Há uma hora
Falando sobre a mídia eletrônica e sobre a vertiginosa disseminação dos ditos e escritos na contemporaneidade, Edward Said (ainda em Humanismo e crítica democrática) escreve o seguinte: As nossas ideias atuais de arquivo e discurso devem ser radicalmente modificadas e já não podem ser definidas como Foucault a duras penas tentou descrevê-las apenas há duas décadas [o texto de Said é de 2002; Arqueologia do saber, de Foucault, é de 1969]. Said fala que um artigo seu, escrito em Nova York para um jornal britânico, pode ser replicado por incontáveis pessoas em páginas pessoais e aparecer em todos os continentes. A partir disso, como definir um leitor possível para aquilo que é escrito? Impossível (sequer necessário). Quando li o trecho sobre Foucault, pensei: 1) radicalmente modificadas é a proposta de uma tarefa bastante exaustiva; 2) no mesmo gesto, ele recusa e incorpora Foucault, sem necessariamente apontar um novo rumo; ele apenas enuncia a lacuna; 3) o esforço de Foucault - "duras penas" - foi apenas uma tentativa - "tentou descrevê-las" - e caducou rapidamente; 4) uma modificação tão profunda nas concepções de arquivo e discurso transforma não apenas a circulação do que é dito/escrito, mas a própria forma de fazê-lo: isso implica outro procedimento de leitura e de escritura da leitura.
Que beleza são os livros da Ars Poetica. São poucos, mas o são veementemente. Lá está Nabokov, em fotobiografia e na biografia que escreveu de Gógol. Está Andrei Biéli, com Petersburgo - justamente um dos quatro melhores romances do século para Nabokov (os outros são A metamorfose, Em busca do tempo perdido e Ulisses). Nabokov exalta em Gógol a presença desses personagens obscuros, que aparecem somente para sumir. "Obscuros", no entanto, é tudo que não são: ao contrário, são tão memoráveis e intensos justamente pela luz quase desesperada que Gógol joga sobre eles, de repente. A biografia escrita por Nabokov é, sem dúvida, uma grande homenagem. Mas a homenagem maior é aquela que Nabokov oferece a partir da vivência constante com um procedimento, com um gesto técnico que ele absorve de Gógol, que é justamente a atração doentia pelos personagens pseudo-obscuros. Porque é aí que cintila o gênio, e Nabokov simplesmente não pode perder essa oportunidade. Como naquela passagem de Look at the Harlequins! em que o narrador - sempre um sujeito muito parecido com Vladimir - vai ao dentista, para uma consulta que nem se realiza, e enquanto espera observa as outras pessoas que estão ali, e encontra um "jovem de ar culto", afundado numa "poltrona almofadada", concentrado em suas anotações. O jovem, "talvez um romancista", rabisca intensamente em sua caderneta, e o narrador acredita que ele está levando para o papel todas as coisas aparentemente banais que estão no ambiente, e que mais tarde poderão servir para um hipotético romance. O curioso é que Look at the Harlequins! é construído por seu narrador justamente com a ajuda das cadernetas que ele próprio preencheu na época relembrada, a época em que conheceu sua mulher, que passou uma temporada em "Cannice" (contração jocosa de Cannes com Nice) e que encontrou essa porção de personagens que nunca mais voltarão. O narrador frequentemente escreve coisas como: "estas últimas impressões vieram diretamente de meus cadernos", ou "a reconstrução dessa cena seria impossível sem meus abarrotados diários da época". Com o passar das páginas, a aparição daquele "jovem romancista" numa sala de espera de dentista passa a ficar cada vez menos aleatória (e isso acontece com uma porção de outros eventos "obscuros"), ainda que essa aleatoriedade gogoliana seja permanente, pacientemente cultivada e diferida.
1) Como dizer qualquer coisa de definitivo sobre um sistema crítico tão complexo como o de Erich Auerbach? Alguns descartam Mimesis, seu principal livro, alegando que há reverência excessiva à tradição ocidental e a seus pressupostos "universais". Edward Said, em um dos textos de Humanismo e crítica democrática (Companhia das Letras, 2007), apresenta seu próprio Auerbach - a desleitura de Said dá ênfase às descontinuidades, aos pontos heterogêneos que persistem em Mimesis. Eu não conhecia esse Mimesis. A partir de sua leitura, Said reescreve Mimesis, reposiciona Auerbach diante do contemporâneo. Com Said, Mimesis adquire uma consciência profunda da fragmentação trágica da modernidade tardia, e sofre com isso.