia seguinte.
3) Mas a ideia já estava no ar. Consta que essa ficção-científica primitiva de Poe influenciou diretamente o trabalho de Jules Verne, confesso admirador de Poe - ele não só escreveu Cinq semaines en ballon e Le tour du monde en quatre-vingts jours, mas também um ensaio intitulado Edgar Poe et ses oeuvres (de 1864, trabalho que só foi possível por conta das traduções feitas por Baudelaire). Mas a história de Poe sobre o balão, em 1844, tem raízes em outro conto seu, de 1835: "The Unparalleled Adventure of One Hans Pfaall", a história de um homem que chega à lua viajando de balão. Essa mescla do balão e da lua, e mais o tom soturno que Poe frequentemente dá a suas histórias, evoca o desenho de Odilon Redon, usado por McEwan na capa de Enduring Love, referido por Barnes em Levels of life, e utilizado também como imagem de capa em uma das coletâneas de histórias de Poe.  

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Balões, 1

McEwan e Julian Barnes usam uma mesma referência - ainda que o uso feito por McEwan seja bastante indireto, limitando-se à ilustração da capa da primeira edição de Enduring Love. Em Altos voos e quedas livres, Barnes faz o seguinte comentário à imagem em questão, de autoria de Odilon Redon:

Mas o artista que fez a imagem mais atraente de balonismo foi Odilon Redon, e ele divergiu. Redon tinha visto O Gigante [o balão de Nadar] voando e também o "Grande Balão Cativo" de Henri Giffard, que brilhou nas Exposições de Paris de 1867 e 1878. Nessa segunda data, ele fez um desenho a carvão chamado Balão Olho. À primeira vista, ele parece apenas um truque visual: a esfera do balão e a esfera do olho estão fundidas formando uma só, enquanto uma grande órbita paira sobre uma paisagem cinzenta. O balão olho está com a pálpebra aberta, de modo que os cílios formam uma franja ao redor do topo do dossel. Pendurado no balão há um cesto onde uma figura hemisférica está agachada: a parte de cima de uma cabeça humana. Mas o tom da imagem é novo e sinistro. Não poderíamos estar mais distantes dos sentidos figurados normalmente utilizados para o balonismo: liberdade, exaltação espiritual, progresso humano. O olho eternamente aberto de Redon é profundamente perturbador. O olho no céu; a câmera de segurança de Deus. E aquela cabeça humana nos convida a concluir que a colonização do espaço não purifica os colonizadores; o que aconteceu foi apenas que nós levamos nossa imoralidade para um outro lugar. (tradução de Léa Viveiros de Castro, Rocco, 2014, p. 30-31).