quarta-feira, 8 de junho de 2011

Sapatos, 2

Há uma infinidade de histórias detetivescas que são resolvidas (ou encaminhadas, ou perdidas) a partir da pegada, da caminhada: a intensidade da pisada determina se é destro ou canhoto; um tipo muito específico de terra acumulada na sola diz muito sobre o terreno percorrido (que pode ser o terreno do crime); o respingo de um resíduo pode determinar um ofício (Roberto Arlt em seu laboratório, em sua fábrica improvisada de borracha). Há inclusive um assassino descoberto pela pegada muito característica que sua prótese deixou numa poça (em The international, de Tom Tykwer) - no fim das contas, a única parte que não era naturalmente sua foi responsável por determinar sua identidade num momento crucial. Nenhum cadáver é enterrado com os sapatos postos, e os assassinos, na tentativa de invadir algum lugar sorrateiramente, geralmente estão a) sem sapatos; b) na ponta dos pés ou c) com os sapatos protegidos por aquelas meias hospitalares, como Mark Wahlberg executando Matt Damon no final de The departed.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sapatos, 1

O ofício da caminhada é mágico - colocar um pé diante do outro, desde a primeira luz da manhã até o anoitecer, mirando sempre adiante. Os hebreus rodearam a Terra Prometida durante quarenta anos, como se a caminhada fosse necessária para abrir a mente - eles literalmente andaram em círculos, um ano depois do outro, desde a primeira luz da manhã até o anoitecer. Walter Benjamin, como tantos jovens alemães da época, participava daqueles grupos que, entre outras coisas, organizavam longas caminhadas pela floresta. Walser, Sebald, Bruce Chatwin. The way back, de Peter Weir. A caminhada da fuga e da vergonha que Céline organiza em De castelo em castelo. As marcas inerentes a todo exercício de movimentação, mas uma movimentação intensiva, exaustiva. Eu não sei quantas pinturas Van Gogh fez de sapatos, mas sei que o que está em jogo na imagem não é a representação do objeto. Talvez o que apareça no objeto-sapato de Van Gogh seja uma possibilidade de memória, uma possibilidade de jogo diante da morte, do vazio, do nada. Isso porque o sapato surrado guarda a forma do pé de um morto, de um corpo que já é pó, e a pintura de Van Gogh - que é tudo que nos resta - guarda a forma de uma forma vazia, faz uma segunda ficção de uma presença que era ausente desde o princípio, desde quando ainda existia o objeto-fantasma.
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A caminhada de Martin Heidegger e René Char pela região de Le Thor, na França, onde o primeiro dava seus seminários. "Olho a foto de René Char ao lado de Heidegger", escreve Milan Kundera em um dos ensaios de Une rencontre (Gallimard, 2009), "um celebrado como membro da resistência contra a ocupação alemã. O outro denegrido por causa das simpatias que teve, num certo momento de sua vida, pelo nazismo nascente. A foto data dos anos do pós-guerra. Nós os vemos de costas; com um boné na cabeça, um grande, o outro pequeno, eles caminham pelo campo. Gosto muito dessa foto". A foto foi tirada por Roger Munier, aluno de Heidegger, em algum ponto entre 1966 e 1969.
 

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Arquivo e discurso

Falando sobre a mídia eletrônica e sobre a vertiginosa disseminação dos ditos e escritos na contemporaneidade, Edward Said (ainda em Humanismo e crítica democrática) escreve o seguinte: As nossas ideias atuais de arquivo e discurso devem ser radicalmente modificadas e já não podem ser definidas como Foucault a duras penas tentou descrevê-las apenas há duas décadas [o texto de Said é de 2002; Arqueologia do saber, de Foucault, é de 1969]. Said fala que um artigo seu, escrito em Nova York para um jornal britânico, pode ser replicado por incontáveis pessoas em páginas pessoais e aparecer em todos os continentes. A partir disso, como definir um leitor possível para aquilo que é escrito? Impossível (sequer necessário). Quando li o trecho sobre Foucault, pensei: 1) radicalmente modificadas é a proposta de uma tarefa bastante exaustiva; 2) no mesmo gesto, ele recusa e incorpora Foucault, sem necessariamente apontar um novo rumo; ele apenas enuncia a lacuna; 3) o esforço de Foucault - "duras penas" - foi apenas uma tentativa - "tentou descrevê-las" - e caducou rapidamente; 4) uma modificação tão profunda nas concepções de arquivo e discurso transforma não apenas a circulação do que é dito/escrito, mas a própria forma de fazê-lo: isso implica outro procedimento de leitura e de escritura da leitura.

terça-feira, 24 de maio de 2011

A espera

Rubem Fonseca nasceu em 1925. Ignacio de Loyola Brandão nasceu em 1936. Ferreira Gullar, 1930. Ivan Ângelo, 1936. João Gilberto Noll, 1946. João Ubaldo Ribeiro, 1941. Luiz Vilela, 1942. Silviano Santiago, 1936. Francisco Alvim, 1938. Manoel de Barros, 1916.

sábado, 21 de maio de 2011

Reescrevendo um procedimento de Gógol

Que beleza são os livros da Ars Poetica. São poucos, mas o são veementemente. Lá está Nabokov, em fotobiografia e na biografia que escreveu de Gógol. Está Andrei Biéli, com Petersburgo - justamente um dos quatro melhores romances do século para Nabokov (os outros são A metamorfose, Em busca do tempo perdido e Ulisses). Nabokov exalta em Gógol a presença desses personagens obscuros, que aparecem somente para sumir. "Obscuros", no entanto, é tudo que não são: ao contrário, são tão memoráveis e intensos justamente pela luz quase desesperada que Gógol joga sobre eles, de repente. A biografia escrita por Nabokov é, sem dúvida, uma grande homenagem. Mas a homenagem maior é aquela que Nabokov oferece a partir da vivência constante com um procedimento, com um gesto técnico que ele absorve de Gógol, que é justamente a atração doentia pelos personagens pseudo-obscuros. Porque é aí que cintila o gênio, e Nabokov simplesmente não pode perder essa oportunidade. Como naquela passagem de Look at the Harlequins! em que o narrador - sempre um sujeito muito parecido com Vladimir - vai ao dentista, para uma consulta que nem se realiza, e enquanto espera observa as outras pessoas que estão ali, e encontra um "jovem de ar culto", afundado numa "poltrona almofadada", concentrado em suas anotações. O jovem, "talvez um romancista", rabisca intensamente em sua caderneta, e o narrador acredita que ele está levando para o papel todas as coisas aparentemente banais que estão no ambiente, e que mais tarde poderão servir para um hipotético romance. O curioso é que Look at the Harlequins! é construído por seu narrador justamente com a ajuda das cadernetas que ele próprio preencheu na época relembrada, a época em que conheceu sua mulher, que passou uma temporada em "Cannice" (contração jocosa de Cannes com Nice) e que encontrou essa porção de personagens que nunca mais voltarão. O narrador frequentemente escreve coisas como: "estas últimas impressões vieram diretamente de meus cadernos", ou "a reconstrução dessa cena seria impossível sem meus abarrotados diários da época". Com o passar das páginas, a aparição daquele "jovem romancista" numa sala de espera de dentista passa a ficar cada vez menos aleatória (e isso acontece com uma porção de outros eventos "obscuros"), ainda que essa aleatoriedade gogoliana seja permanente, pacientemente cultivada e diferida.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

A reescrita de um livro de Auerbach

1) Como dizer qualquer coisa de definitivo sobre um sistema crítico tão complexo como o de Erich Auerbach? Alguns descartam Mimesis, seu principal livro, alegando que há reverência excessiva à tradição ocidental e a seus pressupostos "universais". Edward Said, em um dos textos de Humanismo e crítica democrática (Companhia das Letras, 2007), apresenta seu próprio Auerbach - a desleitura de Said dá ênfase às descontinuidades, aos pontos heterogêneos que persistem em Mimesis. Eu não conhecia esse Mimesis. A partir de sua leitura, Said reescreve Mimesis, reposiciona Auerbach diante do contemporâneo. Com Said, Mimesis adquire uma consciência profunda da fragmentação trágica da modernidade tardia, e sofre com isso.
2) Na página 140 do ensaio que está para terminar ("Introdução a Mimesis, de Erich Auerbach"), Said observa de perto a leitura que Auerbach faz de Goethe, que recebe um tratamento duro, "ainda que saibamos que Auerbach amava sua poesia e o lia com o maior prazer". Said vê, na condenação de Auerbach ao gosto conservador de Goethe, um ressentimento que extrapola a pura consideração filológica e alcança a história europeia recente. Auerbach estava exilado na Turquia, fugindo de Hitler, e Said acredita ver na leitura de Goethe uma reflexão sobre elementos arcaicos da cultura alemã que conduziram aos horrores do seu presente. A aversão de Goethe às mudanças sociais, revoluções e aos estratos populares da cultura europeia são as pistas que Said colhe em sua leitura. Mais do que um conjunto de características mais ou menos aleatórias da personalidade de Goethe, Auerbach depreende daí a gestação de um espírito alemão afeito à insegurança e à violência.
3) Tanto Said como Carlo Ginzburg, outra grande inteligência que várias vezes apontou Mimesis como livro fundamental em sua formação, sublinham a densidade do projeto de Auerbach, que fez não apenas um livro de análise literária, mas também um tratado sobre um método filológico até então poucas vezes ensaiado, que articula a particularidade mais irrisória (o lenço, a cicatriz, o salto da bota de inverno) em conjunto com o gesto histórico mais abrangente. O procedimento crítico de Auerbach procura absorver as melhores realizações estéticas da modernidade, e tanto Said como Ginzburg afirmam que Mimesis é também uma mescla de estilos, o embate de uma consciência altamente treinada com uma tradição infinita (como em Proust, Kafka, Joyce ou Freud), produto de um sujeito que tem noção de sua parcialidade e do caráter irrevogável de seu fracasso.