sábado, 8 de novembro de 2014

Michon, Foucault (2)

1) Foi na revista Critique - fundada por Bataille em 1946 -, na edição 178, março de 1962, que Foucault publicou "O 'não' do pai", Le 'non' du père, sua resenha ao livro de Jean Laplanche, lançado no ano anterior, Hölderlin e a questão do pai. Assim como não é possível entender a formação de Michon como leitor sem as revistas, não é possível entender a formação de Foucault como escritor sem considerar o mesmo processo - como visto, "A vida dos homens infames", texto seminal, saiu na Cahiers du chemin, revista que publicou também seu texto sobre Magritte, "Isto não é um cachimbo". 
2) Há um ponto específico que permite a aproximação entre Michon e o Foucault de "O 'não' do pai": parte da argumentação contida nesse ensaio de Foucault sobre Hölderlin funciona como imagem especular tanto das "vidas infames" quanto das Vidas minúsculas. No meio do texto, numa de suas digressões tão exercitadas, Foucault comenta Vidas dos artistas, de Giorgio Vasari, chamando a atenção para o modo heroico e épico que Vasari escolhe para retratar suas vidas - ressaltando especialmente certo caráter predestinado dos grandes artistas (Giotto desenhando nas pedras e sendo descoberto por Cimabue; Verrocchio abandonando a pintura quando vê um desenho de Da Vinci; Ghirlandaio inclinando-se diante de Michelangelo), um registro triunfalista que será completamente estranho tanto aos "infames" quanto aos "minúsculos". 
3) Mas Hölderlin também interrompe esse registro, argumenta Foucault, quando passa a pensar "a ligação entre a obra e a ausência de obra", ou seja, a loucura - daí também o uso do non du père, ou do nom du père, jogo polissêmico usado por Lacan para resgatar o Freud de Totem e tabu em seu seminário sobre as psicoses (1955-1956). O "não" do pai como ausência de obra e, consequentemente, como fuga do registro triunfalista e abertura para o efêmero, o infame e o minúsculo, aquilo que não é digno de nota (é importante que seja justamente em Critique que encontremos esse texto de Foucault, e aí voltamos ao ponto inicial: Foucault vai alcançar, na revista fundada por Bataille, uma recusa da obra triunfalista que casa perfeitamente com a noção de dépense de Bataille, ou seja, o gasto, a inutilidade, a excentricidade de uma combustão não-triunfalista, minúscula, subalterna).

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Michon, Foucault (1)

Michon, na conversa com Arlette Farge, não tinha certeza de onde tinha lido "A vida dos homens infames", o texto de Foucault - na Nouvelle Revue Française ou na Cahiers du chemin? 1977 ou 1978? Foi em 1977, no número 29 da revista Cahiers du chemin, que Foucault publica "A vida dos homens infames", revista fundada por Georges Lambrichs (que primeiro trabalhou na Minuit, editando Beckett, e em seguida passou à Gallimard). A Cahiers du chemin durou 30 números, de 1967 a 1977 - Foucault publica "A vida dos homens infames" no penúltimo número da revista, portanto -, e a partir de 1977 ela se funde à Nouvelle Revue Française (talvez por isso a incerteza de Michon entre uma e outra?).
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Michon se define, indiretamente, na entrevista, como um leitor de revistas - um leitor das revistas que surgiam no contexto francês das décadas de 1960 e 1970 (Michon estudou na universidade de Clermont-Ferrand na década de 1960, justo no período em que Foucault era ali diretor do Instituto de Psicologia). Não apenas lendo Foucault na Cahiers du chemin, mas também Barthes, Kristeva e Pleynet na Tel Quel (fundada por Philippe Sollers em 1958, durando até 1982) ou na Critique (fundada por Georges Bataille em 1946), lendo, enfim, o presente, em busca de algo que talvez não soubesse bem o quê (lembremos que Michon é um escritor tardio e como, em Vidas minúsculas, ele faz dessa decisão tardia de escrever matéria de ficção) e que talvez continue buscando ainda hoje.
     

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Michon, Foucault

No terceiro número da revista Cahiers de la Villa Gillet, de novembro de 1995, número temático dedicado ao "testemunho", a historiadora Arlette Farge (autora de O sabor do arquivo) conduz uma entrevista com Pierre Michon, tendo Michel Foucault como tema principal. "Você leu Foucault?", pergunta Farge; e antes da resposta, deixa sua pergunta mais precisa: "você leu, por exemplo, 'A vida dos homens infames', de Foucault?". Farge e Michon falavam sobre Vidas minúsculas, o primeiro livro de Michon, publicado em 1984, ano da morte de Foucault, daí a aproximação com as "vidas infames". "Não sou leitor de filosofia", responde Michon, "mas esse texto, 'A vida dos homens infames', eu com certeza li - li em 1977 ou 1978", continua Michon, "na Nouvelle Revue Française ou na Cahiers du chemin e teve uma influência direta sobre mim". E Michon conclui dizendo: "foi provavelmente daí que tirei o título de meu livro. Foucault foi um dos destinatários secretos de Vidas minúsculas".  

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Tradução, intervenção

A tradução de Auerbach, edição de 1966
A tradução como resposta ao tempo presente, resposta à dimensão restritiva do tempo histórico dado - a tradução, o objeto, o texto traduzido funcionando como elemento que rompe o tempo linear e progressivo, o tempo acumulativo, instaurando um tempo que vai aos saltos (o modelo do cairós, de que fala Agamben em Infância e história). Auerbach traduzindo a Ciência nova de Vico nos primeiros anos da década de 1920, por exemplo, com a publicação em 1924 (Munique: Allgemeine Verlagsanstalt) acompanhada de uma apresentação programática - cuja tônica indicava um desejo de menos nacionalismo e mais Weltliteratur. A tradução que Walter Benjamin faz, com Franz Hessel, da Recherche de Proust - o primeiro volume em 1926, o segundo em 1930, rompendo o tecido homogêneo da literatura nacional com um objeto estranho, excessivo e caudaloso, que salta no tempo, trabalhando na associação selvagem de suas múltiplas camadas de sentido (como acontece no Livro das Passagens). Warburg traduzindo Atenas em Oraibi em 1923, Isaac Babel traduzindo Maupassant na União Soviética em 1932, Bataille traduzindo Nietzsche na Documents em 1929, etc.   

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Pensador, ouvinte

1) E se o Pensador fosse, na verdade, um Ouvinte? Ou melhor, se fosse pensador na medida em que se instaura como ouvinte? No tratado Sobre a vida contemplativa, Fílon de Alexandria discorre sobre a relação entre silêncio e escuta e sugere a escolha (o cultivo) de uma postura fixa para o ritual da escuta - Foucault comenta esse tratado em uma conferência dada em 1982 nos Estados Unidos, "As técnicas de si": em Sobre a vida contemplativa, Fílon de Alexandria "descreve os banquetes do silêncio, que não têm nada a ver com esses banquetes de devassidão, em que há vinho, rapazes, orgias e diálogo. Aqui, é um professor que oferece um monólogo sobre a interpretação da Bíblia e dá indicações muito precisas sobre a maneira como convém escutar. Por exemplo, é preciso assumir sempre a mesma postura quando se escuta." (Dits et Écrits, vol. IV, texto nº 363). 
2) É significativo que o projeto inicial de Rodin tenha sido o de abarcar, nessa imagem, a partir de Dante, tanto o poeta quanto o pensador - pois na estátua temos também Dante diante do Inferno, ou ainda, Dante simultaneamente diante do Inferno e de seu poema. Se lhe chegam vozes vindas do Inferno, e se essas vozes configuram a espessura poética da Comédia, é precisamente aí que o pensador se instaura necessariamente como ouvinte, dois lados entre muitos na emergência contingente do poeta.
3) Pose e situação são análogas àquelas do Moisés do Antigo Testamento, em parte figurado por Michelangelo - o pensador-poeta-ouvinte sentado na pedra, a mesma pedra que feriu com seu cajado para dela extrair água, ouvinte em sua relação com o povo (essas vozes vindas de uma espécie de Inferno, o deserto), poeta em sua relação com Deus (é ele quem porta a palavra). Não é Moisés um dos principais modelos de Freud? Ao abrir seu Traumdeutung, sua interpretação dos sonhos, Freud não evocou justamente Virgílio na epígrafe, aquele mesmo Virgílio que serviu de guia a Dante? Freud resgata uma frase da Eneida, Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo, se não dobro poderes elevados, moverei o Inferno - ou seja, atento ao abismo do inconsciente, pensador-ouvinte (escuta-dor, diria Lacan? ou Joyce?), sempre na mesma postura, com essa "atenção flutuante" de que fala Freud em "Recomendações ao médico que pratica a psicanálise", de 1912, uma sorte de escuta contemplativa, aberta e porosa àquilo que ainda não se sabe, aberta àquilo que não se espera. 

domingo, 12 de outubro de 2014

Senhores e criados

 1) Na obra de Pierre Michon, o arco que leva de Vidas minúsculas (1984) a Senhores e criados (1990) é breve, mas aponta para uma mudança substancial com relação ao foco que apreende essas vidas - sem escapar desse interesse biográfico, Michon consegue transformar o tema. Essa transformação está diretamente ligada ao abandono daquela voz narrativa centrada que encontramos em Vidas minúsculas, ligada de forma bastante introspectiva ao próprio Michon, sua infância, suas hesitações com relação à escrita, etc.
2) A edição brasileira de Senhores e criados acrescenta dois outros textos de Michon: Vida de Joseph Roulin, de 1988, sendo, portanto, anterior à edição original de Senhores e criados, e O rei do bosque, de 1992, sendo, portanto, posterior à edição original de Senhores e criados. Temos a seguinte linha cronológica à disposição: Vidas minúsculas (1984), Vida de Joseph Roulin (1988), Senhores e criados (1990) e O rei do bosque (1992). Os três últimos títulos são ficções que trabalham com vidas de pintores: Francisco Goya, Antoine Watteau, Piero della Francesca, Vincent van Gogh e Claude Lorrain.
3) Vida de Joseph Roulin é precisamente aquilo que indica - um fragmento da vida de Roulin, funcionário dos Correios em Arles, no sul da França, cujo retrato foi pintado por Van Gogh várias vezes. O que é importante notar é que parte do procedimento presente em Vidas minúsculas permanece em Joseph Roulin, mas invertido: se a voz narradora e sua subjetividade eram aos poucos delineadas a partir do confronto com essas vidas alheias em Vidas minúsculas, no caso de Roulin há também uma subjetividade forte e dominante, aquela de Van Gogh, que é resgatada, no entanto, sempre de forma indireta, oblíqua, através da vida de Roulin, o carteiro. A história narra a progressiva e penosa conscientização que Roulin alcança do fato de que Van Gogh era um grande pintor, e não apenas o excêntrico ridicularizado pela vila. Isso acontece quando um homem aparece em sua casa querendo comprar o quadro que van Gogh lhe havia dado: "Devia àquele rapaz ter conhecido um grande pintor, ter visto e tocado uma coisa de certa forma invisível, não apenas um pobretão a quem dão geleias" (Senhores e criados, trad. André Telles, Record, 2010, p. 47).  

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Outras vidas

1) Em Vidas minúsculas (1984), Pierre Michon persegue a si próprio, persegue esse Pierre Michon que existia antes da escritura, por isso a frequente enunciação - depois que a narrativa ultrapassa certo ponto cronológico equivalente à maturidade - de certa incapacidade de escrita, culminando numa relação muito particular com o arquivo, com a tradição, relação essa condensada naquela cena do narrador que carrega uma mala (a arca, a arkhé, o arquivo) cheia de livros inúteis debaixo da chuva. As vidas minúsculas servem para delinear de forma contrapontística essa identidade incapaz, impossível e incompleta
2) Em Bruce Chatwin, por outro lado, em Colina negra (1982), encontramos o mesmo resgate do cenário da infância, o mesmo interior do país povoado de figuras arcaicas (a França para Michon, a Inglaterra para Chatwin) e suas relações com a terra e a técnica, mas não há a emergência dessa subjetividade diante da escrita - o narrador é mantido de fora, não-problematizado. Um ponto intermediário está em Sebald, Os emigrantes (1992): não encontramos nem a proximidade constante do narrador de Michon, nem o distanciamento quase cirúrgico (os capítulos curtos, os vertiginosos e incrivelmente competentes ajustes de foco, do geral ao particular em um breve parágrafo) de Chatwin em Colina negra (lembrando quão atípico é esse livro no contexto geral da obra de Chatwin).
3) Algo disso ecoa em Alice Munro, A vista de Castle Rock (2006), seu livro híbrido, entre a ficção e a memória, entre o resgate das origens familiares e a imaginação narrativa: "há uns dez ou doze anos", escreve ela, "passei a ter um interesse mais que fortuito pela história de um lado de minha família", "não eram conhecidos nem prósperos e viviam no vale do Ettrick", na Escócia, "alguns personagens se me apresentaram em suas próprias palavras, outros brotaram das situações. Suas palavras e as minhas, uma curiosa recriação de vidas, em um contexto que era tão fiel quanto pode ser nossa noção do passado". O material da família se misturou a um "conjunto especial de histórias": "colocava-me a mim mesma no centro", escreve Munro, "e escrevia sobre esse eu, do modo mais inquisitivo que conseguia", "mas as figuras em torno desse eu assumiam sua própria vida e feições e faziam coisas que não tinham feito na realidade" (A vista de Castle Rock, trad. Cid Knippel, Globo, 2014, p. 9-11).