segunda-feira, 21 de março de 2011

Gênios, 2

Rafael, tanto quanto qualquer outro artista, foi condicionado pelos avanços técnicos da arte realizados antes dele, pela organização da sociedade, pela divisão do trabalho em sua localidade e, por fim, pela divisão do trabalho em todos os países com os quais sua localidade manteve contato. O fato de um indivíduo como Rafael desenvolver seu talento depende totalmente da demanda, que por sua vez depende da divisão do trabalho e das relações culturais entre as pessoas daí resultantes. Stirner põe-se muito atrás da burguesia ao proclamar a individualidade do trabalho científico e artístico. As pessoas já veem agora como necessário organizar essa atividade "individual". Horace Vernet não teria tido tempo para a décima parte de seus quadros, se os tivesse tomado como trabalhos "que apenas tal indivíduo é capaz de executar". A grande demanda por vaudevilles e romances em Paris ocasionou uma organização do trabalho para a produção desses artigos, a qual engendra sempre algo melhor do que seus concorrentes "individuais" na Alemanha.

Marx, citado por Dolf Oehler em Quadros parisienses, Companhia das Letras, 1997, p. 144-145.

sábado, 19 de março de 2011

Gênios, 1

Os latinos chamavam Genius ao deus a que todo homem é confiado sob tutela na hora do nascimento. Os presentes e os banquetes com que festejamos os aniversários são uma lembrança das festas e dos sacrifícios que as famílias romanas ofereciam ao Genius no aniversário de seus membros. Genius era, de algum modo, a divinização da pessoa, o princípio que rege e exprime a sua existência inteira. E dado que esse deus é, de certa forma, o mais íntimo e próprio, é necessário aplacá-lo e tê-lo bem favorável sob todos os aspectos e em todos os momentos da vida. É preciso ser condescendente com Genius e abandonar-se a ele; a Genius devemos conceder tudo o que nos pede, pois sua exigência é nossa exigência; sua felicidade, nossa felicidade. Mesmo que pareçam caprichosas, convém aceitar suas pretensões. Se, para escrever, tendes necessidade do papel amarelinho, da caneta especial, da luz fraca que desce da esquerda, é inútil dizer que qualquer caneta cumpre a tarefa, ou qualquer papel, ou qualquer luz. Se não vale a pena viver sem a camisa de linho azul, se não parece possível continuar vivendo sem os cigarros envoltos em papel preto, de nada serve ficar repetindo que são simples manias, que seria hora de criar juízo. Fraudar o próprio gênio significa ludibriar a si mesmo. E genial é a vida que distancia da morte o olhar e responde sem hesitação ao impulso do gênio que o gerou. O Genius é uma zona de não-conhecimento, é essa presença inaproximável que impede que nos fechemos em uma identidade substancial. Genius é essa parte de nós que sobrevive para sempre imatura, infinitamente adolescente. Toda tentativa de Eu, do elemento pessoal, de se apropriar de Genius, de obrigá-lo a assinar seu nome, está destinada a fracassar. Há uma ética das relações com Genius que define a classe de cada ser.

Giorgio Agamben. "Genius". Profanações. Boitempo, 2007. p. 17-20.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Gênios

Os gênios são laboriosíssimos. O gênio típico labuta arduamente por no mínimo dez anos antes de dar alguma contribuição de valor permanente. (Mozart compôs sinfonias aos oito anos, mas elas não eram realmente boas; sua primeira obra-prima surgiu no décimo segundo ano de sua carreira.) Durante o aprendizado, os gênios mergulham em sua área de atuação. Absorvem dezenas de milhares de problemas e soluções, e assim nenhum desafio é completamente novo e eles podem recorrer a um vasto repertório de padrões e estratégias. Eles mantêm um olho na concorrência e um dedo ao vento e são perspicazes ou afortunados em sua escolha de problemas. Atentam para a estima dos outros e para seu lugar na história. Eles trabalham noite e dia e nos deixam muitas obras de subgênios. (Wallace passou o final de sua carreira tentando comunicar-se com os mortos.) Os intervalos que passam afastados de um problema são úteis não porque fermentam o inconsciente mas porque eles estão exaustos e precisam de descanso (e possivelmente para que possam esquecer os becos sem saída). Eles não reprimem um problema, mas dedicam-se a uma "preocupação criativa", e a epifania não é um golpe de mestre, mas um leve ajuste em algo já tentado anteriormente. Eles fazem incessantes revisões, aproximando-se gradualmente de seu ideal.

Steven Pinker. Como a mente funciona. Companhia das Letras, 1998, p. 382.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Boato, 1

1) O boato tem íntima relação com a paranoia. Ao mesmo tempo em que nega sua origem, postulando um nascimento anônimo, o boato precisa guardar algumas marcas de legitimidade durante seu percurso. O boato circula com densidades muito diversas. Os alemães atacarão pela manhã. Ela tem um amante. O boato está dentro e fora, simultaneamente. Ele leva consigo elementos do "possível" para melhor desvirtuá-lo, podendo negar sua tangibilidade ao menor sinal de confronto. Hamlet não seria possível sem o boato. Não é à toa que Lacan tenha ido aos registros de seu seminário para apagar a fala e colocar "(...)" no lugar: é no arquivo que o boato ganha feições definidas e, portanto, morre.
2) Severino Di Giovanni (1901-1931), militante anarquista italiano perseguido pelo fascismo, chegou a Buenos Aires em 1923 a bordo do vapor Sofia, na última grande leva de imigrantes italianos aportados na Argentina antes da Segunda Guerra Mundial. Foi florista, professor autodidata, tipógrafo, linotipista, operário e, sobretudo, agitador, tendo vivido na clandestinidade a maior parte de sua curta existência. Partidário da ação violenta, foi preso, torturado pela polícia do ditador Uriburu e condenado à morte. Entre os jornalistas presentes à sua execução estava Roberto Arlt, que retratou a cena na crônica "He visto morir...", publicada em El mundo e incluída em Aguasfuertes porteñas. Enterrado na calada da noite por ordem das autoridades, seu túmulo no cemitério de Chacarita amanheceu coberto de rosas vermelhas.

terça-feira, 15 de março de 2011

Boato

1) Jacques Derrida publicou inúmeros livros híbridos - mesclados, atravessados, esquisitos. Como em Joyce: a leitura de um livro deve levar quase tanto tempo quanto sua escritura. Não li todos - desista -, mas gosto bastante de O cartão-postal. A primeira metade é ficcional, biográfica. Um diário de Derrida, de 1977 a 1979. Funciona um pouco como O mal de Montano, um pouco como aquele trecho do diário de Calvino publicado em Eremita em Paris. Na entrada do dia 8 de julho de 1979, Derrida conta uma história curiosa: um amigo canadense lhe diz que Serge Doubrovsky, no meio de uma conferência que dava em Montreal, disse à plateia: Jacques Derrida está fazendo análise. Derrida acha graça, porque é mentira, e lembra outro caso, ocorrido em 1977: Jacques Lacan está em seu seminário - o seminário de número 24, L'insu que sait de l'une-bévue s'aile à mourre (se você quiser traduzir isso, boa sorte) - e de repente fala para a plateia: esse rapaz, Jacques Derrida, está em análise.
2) Derrida gosta de deixar claro, e o faz também nesse dia, 8 de julho de 1979: nunca passou pela situação analítica. Sua análise se dá, talvez, no trabalho da escrita, na escuta dos seminários. Quando René Girard pergunta a Lacan o que acha de Derrida, Lacan responde: tudo muito bem, tudo muito bom, mas a diferença entre nós é que ele não lida com pessoas em sofrimento. E agora? Derrida encontra falogocentrismo e metafísica da presença também na cena analítica - nessa cena do véu que separa o Santo do Santíssimo no Tabernáculo do Senhor, aquele construído pelos levitas quando o nomadismo era ainda uma lembrança recente. E Derrida vê essa cena da separação se repetindo em todos os cantos - e os sacerdotes da separação como acompanhantes.
3) Derrida não fala, mas Doubrovsky é o sujeito que primeiro mencionou a expressão "autoficção" - utilizada também por Vila-Matas justamente em O mal de Montano. Derrida também não fala, mas o chiste do rapaz muito provavelmente veio de Lacan, a fonte do boato. Derrida se pergunta: o que fiz para que a verdade de seus desejos esteja na indecidibilidade de minha situação analítica, sempre postergada, sempre suspensa? A verdade do desejo: o que quer que seja, está sempre por trás do véu.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Não-lidos

Eu olho para a pilha de não-lidos e tomo até um susto: dois livros de Bruce Chatwin que mal passei os olhos - e desde que li Utz, algumas semanas atrás, não há dia que não lembre da figura daquele colecionador pacífico e retraído, parente dos tios bósnios de Aleksandar Hemon, por exemplo (que são parentes daqueles arquivistas dos resíduos que encontramos em Bohumil Hrabal). Os livros de Chatwin convivem pacificamente com Perder teorías, um livrinho fino de Vila-Matas que saiu ano passado. Perder teorías, reza o prefácio, serve de suplemento a Dublinesca - e como não gostei muito desse último, seu suplemento continua ali, na pilha. Às vezes me perco na anedota, na busca por uma história pitoresca, algo que possa contar por aí, algo que dê a medida exata do esforço de vasculhar as páginas: é o que acontece com aquela história mínima que Dashiell Hammett conta em O falcão maltês, do homem que foge depois de quase ser esmagado por uma viga; ou aquele mendigo absurdo que cruza uma história de Saul Bellow. Às vezes me perco na palavra exata, persigo um significante, fico caçando uma modulação, um ritmo singular, uma deriva turva que acaba não levando a nada: como aquele dia em que fui atrás das lagostas, ou quando fui atrás dos usos da palavra comadreja nos contos de Roberto Bolaño. Alguns deles me olham da pilha e parecem dizer: desista.

terça-feira, 8 de março de 2011

Três textos para três acadêmicos tristes

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Como diria a sábia Monique Evans: porque é que eu vou pagar alguém pra falar de mim se eu mesma posso fazer isso?
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1) O primeiro deles é sobre Carlo Ginzburg, historiador italiano que gosto muito. O texto pretende emular inclusive a forma dos ensaios de Ginzburg: seções curtas, encadeamentos aparentemente frouxos que se unem vigorosamente no final. A ideia era um pouco psicanalítica: ler algumas escolhas intelectuais de Ginzburg a partir de certas balizas biográficas. Nada inventado; o mote vem de um ensaio autobiográfico do próprio.
2) O segundo, chamado O testemunho e a literatura, fala bastante de Giorgio Agamben - com pinceladas de Sebald e outros. É uma breve reflexão sobre o estatuto da linguagem no testemunho e na literatura, digamos, de invenção.
3) O terceiro tem um título pomposo: Palimpsestos e sobrevivências: o ser e o sentido na filosofia e na literatura. Fala basicamente de Jacques Derrida, atravessando casos literários bem pontuais, como Kafka ou Sérgio Sant'Anna. Foi escrito há muito tempo e só agora saiu. O fantasma sobre esse texto é Bataille, que não é mencionado. Especialmente aqueles textos que dedicou às moedas que encontrou na Biblioteca Nacional, em Paris.