domingo, 30 de junho de 2013

Literatura burguesa até a medula

1) A linguagem é fascista porque obriga a dizer, afirma Barthes na Aula. O projeto ficcional de Thomas Bernhard parece tanto um questionamento quanto uma aplicação dessa máxima. Aquilo que obriga Bernhard a usar a linguagem de forma maníaca é precisamente seu desgosto diante de uma visão de mundo que se apresenta como imutável ou tradicional - aquilo que é herdado, que é estabelecido, o familiar, tudo de bom tom e de bom gosto, é esse conjunto de premissas sociais que desperta o ódio de Bernhard. Mas o caráter fascista da linguagem é, de certa forma, também um espelhamento do aberto fascismo comportamental (no passado e no presente) de tantos personagens de Bernhard (especialmente o pai em Extinção).
2) Nada de humanista em Thomas Bernhard - nesse ponto ele está com Heidegger e seu questionamento da necessidade de resgatar o valor do humanismo e de suas práticas. Em Bernhard, o humanismo é traduzido pelas convenções, pela opressão da casa paterna e pelo intenso e contínuo trabalho de recalcamento do estrangeiro, do atípico, do desvio. É por isso que em Extinção o narrador Murau se exila em Roma. Tudo que diz respeito à casa paterna está corrompido - é falso e postiço, ou, em última análise, "burguês": uma literatura pequeno-burguesa é o que temos diante de nós quando temos diante de nós a literatura alemã, mesmo os grandes exemplos dessa literatura alemã não são outra coisa, Thomas Mann, o próprio Musil. Essa literatura é burguesa até a medula (Extinção, tradução de J. M. Mariani de Macedo, p. 445).
3) O pai de Murau é apresentado como um "nazista forçado" e sua mãe como uma "nacional-socialista histérica". Eles saudaram Hitler com júbilo, e depois da guerra esconderam em sua imensa propriedade vários chefes sobreviventes do Führer. Murau recebe em Roma um telegrama de suas irmãs, informando da morte dos pais e do irmão em um acidente. No enterro, os nazistas estão presentes e saúdam o caixão do velho camarada. De forma surpreendente - e um pouco abrupta -, Murau, que agora é herdeiro e novo senhor da casa paterna, decide por uma espécie de reparação: presenteia toda a propriedade à comunidade judaica de Viena. 

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Humanismo e comentário

1) O texto de Auerbach sobre Vico, no qual ele rapidamente estabelece uma filologia dos comentários envolvendo Vico, Herder e "o culto a Ossian", é de 1949 (Journal of Aesthetics and Art Criticism, vol. 8, n. 2). Três anos antes, em 1946, Martin Heidegger arma sua Carta sobre o humanismo sobre um comentário feito a partir de um questionamento de Jean Beaufret - o questionamento de Beaufret, admirador e divulgador da obra de Heidegger na França, era o seguinte: como devolver sentido à palavra 'humanismo'?
2) O comentário de Heidegger ao questionamento é por si só um questionamento das premissas utilizadas - qual a razão de sequer imaginar a necessidade de manutenção do humanismo, ou da palavra humanismo? "Eu me pergunto se isso é necessário", escreve Heidegger, "já não é suficientemente óbvio o desastre que todos os títulos desse tipo preparam?" Beaufret não apenas pressupõe que a palavra humanismo deve ser mantida, aponta Heidegger, como admite sub-repticiamente que "a palavra perdeu seu sentido". Segundo Peter Sloterdijk, em Regras para o parque humano, a "retificação da pergunta de Beaufret", empreendida por Heidegger em sua carta, "não está desprovida de uma malícia magistral, porque, à maneira socrática, ela defronta o estudante com a falsa resposta contida na questão".
3) Para que exaltar novamente o ser humano e seu autorretrato filosófico padrão como solução no humanismo, se a catástrofe do presente acaba de mostrar que o problema é o próprio ser humano, com seus sistemas metafísicos de auto-elevação e auto-explicação? Querido Beaufret, parece dizer Heidegger, é preciso começar do zero, ou talvez abandonar todo desejo de começar. Dois anos antes, Adorno e Horkheimer, na Dialética do esclarecimento, já indicavam o fim totalitário do projeto intelectual europeu. Nas palavras de Sloterdijk: "o humanismo se oferece como cúmplice natural de todos os possíveis horrores que podem ser cometidos em nome do bem humano. (...) Na visão de Heidegger, o fascismo foi a síntese do humanismo e do bestialismo; isto é, a paradoxal confluência de inibição e desinibição" (Regras para o parque humano, tradução de José Oscar Marques, Estação Liberdade, p. 31).   
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Lembrar também que Roland Barthes, em 7 de janeiro de 1977, em sua primeira fala no Collège de France, naquela que ficou conhecida como a Aula, Barthes diz que a língua não é nem reacionária nem progressista, "a língua como performance de toda a linguagem não é nem reacionária nem progressista", a língua é pura e simplesmente fascista, "porque o fascismo não consiste em impedir de dizer, mas em obrigar a dizer". 

terça-feira, 25 de junho de 2013

Imaginação e estilo

1) Quando um estudioso dinamarquês, Tom Kristensen, pediu ajuda a James Joyce na tarefa de decifrar Finnegans wake, ele respondeu: "Tom, leia Vico". "Mas você acredita na Scienza Nuova?", perguntou o dinamarquês. "Não creio em nenhuma ciência", respondeu Joyce, "mas minha imaginação cresce quando leio Vico, como não aconteceu quando li Freud ou Jung" (Ellmann, James Joyce, tradução de Lya Luft, Globo, 1989, p. 853). Não há qualquer indicação complementar acerca desse crescimento imaginativo por parte de Joyce. Ellmann também não diz nada sobre a comparação - por que justamente Jung e Freud contra Vico? Mais do que as ideias, seria a forma? Seria a "atmosfera barroca", a "nuvem de impenetrabilidade", as "dificuldades de estilo" em Vico, conforme o diagnóstico de Auerbach?
2) O problema levanta a questão do estilo, da tonalidade própria que um pensador pode imprimir em sua escritura - e talvez o traço barroco de Vico seja justamente o que tenha despertado a imaginação de Joyce. A questão do estilo no pensamento filosófico ocupou boa parte das energias de Jacques Derrida. Sua leitura de Rousseau, por exemplo, em Gramatologia, é uma leitura do posicionamento pessoal de Rousseau diante da tradição filosófica, um posicionamento que é filtrado pela dinâmica textual das Confissões (que já em seu tempo reivindicava a possibilidade do estilo).
3) A crítica que Paul de Man direciona a Derrida é também sobre Rousseau e sobre o estilo - no prefácio a Allegories of Reading, de Man escreve: I began to read Rousseau seriously in preparation for a historical reflection on Romanticism and found myself unable to progress beyond local difficulties of interpretation. Para de Man, as estratégias retóricas de Derrida em Gramatologia estão a serviço da construção do estilo de Derrida, e não a serviço da dissecação do estilo de Rousseau. Novos avatares da "nuvem de impenetrabilidade".        

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Joyce lendo Vico

1) Auerbach, ao comentar Vico, fala das "dificuldades de seu estilo" e da "atmosfera barroca de seu livro", Scienza Nuova. Isso é importante na argumentação de Auerbach porque, segundo ele, foi esse aspecto "barroco" de Vico que atrapalhou a potencial percepção de Goethe ou Herder das ideias de Vico. Como se Vico tivesse perdido a oportunidade de chegar ao romantismo alemão, que antecipava em tantos aspectos, por um triz. Mas não, por conta da "nuvem de impenetrabilidade" a Scienza Nuova terá que esperar até Croce e Nicolini, terá de esperar até o século XX, terá que esperar até James Joyce.
2) É o próprio Auerbach quem escreve: algumas das ideias básicas de Vico "parecem ter adquirido sua força integral apenas para nossa época e geração; tanto quanto sei, nenhum grande autor ficou tão impressionado com sua obra quanto James Joyce". O texto de Auerbach é de 1949. Talvez o estilo barroco que não atingiu Goethe tenha conseguido finalmente atingir alguém, atingindo James Joyce - pois é inegável que os termos utilizados por Auerbach para Vico, "dificuldades de estilo", "atmosfera barroca" e "nuvem de impenetrabilidade", podem servir também para Joyce. Richard Ellmann escreve que, "para dar forma" ao seu novo projeto - o Finnegans wake -, Joyce "reestudou Giambattista Vico". Joyce "era particularmente atraído para um emprego 'napolitano puritano' da etimologia e mitologia para revelar o significado dos acontecimentos" (James Joyce, tradução de Lya Luft, Globo, 1989, p. 683).
3) Joyce estava ligado a Vico também e evidentemente pela leitura de Homero - para Vico, Homero não era um poeta individual, mas um mito que condensava inúmeros poetas espalhados pelo tempo. E nas palavras de Auerbach, Vico "não acreditava no progresso, mas num movimento cíclico da história". Eis o Ulisses: um único dia que dá acesso a um ciclo inteiro da história, sem que ele seja imediatamente reconhecível (para que ele seja repetição mas também diferença - nas palavras de outro barroco, Deleuze). 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Auerbach lendo Vico

Manuscrito de Scienza Nuova
1) Um bom exemplo dessa filologia dos comentários está no ensaio de Erich Auerbach sobre Giambattista Vico, "Vico e o historicismo estético" (Ensaios de literatura ocidental, p. 341-356). O que está em jogo na argumentação de Auerbach é o assombro diante daquilo que Vico alcançou em termos metodológicos e, principalmente, em termos de audácia e inventividade de ideias. Segundo Auerbach, Vico antecipou uma série de procedimentos que só viriam à tona historicamente com os românticos alemães - o principal desses procedimentos é justamente o tal "historicismo estético", que estabelece uma espécie de mobilidade do juízo, ou seja, "uma investigação das formas históricas e estéticas particulares", uma "tentativa de compreendê-las a partir de suas próprias condições de crescimento e desenvolvimento" e "uma rejeição dos sistemas estéticos baseados em padrões absolutos e racionalistas".
2) Sem qualquer tipo de contato com os elementos que, segundo Auerbach, tornaram tal cenário possível (Shaftesbury e Rousseau, "a tendência vitalista de certos biólogos do século XVIII", a poesia sentimental francesa e inglesa, "o culto de Ossian e o pietismo alemão"), Vico antecipou em pelo menos cinquenta anos a revolução historicista. "Ele nem sequer conhecia Shakespeare", escreve Auerbach. Vico era "um velho professor solitário da Universidade de Nápoles", que durante toda a vida "ensinara figuras de retórica latina e escrevera louvações hiperbólicas para vários vice-reis napolitanos e outras personalidades importantes". E quando finalmente decide escrever suas ideias tão inovadoras, o faz em um estilo difícil, com uma "atmosfera barroca" que cobria o livro "com uma nuvem de impenetrabilidade". 
3) Os poucos alemães que, na segunda metade do século XVIII (Vico morreu em 1744), chegaram a encostar na Scienza nuova, "não conseguiram reconhecer sua importância" (Goethe entre eles). E é aqui que entra a filologia dos comentários, quando Auerbach escreve que "esforços contínuos de estudiosos modernos para estabelecer um elo entre Vico e Herder revelaram-se bem-sucedidos depois de Robert T. Clark mostrou a probabilidade de que Herder tenha encontrado inspiração, para algumas de suas ideias sobre a língua e a poesia, nas notas de Denis à tradução alemã de Macpherson. Denis apropriara-se das notas de Cesarotti, um tradutor italiano de Ossian que estava familiarizado com as ideias correspondentes de Vico". Ou seja, Herder poderia ter tido contato com as ideias de Vico através das notas de Denis aos escritos de um terceiro que, esse sim, teria lido Vico diretamente. No parágrafo seguinte, Auerbach descarta a hipótese como excessivamente especulativa.  

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Retornos à filologia

W. J. Bate, 1918-1999
1) Poucos anos depois da publicação de Orientalismo, em 1978, livro no qual Said procura oferecer um relatório dos aspectos traumáticos da formação da filologia como disciplina moderna, poucos anos depois, portanto, no início da década de 1980, Paul de Man escreve o ensaio "The Return to Philology", publicado em 10 de dezembro de 1982 no Times Literary Supplement. Apesar do teor programático do título, o ensaio nasceu como uma resposta pontual de Paul de Man às considerações de Walter Jackson Bate, professor em Harvard, sobre o ensino de literatura nos Estados Unidos ("The Crisis in English Studies", Harvard Magazine, set-out. 1982). 
2) Parte do trabalho da filologia está no estudo dos comentários, ou seja, o estudo da natureza e das funções dos comentários e a história das práticas de leitura revelada pelos comentários. Um texto como o Pierre Menard de Borges diz mais sobre um contexto histórico específico de comentário do que sobre o Dom Quixote em si - embora o conto de Borges seja também uma leitura de Cervantes. Os retornos de Paul de Man e Edward Said à filologia são, portanto, comentários ao campo da filologia e aos seus instrumentos, e carregam a dinâmica própria dessa "história das práticas de leitura". 
3) O que Said tem mente, ao menos em parte, no andamento de Orientalismo, é a filologia das "línguas históricas" e o complexo relacionamento disso com as políticas imperialistas durante uma diacronia bastante extensa. De Man, por outro lado, reivindica domínios mais restritos - sua insistência retórica ganha ares mais concretos quando se pensa no posicionamento institucional que se buscava para o pensamento da desconstrução na época de publicação do ensaio. Jacques Derrida, em O olho da universidade, resgata o ensaio de Paul de Man e também o texto inicial de W. J. Bate, que Derrida qualifica de "ignorante" e "irracional". Já são ao menos três retornos: o retorno da filologia ao passado, seu gesto definidor; o retorno de Paul de Man à filologia; e, finalmente, o retorno de Derrida ao retorno de Paul de Man - um "retorno" que é traduzido por Derrida como "disputa", confronto entre aqueles que leem e aqueles que não leem o suficiente.   

domingo, 16 de junho de 2013

Filologia e orientalismo

1) Para o Foucault de As palavras e as coisas (no capítulo "Trabalho, vida, linguagem"), a invenção da moderna filologia como um campo de estudo histórico e gramatical deve-se a um sujeito chamado Franz Bopp (1791-1867). Enquanto Napoleão virava do avesso a geografia europeia, Bopp passava doze horas por dia nas bibliotecas de Paris, lendo manuscritos em sânscrito. Foucault insiste na mudança de paradigma que aconteceu com Bopp: pela primeira vez um estudo sistemático relacionava o grego, o latim, o sânscrito, o persa, o alemão, não por suas características morfológicas comuns, e sim por suas estruturas gramaticais, flexões e composições comuns. "A linguagem tornada objeto", escreve Foucault (desnaturalizada, "profanada", como diria Agamben).  
2) A ideia de profanação pode servir também para ler os comentários que Edward Said faz sobre Bopp, Foucault e a filologia. Em Orientalismo, Said aponta que essa "descoberta da linguagem" enunciada por Foucault, ou seja, a descoberta da linguagem como objeto, é desdobramento de uma situação maior - uma situação que diz respeito justamente ao caráter religioso, sobrenatural, metafísico da linguagem e de sua origem. Orientalismo está cheio de referências a Cuvier, Franz Bopp e sir William Jones, figuras mobilizadas por Foucault no capítulo de As palavras e as coisas dedicado à delimitação histórica da emergência da filologia. 
3) Uma dicotomia cristã e europeia é abalada nessa "descoberta da linguagem", uma vez que fica exposto um substrato comum, um sistema arcaico de relações entre Ocidente e Oriente que se dão na esfera da linguagem, da comunicação. Mas a hipótese de Said é que esse contato é seletivo e que esse sistema de relações será filtrado por um rigoroso desejo de controle - por isso a menção a Napoleão não é gratuita, pois é com ele que esse desejo de controle, aliado a um desejo de contato seletivo, ganha corpo histórico. A filologia inovadora de Bopp só pôde acontecer por meio da vasta quantidade de materiais recolhidos pelo orientalista William Jones no Oriente e levados ao Ocidente - um dos pilares da construção moderna da Europa, portanto, depende desse fluxo estrangeiro.