sábado, 28 de fevereiro de 2015

Balões, 4

"...des Esseintes detinha-se mais amiúde diante de outros quadros que ornavam o aposento. Estes estavam assinados: Odilon Redon.

Encerravam, em suas molduras de pereira bruta debruada de ouro, inconcebíveis aparições: uma cabeça de estilo merovíngio pousada sobre uma taça; um homem barbudo, com ares a um só tempo de bonzo e de orador de comício, tocando com o dedo uma colossal bala de canhão; uma aranha assustadora que alojava no meio do corpo uma face humana. Esses desenhos excediam a tudo quanto se possa imaginar; em sua maior parte, ultrapassavam as fronteiras da pintura e inovavam um fantástico muito especial, o fantástico da doença e do delírio.

Tomado de um indefinível mal-estar diante desses desenhos, tanto quanto como diante de certos Provérbios de Goya, que eles faziam lembrar; ou como ao sair de uma leitura de Edgar Poe, cujas miragens de alucinação e cujos efeitos terroríficos Odilon Redon parecia ter transposto numa arte diferente, des Esseintes esfregava os olhos e contemplava um figura radiante que, em meio a essas lâminas agitadas, erguia-se serena e calma, uma figura da Melancolia sentada ante o disco do sol, sobre os rochedos, numa atitude acabrunhada e sombria." (J.-K. Huysmans. Às avessas. Trad. José Paulo Paes. Cia das Letras, 1987, p. 93-95).

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Sociologia e psicanálise

Não existe medida melhor do descrédito estrutural de que goza a sociologia no mundo intelectual, o que se estende a tudo o que a rodeia, do que a comparação do destino que se lhe concede (o mais obscuro dos escritores ou filósofos com veleidades crescerá objetiva e subjetivamente ao exprimir todo o desprezo bem torneado que lhe atribui) ao tratamento concedido à psicanálise, com a qual, não obstante, a sociologia partilha alguns traços importantes, como a ambição de dar conta cientificamente das condutas humanas. Conforme demonstrou Sarah Winter [Freud and the institution of psychoanalytic knowledge], a psicanálise paramentou-se com a universalidade e a grandeza trans-históricas atribuídas pela tradição aos trágicos gregos, sabiamente desistoricizados e universalizados pela tradição escolar. Ao inscrever a nova ciência na filiação da tragédia de Sófocles, um dos florões da Bildung clássica, Freud conferiu-lhe suas credenciais de nobreza acadêmica [e, do lado latino, também com Virgílio, como fica claro na epígrafe da Interpretação dos sonhos]. E Lacan, ao retomar as fontes gregas e propor novas interpretações da tragédia de Sófocles, reativou tal filiação, certificada ainda por uma escrita que acumula as obscuridades e as audácias de um Mallarmé e de um Heidegger.

Pierre Bourdieu. Esboço de auto-análise. Trad. Sergio Miceli. Cia das Letras, 2005, p. 50-51.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Balões, 3

O próprio Odilon Redon, o autor do desenho que mistura o olho ao balão, era também um leitor de Poe, tão dedicado quanto Baudelaire e Valéry. Em 1882, Redon lança um pequeno volume pela editora G. Fischbecher, de Paris, contendo 6 gravuras e intitulado A Edgar Poe. O volume se abre justamente com a imagem do balão-olho, L'oeil, comme un ballon bizarre se dirige vers l'infini. É claro que Redon não ilustra as histórias de Poe; o que parece estar em questão é uma espécie de transposição, ou ainda, um tipo de convivência subjetiva que extrapola a lógica convencional do tempo e do espaço. A prática artística de Redon é articulada em contato direto com a literatura, não apenas Poe e Baudelaire, mas sobretudo o Flaubert de La Tentation de saint Antoine (que é de 1874 - e, numa nota relacionada, é possível relembrar Julian Barnes, que foi quem primeiro falou de Redon, outro leitor de Flaubert que não procura a ilustração, e sim a construção criativa de um espaço de convivência com aquilo que não existe mais). Dario Gamboni, professor de história da arte na Universidade de Genebra, dedicou um livro inteiro à relação de Redon com a literatura, La Plume et le pinceau, de 1989 (mais uma vez, a ênfase de Gamboni não está na possibilidade de ilustração ou adaptação entre texto e imagem, e sim no espaço de convivência possível em fins do século XIX e início do XX no que diz respeito às várias formas artísticas).

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Balões, 2

1) Aquela ideia de Pound de que os artistas são a antena da raça cabe perfeitamente no caso de Edgar Allan Poe - mas com um desdobramento essencial, que não está na exposição de Pound: Poe não só recebe as ondas artísticas, os estímulos estéticos, metodológicos e procedimentais que chegam de todos os cantos (e mesmo do futuro), ele não só recebe, ele também transmite, ou seja, capta, processa, transforma e retransmite (para o outro lado do oceano, para Baudelaire e mais tarde Paul Valéry, o que não deixa de ressoar na própria trajetória de Pound - e também de Eliot).
2) Poe também captou o frenesi dos balões - a inovação tecnológica, a liberdade, a possibilidade de transmissão, deslocamento e travessia (como Julian Barnes com relação ao canal). Em 13 de abril de 1844, Poe publica uma história/notícia/relato no jornal The Sun, de Nova York. Tratava da travessia oceânica feita por Monck Mason em um balão de gás em 75 horas - uma ficção tomada por verdade, que mais tarde levou o título de "The Balloon-Hoax". A notícia da travessia se espalhou e logo uma multidão cercava a sede do jornal procurando por exemplares. Uma retratação foi publicada no dia seguinte.
3) Mas a ideia já estava no ar. Consta que essa ficção-científica primitiva de Poe influenciou diretamente o trabalho de Jules Verne, confesso admirador de Poe - ele não só escreveu Cinq semaines en ballon e Le tour du monde en quatre-vingts jours, mas também um ensaio intitulado Edgar Poe et ses oeuvres (de 1864, trabalho que só foi possível por conta das traduções feitas por Baudelaire). Mas a história de Poe sobre o balão, em 1844, tem raízes em outro conto seu, de 1835: "The Unparalleled Adventure of One Hans Pfaall", a história de um homem que chega à lua viajando de balão. Essa mescla do balão e da lua, e mais o tom soturno que Poe frequentemente dá a suas histórias, evoca o desenho de Odilon Redon, usado por McEwan na capa de Enduring Love, referido por Barnes em Levels of life, e utilizado também como imagem de capa em uma das coletâneas de histórias de Poe.  

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Balões, 1

McEwan e Julian Barnes usam uma mesma referência - ainda que o uso feito por McEwan seja bastante indireto, limitando-se à ilustração da capa da primeira edição de Enduring Love. Em Altos voos e quedas livres, Barnes faz o seguinte comentário à imagem em questão, de autoria de Odilon Redon:

Mas o artista que fez a imagem mais atraente de balonismo foi Odilon Redon, e ele divergiu. Redon tinha visto O Gigante [o balão de Nadar] voando e também o "Grande Balão Cativo" de Henri Giffard, que brilhou nas Exposições de Paris de 1867 e 1878. Nessa segunda data, ele fez um desenho a carvão chamado Balão Olho. À primeira vista, ele parece apenas um truque visual: a esfera do balão e a esfera do olho estão fundidas formando uma só, enquanto uma grande órbita paira sobre uma paisagem cinzenta. O balão olho está com a pálpebra aberta, de modo que os cílios formam uma franja ao redor do topo do dossel. Pendurado no balão há um cesto onde uma figura hemisférica está agachada: a parte de cima de uma cabeça humana. Mas o tom da imagem é novo e sinistro. Não poderíamos estar mais distantes dos sentidos figurados normalmente utilizados para o balonismo: liberdade, exaltação espiritual, progresso humano. O olho eternamente aberto de Redon é profundamente perturbador. O olho no céu; a câmera de segurança de Deus. E aquela cabeça humana nos convida a concluir que a colonização do espaço não purifica os colonizadores; o que aconteceu foi apenas que nós levamos nossa imoralidade para um outro lugar. (tradução de Léa Viveiros de Castro, Rocco, 2014, p. 30-31).

sábado, 31 de janeiro de 2015

Balões

Nadar no balão, 1863
1) O balão aparece na ficção de três autores britânicos: Julian Barnes, Ian McEwan (Enduring Love) e Tom Stoppard. Em Levels of Life - traduzido no Brasil como Altos voos e quedas livres -, Barnes usa o tema do voo e do balonismo como estratégia para lidar com o luto pela morte da esposa - o luto como uma situação extrema que o faz ver o mundo de uma perspectiva antes inimaginável. É isso que ele procura também em três pioneiros do balonismo: Felix Nadar, Sarah Bernhardt e o menos conhecido coronel Fred Burnaby.
2) A abertura de Levels of Life é significativa: "Você liga duas coisas que nunca foram ligadas antes. E o mundo é transformado". Luto e balonismo, por exemplo. No caso de Barnes, os temas do balonismo e da ligação ressoam um pouco mais, numa dimensão bastante material e geográfica - a transposição do Canal da Mancha, por exemplo, atividade aparentemente simples mas carregada de drama histórico (Burnaby, inglês, é o único dos três pioneiros que atravessa o canal - English Channel para ele e para Barnes). Não foi sempre esse um dos desejos de Barnes? Mostrar que a travessia é possível? O exemplo imediato é O papagaio de Flaubert, mas existem outros.  
3) Em Lord Malquist and Mr. Moon, seu único romance, publicado em 1966, Stoppard arma uma trama  tão bizarra que é impossível de ser resumida. Nota-se que no romance Stoppard faz uso intenso de sua condição "extraterritorial", nem tcheco, nem súdito britânico, mas intensamente ambos - pois se os cenários e os personagens de Lord Malquist são londrinos (em seus gestos e termos), o encadeamento absurdo de fatos e ações, além do permanente tom entre onírico e debochado, nos coloca diretamente no universo de Hrabal e Bruno Schulz. Mr. Moon, seu personagem, coloca uma bomba caseira dentro de um balão que sobrevoa Trafalgar Square - nele está escrito GOD SAVE THE QUEEN, e, quando explode, a multidão vai ao delírio. Mr. Moon passa o romance esperando a oportunidade para detonar sua bomba, que leva no bolso, como esforço de denúncia da "modern life" - eis uma constelação que leva aos terroristas/anarquistas de Dostoiévski e Conrad; ao Caminho de Ida de Piglia; ao belíssimo romance de Aleksandar Hemon, O projeto Lazarus, etc. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Blanchot, Broch, Derrida

A morte de Virgílio, de Hermann Broch, alcança Blanchot por conta da percepção que transmite, percepção de um corte da experiência, ou ainda, da inauguração incessante de uma experiência de morte - porque Virgílio não cessa de morrer, essa é a leitura que Blanchot faz do romance de Broch. E alcança Blanchot também por seu posicionamento histórico dramático e preciso - 1945 - e toda ressonância que essa posição provoca no próprio Blanchot - basta lembrar O instante da minha morte, conto que Blanchot publica em 1994, mas que remonta à sua experiência de quase morte diante de um pelotão de fuzilamento nazista, resgatado e comentado por Derrida em Demeure.
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Como faremos para desaparecer?, essa é a pergunta que dá o norte de O livro por vir, que sob certa perspectiva se apresenta como o relatório de Blanchot - feito de vários fragmentos, de vários comentários sobre outros livros e outras buscas - acerca daquilo que encontrou (ou não) em sua busca pela experiência da morte (e seus variados avatares - a exaustão, o neutro, o silêncio, o vazio). Sobre Mallarmé, em O livro por vir, Blanchot escreve: "o poeta desaparece sob a pressão da obra pelo mesmo movimento que faz desaparecer a realidade natural" (trad. Leyla Perrone-Moisés, WMF Martins Fontes, 2013, p. 334). Por isso a recorrência desses momentos de suspensão na escrita crítica de Blanchot, sua deliberada e meticulosa seleção de momentos de suspensão - o tênue fio que liga sentido e não-sentido em sua discussão sobre o símbolo (Mallarmé, Valéry); a espera de Godot em Beckett; a porta da Lei em Kafka; a morte como recorrência e imagem poético-histórica em Hermann Broch.